22 junho 2017

ASTÉRIX E CLEÓPATRA (6)

O farol de Alexandria era uma das sete maravilhas do Mundo e também a mais recente de todas elas. Mesmo assim, quando Astérix chegou ao Egipto, já existia há 200 anos.

MOSSUL: A BATALHA URBANA QUE DURA HÁ MAIS TEMPO DO QUE ESTALINEGRADO


Já não é a primeira vez que falo do tema, mas a verdade é que nada aconteceu depois disso. Os meses passam, as proclamações da libertação de Mossul do controle das forças do Estado Islâmico sucedem-se com tal regularidade que se pode dizer mesmo que se acumulam, quais peças num cesto da roupa suja. Os órgãos de comunicação social de todo o Mundo continuam a retransmitir aquelas proclamações acriticamente como se os jornalistas não possuíssem cérebro nem memória. Se calhar não possuem mesmo, e é para ser mesmo assim, uma extensão da propaganda ocidental. Não o fosse e essa e tantas outras questões impertinentes pôr-se-iam a respeito de muitos outros assuntos que não somente o de Mossul. Por exemplo: que é feito, onde andam e que têm feito os dois porta-aviões que os Estados Unidos mobilizaram para as águas coreanas, ostensivamente para intimidar a Coreia do Norte? A verdade é que a intimidação não parece estar a dar efeito: mesmo com os dois porta-aviões à porta(?), os norte-coreanos devolveram um prisioneiro americano mesmo a tempo para que ele não lhes morresse nos braços. E aí, onde Donald Trump tinha razões para urrar de indignação, já havia gasto os seus estados de alma em tweets precedentes provocados por razões de lana caprina. Mas retornemos à Batalha de Mossul, a tal cidade do Iraque que anda a ser libertada há oito meses(!). Vai-se aos números publicitados e os atacantes dispõem de uma vantagem de efectivos de 10 para 1. Quanto a meios militares, é melhor nem falar. Mas quanto às promessas e proclamações elas já passaram do ridículo para o outro lado. Para comparação, a famosa Batalha de Estalinegrado da Segunda Guerra Mundial durou uns meros cinco meses e meio. Só que aí, sabe-se, havia raiva de um lado e outro, de atacar mas também de resistir, mesmo quando os papéis se inverteram. Neste caso, a suspeita é que, perante um tal arrastar dos acontecimentos, não esteja a haver grande vontade de atacar. Quando as televisões vão à «frente de combate» para captar imagens para a notícia que anunciará a próxima queda de Mossul para os iraquianos, dão-se uns tiros para o outro lado para que os repórteres filmem, mas dá toda a impressão que a ideia é que se está à espera que os gajos do Estado Islâmico se chateiem e vão mesmo embora sem que os soldados iraquianos tenham que combater. É essa a impressão, a de que do lado iraquiano ninguém está com vontade de se deixar matar por Mossul. A força do Estado Islâmico não será própria, advém é da fraqueza daqueles que o combatem. Mas, se a impressão estiver errada, aí convém que os jornalistas, em vez de ainda mais proclamações, comecem a filmar a ferocidade de combates que, pela duração da Batalha, ofuscarão decerto em ferocidade os que se desenrolaram em Estalinegrado.

A REMOÇÃO DO «CHECKPOINT CHARLIE»

Berlim, 22 de Junho de 1990. Sem cerimónia, uma grua removia aquele que se tornara num dos mais famosos casinhotos fronteiriços de todo o Mundo, indispensável de figurar em qualquer bom filme de espiões. Num mau filme de espiões também... O casinhoto foi para um Museu mas deixou saudades. Tantas que lá edificaram uma réplica e o local que o rodeava, para recuperar uma expressão do vídeo abaixo, tornou-se numa espécie de Disneylândia da Guerra-Fria.

21 junho 2017

AS ELEIÇÕES E A TELEVISÃO

As duas imagens são de coberturas televisivas de actos eleitorais. Propositadamente, os momentos referem-se a resultados referentes ao mesmo círculo eleitoral, o do distrito de Viana do Castelo. E existem cinco anos e meio a separar as duas transmissões televisivas. Mas, atenção, não se trata de uma evolução na continuidade: entre Outubro de 1969 (acima) e Abril de 1975 (abaixo) houve um golpe de Estado (25 de Abril de 1974) e uma revolução em curso (o famigerado PREC). E é por isso que vale a pena apreciar e comparar o conteúdo dos quadros que eram exibidos aos telespectadores. Afinal, cinco anos é a duração de um mandato presidencial. Em 1969 as candidaturas eram poucas (4) e no caso concreto do círculo de Viana do Castelo, houvera apenas a concorrência entre o regime (a UN, União Nacional) e uma oposição (a da CDE, Comissão Democrática Eleitoral). Naquele momento o escrutínio já estava encerrado, e os um pouco menos de 40 mil votos haviam resultado numa maioria esmagadora (de 88%, os quadros ainda não mostravam percentagens) à situação. No quadro não está também contemplada a informação respeitante aos mandatos, mas também seria uma informação supérflua, pois, das regras, a lista vencedora ficaria com todos os mandatos (4 - para os mais curiosos sobre estes assuntos vale a pena dar uma espreitada a esta simulação).
Em 1975 as candidaturas à escala nacional haviam-se multiplicado de 4 para 12, das quais havia 9 que se apresentavam pelo círculo de Viana do Castelo. Note-se que neste quadro, apresentado tarde na noite (03H00-04H00 da manhã?), mostrava-se ainda apenas os resultados parciais recolhidos até aí para o distrito. Um dos resultados do 25 de Abril fora a facilitação da capacidade do voto. Como se se tratasse de uma penada, o eleitorado de Viana do Castelo passou dos menos de 40 mil votos de 1969 para o quádruplo disso em 1975: 157 mil eleitores. Eram muito mais votos para contar e o mesmo problema se colocava por todo o país. Como se pode perceber lendo os números de baixo do quadro, mesmo àquela hora, só um pouco menos de ⅓ dos votos haviam sido contados (uns 50 dos 157 mil potenciais eleitores). Mas o número de votos já contados já superava a votação total de 1969. Única organização repetente, a CDE (agora designada MDP/CDE) totalizava 2.324 votos e 5,2%, que eram valores absolutamente superiores mas relativamente inferiores aos que obtivera em 1969. Naquele círculo, o escrutínio afigurava-se prometedor para o PPD, o PS e o CDS (por esta ordem), que iriam repartir entre si os seis mandatos de deputados que o distrito passou a eleger, conforme se pode ver no quadro com os resultados definitivos abaixo. Era toda uma outra legitimidade democrática, a que era conferida pelos 140 mil eleitores de 1975, quando comparada com os 40 mil de 1969.

MENAHEM BEGIN COMO PRIMEIRO-MINISTRO DE ISRAEL

Há quarenta anos, Menachem Begin tornava-se primeiro-ministro de Israel. Era o sexto a ocupar o cargo em 29 anos de história do Estado, mas o seu executivo era o primeiro que não contava com o apoio da esquerda israelita. Por um lado, a presença da esquerda no poder em Israel durante essas três primeiras décadas (que fora muito bem promovida, de resto: não havia nada de mais igualitário do que os kibutzim, verdadeiros kolkhozes do deserto!) refreara um pouco o alinhamento que se conferia a Israel no quadro da Guerra-Fria. (Ainda outro dia li alguém a confessar aqui numa rede social que, mesmo sendo daquele esquerda que não pode ser outra coisa senão de esquerda, simpatizava com o lado dos israelitas em 1967, durante a Guerra dos Seis Dias). Contudo, por outro lado, e para a concretização de negociações de paz, essa mesma esquerda sempre vivera sob a sombra das acusações de brandura no tratamento com os inimigos árabes por parte desta mesma direita mais radical que em 1977 chegava finalmente de forma isolada ao poder. Menachem Begin fora um dirigente terrorista durante o período colonial britânico (como a notícia do Diário de Lisboa de há 40 anos faz acima questão de frisar). O seu inimigo haviam sido não apenas os árabes mas também os britânicos. E como político do novo Estado de Israel, Begin era daqueles que não se mostrava "nada modesto no pedir": veja-se a configuração de Israel que consta no mapa da foto abaixo, onde o vemos a discursar num comício - inclui não só Israel mas também toda a Jordânia! Porém, o facto de não ter (quase) ninguém a criticá-lo por moderação iria ajudá-lo a conseguir um Tratado de paz com o Egipto dali por dois anos. Pareceu o início de um ciclo em que Israel iria conseguir firmar progressivamente acordos separados com todos os seus vizinhos árabes, trocando a posição militar vantajosa que alcançara em 1967 e 1973 por segurança dentro das fronteiras que a ONU lhe reconhecera. Parecia, mas não foi assim. Os contornos do conflito alteraram-se mas, feitas as contas, Begin já teve seis sucessores no cargo depois de o ter abandonado em 1983 e, com excepção do caso do Egipto e também o da Jordânia (mas trocando-os com os da Cisjordânia e da Faixa de Gaza), a situação de (in)segurança permanece essencialmente a mesma da que existia há quarenta anos.

ASTÉRIX E CLEÓPATRA (5)

Repare-se que, se os marinheiros egípcios tiritam sob o frio, não foram essas mesmas condições agrestes que fizeram com que Obélix vestisse uma camisolinha...

20 junho 2017

AS IMAGENS DO PASSADO TELEVISIVO DE ANTÓNIO BARRETO E MEDINA CARREIRA

Foram apenas razões logísticas as que me levaram a optar pelo facebook para colocar duas publicações contendo interessantes peças da memória da RTP. Uma de há 40 anos, com António Barreto como ministro da Agricultura de visita a uma exposição da actividade e outra de há 28 anos, em que aquele que fora o seu colega de governo na pasta das Finanças, Medina Carreira, se apresenta como candidato à eleição para bastonário da ordem dos advogados. Nos dois casos, as reportagens fazem-nos lembrar aquele comentário bíblico que «quem vive pela espada, morrerá pela espada», embora não no seu sentido estrito, porque as "mortes" que aqui são causadas pela "espada televisiva" até são "retroactivas". Mas é cómico confrontar as imagens televisivas daquelas épocas com quem agora usa o mesmo meio para se passear impoluto e venerando pelo mundo do comentário televisivo. O mundo de que eles às vezes falam é que pura e simplesmente não existiu...

20 DE JUNHO DE 1942: O JAPÃO ATACA... O CANADÁ

Há 75 anos um submarino japonês, o I-26, atacava o farol de Estevan Point na ilha de Vancouver, na costa canadiana do Pacífico. Não era a primeira vez que um submarino japonês atacava o continente americano. Só que era a primeira vez que o fazia no Canadá. O Japão, de resto, destacara-se pela ousadia como atacava alvos em terra nos países em que, pela distância, havia uma sensação entre as populações de se sentirem aparentemente afastadas directamente do conflito, como eram os casos dos Estados Unidos continentais ou da Austrália. Neste caso concreto (de que hoje se celebram as bodas de diamante), a intenção era mais moral do que material e ela foi indiscutivelmente alcançada, veja-se o destaque dado ao episódio pelo jornal The Vancouver Sun na sua edição de 22 de Junho (acima e abaixo). Repare-se que do lado esquerdo dessa primeira página se destaca a queda de Tobruk na Líbia (ocorrida a 21 de Junho), 25.000 prisioneiros, um colossal fiasco britânico (e, por arrasto, canadiano), mas quem é que na cidade de Vancouver se queria preocupar com isso quando andava por aí à solta um submarino japonês a atacar as costas canadianas?...

ASTÉRIX E CLEÓPATRA (4)

Refira-se que, sendo esta aventura a que sucede à Volta à Gália, a presença de Ideiafix é recente, assim como a ideia de ele acompanhar os protagonistas na sua viagem ao Egipto.

19 junho 2017

O FUZILAMENTO DO IMPERADOR MAXIMILIANO

Neste mesmo dia de há 150 anos o imperador Maximiliano I de Habsburgo (1832-1867) era fuzilado no México. Não chegou a completar 35 anos. Terminava dessa foram trágica uma aventura que já aqui contei neste blogue há uns dez anos. Para a relembrar sem me repetir, eis essa mesma história, agora recontada em quatro pranchas de Banda Desenhada.
O fuzilamento de Maximiliano foi tema de um interessante quadro do pintor francês Édouard Manet (1832-1883) que se pode apreciar abaixo. Mais do que pelo rigor, a pintura destaca-se pelo seu simbolismo, o soldado que fica para trás recarregando a sua espingarda tens as feições e o bigode de Napoleão III que Manet considera o responsável por aquele desfecho trágico.
E como que a corroborar que a aventura mexicana havia sido quase exclusivamente uma questão francesa, embora protagonizada por um príncipe austríaco demasiado ingénuo, até mesmo a única fotografia do fuzilamento é da autoria de François Aubert (1829-1906), outro francês. Nela percebe-se que Maximiliano estava do lado direito do paredão e não ao centro como acima o representam.

PONTES E FERIADOS

Depois do usufruto de uma semana de férias que parecia no calendário idealmente concebida para uma ponte das compridas, com os dois feriados idealmente intercalados à 3ª e à 5ª Feira, quais pilares da travessia, ocorreu-me visitar o passado em busca de relembrar quem dera a cara pela famosíssima decisão da abolição de quatro feriados, já que com ela em vigor, e porque um dos feriados então abolidos fora o do Corpo de Deus, esta apetecida ponte ter-se-ia ficado pelo meio do curso do rio... E encontrei alguns episódios (abaixo) protagonizados pelo nosso ex-primeiro-ministro. Era tudo uma questão de produtividade dos portugueses e, como se vê, ainda em finais de 2014 ele avisava o seu parceiro de coligação que a coisa estava para durar, «repor feriados» só em 2019. Só estranho que Pedro Passos Coelho (que adora um pretexto para aparecer a dizer-nos coisas) não tenha aproveitado este episódio colectivo de madraçisse para reafirmar os seus princípios e a força das suas convicções... Ou ele é um daqueles políticos que diz uma coisa no governo que já não diz depois quando passa para a oposição?...
É mais uma daquelas coisas que «eu não me esqueço»...

ASTÉRIX E CLEÓPATRA (3)

Talvez para contrastar com o clima ameno do Egipto, a acção decorre explicitamente no Inverno e a aldeia gaulesa é desenhada sob um nevão. Quanto ao trocadilho, ele faz sentido no original (abaixo), porque alexandrino designa simultaneamente um natural de Alexandria e um verso clássico de doze sílabas, precisamente as contidas na saudação de Numerobis. O tradutor português limitou-se a traduzir o sentido da frase sem atender à métrica, o que torna o trocadilho (para quem perceber a sua sugestão...) anacrónico.

18 junho 2017

«...IO NUN MO SCORDO...»


«...Eu não me esqueço...», como dizia Vito Corleone. Apesar de todos os comentários pacificadores a celebrar a saída de Portugal do procedimento por défice excessivo, eu não me esqueço nem quero esquecer como a liderança deste país pareceu incapaz de monitorizar devidamente quais estavam a ser as consequências financeiras (e sociais...) da política de austeridade que implementava. Em Novembro de 2012, a mês e meio do fim do ano, Vítor Gaspar continuava a jurar que o défice orçamental seria de 5% (abaixo). E dois meses depois disso, já com o exercício encerrado, a jura, agora perante os seus pares europeus, continuava a ser a mesma: 5%. Na verdade, o valor do défice daquele ano veio a ser algo superior às juras de Gaspar: 5,7% em 2012 (como hoje se constatará em qualquer gráfico com o histórico dos défices em Portugal, até mesmo num gráfico martelado por José Gomes Ferreira). Se Vítor Gaspar passou à história como o ministro que nunca acertava nas previsões, é importante reter que o caso deste (colossal) desvio de 1.200 milhões € não se tratou de nenhuma previsão: era uma estimativa porque o ano já havia sido encerrado quando Vítor Gaspar transmitia em Bruxelas aquela sua convicção. Ou seja, Vítor Gaspar nem sequer parecia acertar na bola mas, ainda assim, isso parecia não incomodar sobremaneira a figura tutelar do seu homólogo alemão Wolfgang Schäuble, que por essa altura ainda andava pouco propenso a empregar metáforas futebolísticas e a descobrir Ronaldos.
«...Eu não me esqueço...» Deve-se preservar a memória daqueles tempos difíceis e dos ensinamentos úteis que me lembro - também! - de ter ouvido ao primeiro ministro Pedro Passos Coelho. Podêmo-lo ouvir mais abaixo, numa das suas intervenções mais polémicas, ao empregar a expressão piegas para se referir ao nosso comportamento colectivo. Como costuma acontecer com as grandes indignações, também esta simplificou em demasia as palavras que foram então proferidas: «...as pessoas percebem que o que estamos a fazer está bem feito (...) então devemos persistir, ser exigentes, não sermos piegas, se encontrarmos sempre desculpas para o coitadinho que não teve tempo de estudar e fazer os trabalhos, se encontrarmos sempre uma explicação para os maus resultados, (...), não vamos lá...» Bom, para o que interessa e apesar da retórica aqui exibida pelo primeiro ministro, não fomos lá: Vítor Gaspar demitiu-se ao fim de dois anos no cargo. O tempo e os resultados vieram a provar que aquilo que eles estavam a fazer estaria afinal a ser mal feito. E o que houve, e ironicamente vindo das bandas do mesmo Pedro Passos Coelho que abaixo discursa, foram variadas "explicações para os maus resultados" e "desculpas para o coitadinho". E o que nos resta, numa outra ironia inversa, é persistir em contradizê-los, ser exigentes, não sermos piegas e insistir que reconheçam que Vítor Gaspar foi um dos piores titulares que passou pela pasta das Finanças...

ASTÉRIX E CLEÓPATRA (2)

Confesso que originalmente não percebi a piada das dobragens deficientes, vivendo num país que tinha o costume de legendar tudo o que passasse no cinema ou na televisão. Dobragens eram aquelas coisas insuportáveis e inverosímeis a que se assistia quando se via televisão espanhola... Repare-se como a decoração egípcia, a começar pelo trono em forma de passaroco, é estranhamente kitsch, mas a culpa não será exclusivamente de Uderzo, antes dos autores dos cenários da tal superprodução cinematográfica Cleópatra que ele resolvera parodiar...

17 junho 2017

ANGOLA: O REI DA REPÚBLICA

Ao contrário do que se possa pensar, o problema de disfarçar os poderes pessoais em moldes que se assemelhem a (e pareçam) estruturas republicanas é um problema muito antigo, que já era conhecido na Antiguidade. Octávio (acima, à esquerda), quando alcançou o poder em Roma, não alterou a elaborada estrutura de cargos que encontrou (composta de cônsules, censores, tribunos, pretores, questores, edis...), apenas acoplou a sua pessoa (passou a ser conhecido por Augusto) à estrutura do poder republicano. Do ponto de vista formal, era possível que Augusto não desempenhasse nenhum daqueles cargos supracitados (foi eleito cônsul algumas vezes durante o seu reinado), mas nada de importante acontecia em Roma e no Império Romano que não tivesse a chancela do ocupante da Domus Augusti - um palácio que poderá passar funcionalmente por um antepassado longínquo do Futungo de Belas, situado nos arredores de Luanda. E se aqui me refiro a Angola é porque ninguém pode criticar os angolanos de falta de imaginação nesse exercício habilidoso recente de transformar o poder pessoal de José Eduardo dos Santos (acima, à direita) em poder impessoal, emanado do voto popular e da ética republicana. Neste caso, irão conseguir a proeza de associar um título republicano - o de presidente - a um título normalmente conotado com a monarquia - o de emérito: Bento XVI, como papa resignatário, usa esse predicado no seu título, o de Papa Emérito, e também João Carlos, ex-rei de Espanha, tem sido tratado assim. Já conhecia monarcas que, de presidentes da República se têm legitimado republicanamente depois por referendo, até mesmo como imperadores, como foi o caso de Napoleão III em França em 1852 ou de Jean-Bédel Bokassa no designado «Império» Centro-Africano em 1976, mas, o gesto inverso de alguém se aposentar monarquicamente de um cargo republicano com o título de "presidente da República emérito", isso é que não me lembro de outro.

A BOMBA «H» CHINESA SURPREENDEU O OCIDENTE (e o Oriente também...)

Há 50 anos a República Popular da China detonava a sua primeira bomba termonuclear que, no calão da época, se costumava designar por bomba «H». O país havia entrado para o muito selecto clube das potências atómicas em Outubro de 1964, quanto detonara o seu primeiro engenho nuclear (designado por bomba «A»). Mas esta promoção na corrida armamentista, que tinha por protagonistas principais os Estados Unidos e a União Soviética, viera colher os especialistas de surpresa, tanta como a apreensão. A evolução de uma bomba «A» clássica (no género da de Nagasáqui) para uma bomba «H» que pode ser dezenas de vezes mais destrutiva fora inesperadamente rápida quando comparada com as referências do que acontecera com os seus rivais: tomara aos cientistas chineses uns meros 32 meses (2,6 anos) a realizar um upgrade que custara aos norte-americanos 86 meses (7,2 anos) de pesquisas, 75 meses (6,25) aos soviéticos e 66 meses (5,5) aos britânicos - e que virá a custar 105 meses aos franceses que acabavam de se ver ultrapassados na corrida. Mais do que isso, o anúncio do ensaio mostrava-o a ser realizado em perfeitas condições operacionais (no vídeo mais abaixo a bomba é largada de paraquedas de um bombardeiro Tu-16).
A ampliar a apreensão, há que não esquecer que por aqueles anos (desde 1966) se vivia na China a Revolução Cultural (Grande Revolução Cultural Proletária) cujos acontecimentos estavam a transmitir para a comunidade internacional uma imagem de imprevisibilidade sobre o que se passaria entre os seus dirigentes (faz lembrar, noutro contexto, o efeito que provoca actualmente a presença de Donald Trump na Casa Branca...). Deve ter sido por isso que Zhou Enlai, o único dirigente chinês a quem a comunidade internacional reconhecia tino e bom senso, se apressou a declarar para o exterior, a um grupo de jornalistas afro-asiáticos (leia-se acima a notícia do Diário de Lisboa daquele dia), o compromisso de que «a China nunca seria o primeiro país a servir-se de armas nucleares.» É que Mao Zedong desenvolvera uma reputação muito pouco confiável quanto ao recurso a esse tipo de armamento, quando afirmara a um surpreendido Andrei Gromyko (ministro soviético dos Negócios Estrangeiros) que os números favoreceriam os chineses na eventualidade de um conflito nuclear...

ASTÉRIX E CLEÓPATRA (1)

Publicada originalmente na revista Pilote entre Dezembro de 1963 e Setembro de 1964, a aventura de Astérix e Cleópatra foi uma das histórias escolhidas para o início da revista Tintin em Portugal em Junho de 1968, de onde estas páginas foram recolhidas.

16 junho 2017

QUANTO SE ESQUECE AQUILO QUE TANTO PARECE...


Hoje viram-se as imagens da primeira-ministra britânica Theresa May quando teve de se escapulir de uma cerimónia religiosa perante as animosidades que se haviam formado cá fora. Parecem ser imagens poderosas mas não chegam a valer os pixéis em que são gravadas porque acabam por esvair-se da memória. Se a mulher for teimosa não há de ser assim que a deitam abaixo: quem é que se lembra do tão parecido que acontecia por cá com Passos Coelho vai para uns cinco anos?...

CELEBRAR OS SUCESSOS, MAS COM MEMÓRIA

Especialmente neste dia, vale a pena recordar que há um pouco menos de um ano a separar estas duas notícias e vale a pena constatar que o protagonista da notícia abaixo nem é o detestado Wolfgang Schäuble (que, como seria de esperar, hoje aparece a querer pendurar-se no sucesso) ou o seu boneco Jeroen Dijsselboem, mas sim Jean-Claude Juncker, «um verdadeiro amigo de Portugal», como o qualificava Pedro Passos Coelho há três anos. Visto a esta distância não pareceu nada, diria eu.

O CONGRESSO DOS TRABALHISTAS

Londres, 16 de Junho de 1943. Há 74 anos, ainda não se via o fim à Segunda Guerra Mundial e a agência Reuters divulgava esta pequena notícia sobre o andamento dos trabalhos da Conferência anual do partido trabalhista britânico: por uma gigantesca maioria dos votos das bases do partido (73% em mais de 2,5 milhões) fora rejeitado o pedido de filiação apresentado em bloco pelo partido comunista local. Em números, os militantes comunistas à época (cerca de 60.000, um nível nunca mais alcançado depois de 1945) representavam apenas uma gota de água quando comparados com os milhões do Labour. A esquerda britânica, com as suas raízes no movimento sindical, tinha toda uma outra relação com os partidos leninistas completamente alinhados com Moscovo, que eram a norma do continente. A iniciativa (era a segunda vez que os comunistas a promoviam) compreendia-se à luz da inflexão que os comunistas haviam assumido muito recentemente: para apaziguar as inquietações dos seus dois principais aliados ocidentais (Estados Unidos e Reino Unido), Estaline ordenara a dissolução da Internacional Comunista que acontecera precisamente no mês anterior (a 15 de Maio de 1943). A palavra de ordem agora era a da convergência na acção para a derrota do nazismo. Mas a reacção entre as bases trabalhistas foi, como se vê acima, eloquente. Os comunistas britânicos (como os de todos os outros países de resto e em Portugal também) haviam ziguezagueado pateticamente nos quatro anos prévios a 1943, desde a sua recusa mais veemente em apoiar a participação na Segunda Guerra Mundial (depois da assinatura do Pacto Germano Soviético em Agosto de 1939) até ao apoio mais entusiasmado a essa participação (depois da invasão alemã à União Soviética em Junho de 1941). A própria propaganda de guerra, mostrando os aliados russos (os ingleses sempre preferiram esse qualificativo ao de soviético) sob outras luzes mais favoráveis, iria certamente amenizar a desconfiança entre as duas esquerdas, a democrática e a totalitária, mas, por ora, qualquer comunista que se quisesse filiar como militante trabalhista poderia fazê-lo, embora tivesse que o fazer a título individual.

15 junho 2017

ASTÉRIX E CLEÓPATRA (0)

Nunca simpatizei com a capa original (abaixo) de Asterix e Cleópatra. Talvez porque se tratasse de uma paródia a um filme famoso à época protagonizado por Elizabeth Taylor mas que eu nunca vira quando comecei a ler a aventura pela primeira vez (no Verão de 1968, na revista Tintin). Depois disso, porque a pose dos nosso dois heróis sugere uma malícia que é descabida para aquilo que é o enredo da aventura. Por isso, a minha capa de Asterix com Cleópatra é outra, a que aquela revista escolheu no seu nº 9 para ilustrar a história, que acima exibo com algumas adaptações, mas onde os pensamentos íntimos de Panoramix, mais castos, estão muito mais de acordo com o original.

AS PRIMEIRAS ELEIÇÕES LIVRES ESPANHOLAS

15 de Junho de 1977. Dois anos e dois meses depois de Portugal e mesmo tratando-se de um dia de semana (Quarta-Feira), em Espanha realizavam-se as primeiras eleições livres. Acima e ao centro vêem-se alguns cartazes dos partidos concorrentes e dos lados as capas nesse dia dos dois jornais mais significativos do país, o El País de esquerda e o ABC de direita. Venceu a União do Centro Democrático (UCD), a organização política (mais geracional do que propriamente ideológica) que estava a promover a transição do regime franquista para uma democracia que estivesse ajustada aos padrões de abertura e liberdade da Europa ocidental. A dimensão da vitória foi mais expressiva na representação parlamentar (165 lugares em 350) do que na votação popular (34,4%), mas esse resultado menor era compensado pela identidade da alternativa, o Partido Socialista Operário Espanhol (PSOE, 29,3%), um partido da esquerda, mas da esquerda democrática. Diluídos na expressão popular da vontade de todo os espanhóis, até a expressão dos nacionalismos catalão e basco se pareceu diluir alguma coisa. A Transição Espanhola foi, naquela época, considerada uma benesse por causa do fantasma da Guerra Civil (1936-39). Mas a mais longo prazo é capaz de se ter tornado em algo de muito menos positivo, porque os vencidos do conflito continuaram vencidos e os vencedores nunca foram confrontados com a forma arrogante como venceram. Nada me dissuade da convicção de que o facto de nunca ter havido em Espanha qualquer coisa que se assemelhasse a um PREC como o português, ou mesmo qualquer outra manifestação colectiva que tivesse abalado mais profundamente os alicerces da sociedade espanhola, acabou por conferir à evolução da sociedade espanhola características muito distintas da sua vizinha portuguesa. É que, por exemplo e ao contrário do que aconteceu em Portugal, a Constituição do novo regime espanhol foi elaborada à porta fechada, sendo só depois referendada. Também muitas instituições do franquismo foram só superficialmente reformadas. Tudo isso fez com que, em mais do que um aspecto, a direita espanhola permanecesse a mais reacionária e retrógrada de toda a Europa ocidental, hoje capaz de ombrear apenas com as homólogas polaca ou húngara - que vêm de percursos históricos radicalmente distintos.

14 junho 2017

A VERDADEIRA AMIZADE

A verdadeira amizade exprime-se nas circunstâncias mais bizarras e nos locais mais inesperados mas há que contar pouco com ela nas redes sociais.

O FIM DA GUERRA DAS MALVINAS

Neste dia de 1982 terminava (em dois meses e meio) a Guerra das Malvinas, com a rendição do contingente argentino que as invadira. A fotografia que conheço que melhor capta esse momento é esta acima, exibindo como despojos os capacetes dos vencidos, que me faz lembrar os fins de batalha das aventuras de Astérix... só que no caso os romanos são apenas sugeridos.

13 junho 2017

UM PORMENOR CHAMADO IRLANDA DO NORTE

Durante a fase do apuramento, os resultados eleitorais registados na Irlanda do Norte passaram praticamente desapercebidos e a notoriedade política daquela parcela do Reino Unido só saltou para os cabeçalhos a partir do momento em que se falou do apoio dos unionistas locais ao futuro governo de Theresa May, para que os conservadores passassem a contar com uma maioria nos Comuns. De uma certa forma e para quem tenha memória, é uma ironia para quem se recorde das três décadas (1968-1998) em que as parangonas da informação foram abastecidas regularmente com o que acontecia na Irlanda do Norte. O livro acima explica os The Troubles da Irlanda do Norte nas suas causas e nas suas manifestações e fá-lo de uma forma razoavelmente distanciada, um achado num assunto que raramente é abordado de uma forma que não sectária. O que falta ao livro é um capítulo final onde se narre as negociações bem sucedidas (em curso quando o livro estava a ser escrito) que levaram à assinatura do Acordo de Sexta-Feira Santa em Abril de 1998. A Irlanda do Norte tem vivido, se não em paz, num ambiente muito mais distendido desde então - e já lá vão 19 anos. Mas a impressão mais forte que o livro nos deixa é que para além das duas comunidades que se confrontam - protestantes e católicos - há, dentro de cada comunidade, duas abordagens distintas para o conflito - a dos moderados e a dos radicais. Assim o conflito no Ulster foi (é) duplo: intercomunitário mas também intracomunitário - aspecto de que se falou sempre muito menos. Cada um dos quatro grupos exprimia-se através de uma formação política. Entre os protestantes há o UUP moderado e o DUP radical. Entre os católicos há o SDLP moderado e o Sinn Féin radical - que mais não é do que a expressão política do IRA. Todo este desvio narrativo é para explicar algumas bases antes de regressar à tal fase do apuramento dos resultados eleitorais na Irlanda do Norte no passado dia 8 de Junho. Elegendo apenas 18 dos 649 lugares em disputa, aquilo que ali acontece é apenas um sideshow, complicado ainda para mais com o facto de os partidos que ali concorrem serem distintos dos do resto do Reino Unido. Poucos lhe prestam atenção. Mas, para quem conheça a História da Irlanda do Norte desde há cem anos, não pôde deixar de ficar de cenho franzido depois dos escrutínios, ao constatar que entre os 18 lugares em disputa, 10 haviam sido conquistados pelo DUP radical protestante e 7 haviam sido conquistados pelo Sinn Féin radical católico. O deputado eleito restante é um independente. E pela primeira vez em muitos anos nem UUP, nem SDLP estão representados em Westminster. Para quem reconheça os sintomas, esta radicalização na política local nada prenuncia de bom. Depois de quase 20 anos de acalmia há por ali qualquer coisa a fermentar. E como é que as coisas se podem complicar ainda mais? Quando as necessidades da própria política britânica fazem com que seja a própria Theresa May a necessitar da colaboração dos 10 deputados do DUP para conseguir contar com uma maioria na Câmara dos Comuns. Theresa May que, entre muitas outras fraquezas, também não terá cultura histórica nem política, estar-se-á a preparar para arranjar uma parceria com um partido de cariz religioso para se desenrascar da enrascada onde se meteu ao convocar as eleições antecipadas. Por considerar que a inclusão do DUP na base de apoio governamental em Londres vai perturbar os equilíbrios políticos em Belfast, o seu rival directo Sinn Féin já advertiu que a concretização desse acordo tornar-se-á um problema para a própria situação política norte-irlandesa e John Major, um longínquo antecessor de Theresa May como primeiro-ministro conservador (1990-97), extremamente envolvido à época no processo que conduziu à paz em 1998, já veio dizer publicamente quanto a situação na Irlanda do Norte lhe parece frágil (abaixo). Resolver o problema imediato em Londres levando o DUP para a área do poder arrisca-se a criar outro problema, quiçá bastante maior, em Belfast, para mais envolvendo Dublin. Mas desde David Cameron e o seu compromisso de realizar o referendo, passando por Boris Johnson e Nigel Farage que fizeram campanha por uma opção para a qual não se responsabilizaram, acabando em Theresa May e a sua convocação antecipada de eleições, a política britânica parece entregue a uma espécie de xadrezistas que só sabe ler (e reagir a)o jogo que está em cima do tabuleiro.

O CENTENÁRIO DOS BOMBARDEAMENTOS DE LONDRES

A 13 de Junho de 1917 Londres era bombardeada em plena luz do dia por uma esquadrilha alemã formada por cerca de 20 aparelhos Gotha (já aqui descritos). Largaram cerca de 120 bombas com um poder explosivo depois calculado em 4,4 toneladas. São números ridículos quando em comparação com o que veio a ocorrer posteriormente (mais de 500 bombardeiros sobre Coventry em 14 de Novembro de 1940, por exemplo) mas a impreparação das autoridades e dos próprios londrinos para tais acontecimentos (sobre Londres, só houvera até aí bombardeamentos feitos por Zeppelins, ficar a seguir os acontecimentos era uma prática comum) fez com que se registassem 162 mortos e 432 feridos. O caso mais pungente terá sido o de uma escola do Norte de Londres (acima, ao centro), atingida enquanto decorriam as aulas (era uma quarta-feira) e onde se registou a morte de 18 crianças e ferimentos graves (alguns deles mutilações) em outras 30. Abaixo, um cartão de um funeral colectivo de algumas das "pobres vítimas que perderam as vidas por causa dos aviões hostis".

FERNANDO, O EXPATRIADO QUE NÃO ERA PIEGAS

Deve-se a Pedro Passos Coelho e ao seu estilo de governação e comunicação a perspectiva diferente (em título) e moderna de encarar o percurso de vida de Fernando de Bolhões (1195-1231).

12 junho 2017

O GRÁFICO «MARTELADO» DE JOSÉ GOMES FERREIRA (2) - ACHILLE TALON AINDA NÃO DISSE TUDO

Eu não tenho a pretensão de que o que se escreve por aí me tem por destinatário, bem pelo contrário, o blogue onde escrevo, pelo conteúdo e também pelo suporte onde se localiza, está cada vez mais longe de ser um mainstreamer. Mas a redacção que José Gomes Ferreira deu à resposta às críticas que lhe fizeram na sequência do debate que manteve com o primeiro-ministro foi suficiente abrangente para que eu me sentisse atingido. Ao qualificar-se de vítima de uma «grande fogueira nas redes sociais (...) atiçada pelos novos inquisidores dos tempos modernos» a acusação de inquisidor sobra para todos os que criticaram a sua intervenção nessas mesmas redes sociais, como foi o meu caso. Em concreto, contudo, ele não refutou especificamente aquilo que o critiquei - o facto de ter adulterado de uma forma que não pode ter sido casual o gráfico que exibiu durante o programa (acima). Admito que fosse difícil rebater todas as críticas em detalhe, já que elas se multiplicaram, mas a verdade é que o tempo e o teclado lhe chegaram para dedicar--se ao assunto do grafismo que havia mostrado que se mantinham em vigor (as) medidas de austeridade. Pois. Até pode ter razão. Mas o meu ponto é que, quanto a grafismo e quanto ao único outro gráfico exibido em todo o resto do programa há alguns números do défice do estado que lá apareceram que foram descarada e incompreensivelmente martelados, conforme creio ter demonstrado. E sobre isso não ocorreu a José Gomes Ferreira dizer-nos mais nada.
Sobre aquilo que escreve em sua defesa, teria preferido não me pronunciar. José Gomes Ferreira não parece compreender que, para que as pessoas sejam conotadas com uma determinada facção não é preciso que se comportem como seus incondicionais. É perante estas confusões que se constata como a futebolização se entranha insidiosamente na forma de pensar colectiva. O exercício a que se dedicou em sua defesa ao enumerar as críticas (supostamente técnicas) que endereçou ao anterior executivo de Passos Coelho (e a outros antes dele) resultou num fracasso patético. Porque eu não tenho dúvidas que José Gomes Ferreira pensa pela sua cabeça e não foi um incondicional do governo anterior. Mas isso não o transforma no Jornalista Independente (com maiúsculas) que pretende ser: é só ver a diferença do gráfico corrigido abaixo, com o inicial que ele nos pretendeu impingir durante o debate com António Costa. Um bónus adicional neste último: assinalado a laranja estão as previsões de défices que foram antecipadas em Abril de 2012 no Documento de Estratégia Orçamental 2012-16 (p.30). O governo PSD/CDS já tinha por essa altura dez meses de governação e essa será a melhor estimativa do reequilíbrio que aquele governo pretenderia alcançar adoptando a tal austeridade acelerada. Curiosamente, não me lembro de ter visto José Gomes Ferreira alguma vez a rasgar as vestes por causa deste desvio colossal entre aquilo que os grandes sacrifícios prometiam e o que se alcançou (mas, também confesso, estou muito longe de ser um espectador assíduo dos seus programas...).
Uma coisa se pode dizer contudo, para usar o mesmo género de ironia como António Costa destroçou José Gomes Ferreira: deste último gráfico pode concluir-se que o défice desta última execução orçamental de Mário Centeno em 2016 - o mítico 2,0%! - foi muito pior do que aquele que Vítor Gaspar antecipara para esse mesmo ano (0,5%)... alcançado no papel.

A VOLTA À GÁLIA (44)

Note-se como na mesa não estão expostas, nem são mencionadas, as ameixas secas de Agen. Terá sido por receio que elas contivessem o mesmo soporífero que os javalis? Também as quenelles de Lyon foram esquecidas (embora não o salsichão). Só no penúltimo e antepenúltimo quadro e apenas em segundo plano é que Obélix presta finalmente atenção ao cãozinho que os acompanhou em toda a volta desde Paris. É aliás o cãozinho, que ainda não tinha nome porque só virá a ser baptizado de Ideiafix através de um concurso realizado pela revista Pilote, que domina a última imagem tradicional, a do banquete (com o bardo devidamente amarrado e amordaçado).

A INCLINAÇÃO DE PORTUGAL AOS DESÍGNIOS EUROPEUS

Lisboa, 12 de Junho de 1985. Há precisamente 32 anos realizava-se a cerimónia da assinatura da adesão de Portugal à CEE. Esta fotografia institucional de tal cerimónia, que se realizou no mosteiro dos Jerónimos, mostra-nos os mais altos responsáveis portugueses de então (Mário Soares e Rui Machete) inclinados subscrevendo o compromisso português em tão histórico momento. Passar-se-iam outros 27 anos antes que a inclinação de outros (novos) responsáveis se passasse a revestir de todo um outro significado...

«MR. GORBACHEV, TEAR DOWN THIS WALL!»


«Senhor Gorbachev, deite este muro abaixo!» foram as palavras destinadas a perpetuar-se no discurso que o então presidente americano Ronald Reagan proferiu há precisamente 30 anos diante da Porta de Brandemburgo em Berlim. O local e o momento eram propícios mas o dramatismo da Guerra Fria era muito distinto daquele que levara 24 anos antes um antecessor de Reagan (John Kennedy) a confessar-se um berlinense («Ich bin ein berliner») precisamente naquela mesma cidade de Berlim que, dividida por um Muro, permanecia o símbolo mais visível das duas Europas. Kennedy confortara os berlinenses mas, sem ser ostensivo, havia no apelo de Reagan um subtil toque de arrogância que nada se assemelhava à modéstia implícita no compromisso dos dias difíceis de Kennedy. Aceito que a frase de Reagan foi histórica, aceito que pôr o presidente a dizê-la em russo iria tirar-lhe 90% da eficácia, mas ainda hoje não gosto dela. O seu staff podia ter feito muito melhor.

11 junho 2017

OS DIREITOS DOS ESTADOS

11 de Junho de 1963. Em desafio às recentes leis federais que promoviam a dessegregação racial de todos os estabelecimentos de ensino, o governador do Alabama, George Wallace (eleito pelo partido democrata), promoveu neste mesmo dia de há 44 anos um evento mediático em que pessoalmente bloqueava um dos edifícios da universidade estadual à entrada de dois estudantes negros que ali se pretendiam inscrever. E o desfecho desta confrontação entre poderes (estadual e federal) conta-se em poucas frases: um promotor federal solicitou que o governador desimpedisse a entrada (acima); este ignorou-o e lançou-se num inflamado discurso sobre os «direitos dos Estados»; perante o impasse e o desafio à autoridade federal, o presidente John Kennedy emitiu uma Ordem Executiva (que já fora preparada de antemão para aquela contingência), chamando a si a autoridade directa sobre as forças militarizadas locais da Guarda Nacional e dando-lhes como missão desimpedir o acesso ao edifício; e foi perante esta exibição inequívoca de força militar (repare-se acima que Wallace está acompanhado de polícia), que o governador acabou por se vergar à Lei e à vontade presidencial.

Todo este episódio tornou-se há uns poucos dias propício de ser reevocado quando se assistiu a uma outra cena de rebeldia da parte de um outro Estado norte-americano. Também aconteceu num dos estados discretos da União como o era o Alabama. Os protagonistas desta vez foram o Havai conjuntamente com o seu governador David Ige (também eleito pelo partido democrata). A cena da resistência às decisões de Washington foi também concebida para ter sobretudo impacto mediático como se perceberá quem vir o vídeo acima. A causa é que, obviamente, era completamente diferente: com aquela pomposa assinatura, a fazer lembrar a nova coreografia adoptada por Donald Trump, o governador Ige pretende (ironicamente) dissociar-se da decisão daquele mesmo presidente em abandonar os compromissos ambientais que os Estados Unidos haviam assumido com a assinatura dos Acordos de Paris. Para lá da superficialidade das imagens, o que me deixou a matutar foram as consequências do gesto e a especular sobre as medidas (vejo muito poucas...) à disposição do presidente Trump para disciplinar o governador. É nestas situações limite que se percebe quanto a autoridade política tem muito de respeito e consentimento. E quando não o há...

A VOLTA À GÁLIA (43)

Restando apenas mais 2 pranchas para atingir as canónicas 44 que um álbum de banda desenhada deve ter, e depois de uma aceleração brusca no ritmo narrativo que se começa a detectar na última dúzia de pranchas, o epílogo da Volta à Gália assume um ritmo estonteante. Neste exemplo não há espaço sequer para qualquer referência a uma gourmandise local que fosse trazida de Le Conquet - caranguejos? Ou os crepes tradicionais da Bretanha? Percebe-se que houve um nítido problema de planificação do ritmo da narrativa mas vale a pena recordar que este é apenas o quinto álbum de uma série que viria a produzir 24 (de dupla autoria) com uma sofisticação crescente.

10 junho 2017

DESCULPEM, JÁ ENCONTRARAM O QATAR?

Em continuação de uma primeira parte, trata-se da tradução integral do artigo abaixo, que aparece hoje publicado na The Economist, mas com uns (acrescentos meus).
O presidente da América deu-se tão bem com o rei da Arábia Saudita que tornou seus os objectivos da política externa do monarca. A Arábia Saudita sunita detesta o Irão xiita que ela considera o seu maior rival. E Donald Trump pensa o mesmo. Aparentemente ele passou a compartilhar a perspectiva saudita que o grande financiador do terrorismo no Médio Oriente é o pequeno Emirato do Qatar. Deu-lhe para aplaudir quando, a 5 de Junho, a Arábia Saudita, o Bahrein e os Emiratos Árabes romperam as relações diplomáticas com o Qatar conjuntamente com as ligações aéreas, marítimas e terrestres. Os restantes estados do Golfo deram duas semanas para os cidadãos qataris saírem. Mais ridículo, os Emiratos declararam que quem publicasse opiniões favoráveis ao Qatar estaria sujeito a penas de prisão até 15 anos. E Trump tweetou: “Talvez isto seja o princípio do fim do horror do terrorismo!

Apesar de pequeno, o Qatar é importante. É o maior produtor mundial de gás natural liquefeito e uma grande plataforma giratória do tráfego aéreo. É também o local da sede da Al Jazeera, o que de mais próximo haverá de uma televisão livre no mundo árabe (não se pode é criticar a monarquia qatari). Mantém boas relações com o Irão, com o qual explora conjuntamente um depósito de gás natural. Também se mostra apoiante da Irmandade Muçulmana, a face mais popular do Islão político (e que não goza assim de tanta popularidade noutros países muçulmanos). E tudo isso faz com que a Arábia Saudita os deteste. O regime saudita já tentou no passado vergar o Qatar à sua vontade mas falhou. O Qatar possui uma importante base aérea norte-americana no seu território que, até agora, lhes transmitia uma sensação de segurança. Mas com Donald Trump na Casa Branca isso deixou de ser assim tão linear.

(A The Economist não fala disso, mas em Israel também não se gosta particularmente destas liberalidades e independências do Qatar. Um velho documento (2010) catado e publicado pela WikiLeaks punha o então director do Mossad (serviços secretos israelitas) a queixar-se junto de um seu interlocutor norte-americano de que o Qatar andava a “aborrecer toda a gente”, nomeadamente por causa das emissões da Al Jazeera. O israelita ia ao ponto de evocar a hipótese de que essas emissões desencadeassem a próxima guerra na região, porque os restantes protagonistas da região consideravam o monarca qatari pessoalmente responsável pelo conteúdo das emissões. A mensagem era acompanhada de uma sugestão para que os Estados Unidos retirassem a sua base do Qatar.)

Não foram fornecidas razões concretas para votar o Qatar ao ostracismo. Existem uma data de rumores de que qataris ricos financiam o terrorismo. A acusação, que também se aplica a sauditas ricos, não em sido concretizada, embora o Financial Times tenha publicado que o Qatar pagou mil milhões de dólares ao Irão e à Al-Qaeda para a libertação de membros da sua família real que haviam sido feitos reféns durante uma daquelas caçadas tradicionais com falcões no Iraque. E mil milhões dão para comprar uma grande quantidade de explosivos.

A disputa acabou por dividir o Conselho de Cooperação do Golfo, uma organização que promove uma certa estabilidade numa região onde ela é escassa. E a consequência é que ela pode levar o Qatar e outros dois membros da organização, Kuwait e Omã, que agora se recusaram a associar aos sauditas, a estreitaram mais os seus laços com o Irão. Os ânimos poderão arrefecer em breve mas, para alguns observadores, o maior receio é que o preço a pagar pelo recuo saudita será o açaimar do jornalismo da Al Jazeera.

O apoio de Donald Trump à iniciativa saudita também prejudicou à credibilidade americana. Deixou a impressão que, com ele, a superpotência pode deixar cair os seus aliados depois de uma mera conversa com os seus inimigos. “Durante a minha recente viagem pelo Médio Oriente afirmei que não pode continuar a haver financiamentos à Ideologia Radical. Os líderes apontaram para o Qatar – vejam!” foi o que Donald Trump tweetou a 6 de Junho. O que resta de elementos tradicionalistas na política externa da administração Trump apressou-se a acorrer no dia seguinte a tentar compor o desastre, quando o presidente ofereceu os seus préstimos como mediador...

Mas não é só aí. O presidente egípcio, Abdel-Fattah al-Sisi, também ficou com a impressão que o presidente Trump é um líder que o irá permitir lidar com os seus inimigos com outra autonomia. A 23 de Maio, dois dias depois dos dois se terem encontrado e elogiado em Riade, o regime egípcio prendeu um opositor por causa de um gesto obsceno que ele alegadamente terá feito num comício que se dera há cinco meses. E em 25 de Maio o governo bloqueou o acesso a vários websites de conotação liberal, incluindo o Mada Masr, um jornal on-line local e os sites da Al Jazeera ou o Huffpost em arábe. No Bahrein, as autoridades abateram 5 pessoas e prenderam outras 286 no seguimento de um raid a casa de um clérigo xiita. No seguimento disso, o principal partido da oposição laica foi dissolvido. Noutros tempos, os Estados Unidos teriam manifestado o seu desagrado por tudo isto. Agora não – e isso é receita certa para um Médio Oriente muito mais turbulento.