17 novembro 2017

OS GOLPES DE ESTADO MILITARES À AFRICANA JÁ NÃO SÃO O QUE ERAM

Este Século XXI produziu muitas transformações nos usos e costumes. E uma dessas transformações é que os golpes de estado em África já não se revestem daquela simplicidade de há uns quarenta ou cinquenta anos. Desde quando é que o presidente acabado de depor - que tantas vezes era um ditador encartado como acontece no caso acima com Robert Mugabe do Zimbabué - tinha o topete de achar que não colabora?... O que os vencidos canónicos de outrora tinham garantido era um pelotão de fuzilamento, com ou sem um simulacro de julgamento sumário. Mesmo os julgamentos ordinários, menos apressados, costumavam caracterizar-se por não se distinguirem dos sumários no teor das sentenças. O verdadeiro bónus para o vencido de um desse golpes de estado era a permissão concedida pelos vencedores para a sua partida para um exílio muitas vezes dourado onde, ainda assim, os mais venais poderiam usufruir de um confortável pé de meia entretanto posto a bom recato na Suíça. O que mudou no entretanto que leva os militares zimbabueanos a manifestarem esta paciência de Job com os caprichos de Mugabe? A moda das relações internacionais, que entretanto deixou de achar bem a interferência dos militares nos processos políticos como acontecia durante o período da Guerra-Fria. Descarte-se a opinião pública, que neste caso não se imagina a sair em defesa de um ditador que ocupa o poder há 37 anos. E descartem-se as dificuldades operacionais para eliminar fisicamente Mugabe, que o mais fácil seria arranjar-lhe uma oportuna crise cardíaca ou então uma queda fatal nas escadas, coisa natural num velho de 93 anos (a idade de Mugabe).

«I AM NOT A CROOK»


17 de Novembro de 1973. Em Orlando, Florida, na presença de uma plateia de 400 quadros da Associated Press, mas dirigindo-se ao auditório televisivo de muitos milhões, o presidente Richard Nixon assume um discurso estranhamente auto-confessional que, de tão deslocado, acaba apenas por aumentar as suspeitas que incidem sobre si: «...Quero dizer isto à audiência televisiva. Cometi os meus erros, mas em todos os meus anos na vida pública nunca beneficiei dos meus cargos, mereci o que ganhei, até ao último tostão. E em todos os meus anos na vida pública nunca coloquei entraves à justiça. E penso, também, que posso dizer que nos meus anos de vida pública sempre acolhi bem este género de escrutínio, porque as pessoas têm de saber se o seu presidente é ou não é um escroque. Bom, eu não sou um escroque! Tudo o que tenho ganhei-o com o suor do meu rosto.» Dali por nove meses, perante indícios cada vez mais comprometedores da sua interferência pessoal no curso das investigações sobre o Escândalo Watergate, Richard Nixon ver-se-ia obrigado a demitir da presidência dos Estados Unidos.

16 novembro 2017

O CENTENÁRIO DO REGRESSO DE GEORGES CLEMENCEAU AO PODER

16 de Novembro de 1917. Em mais de três anos de guerra, a França já tivera cinco governos. O mais recente, chefiado por Paul Painlevé, durara apenas dois meses. foi nessas circunstâncias complicadas que o presidente da República Raymond Poincaré terá feito a aposta mais arriscada da sua carreira política: convidou o seu inimigo de estimação Georges Clémenceau para formar governo. Num momento de usura moral, em que uma parte da classe política francesa ousava dizer em voz alta que já não se podia contar com a Rússia e que a América chegava demasiado tarde, aquele que era alcunhado na política francesa como o Tigre e que contava então já 76 anos, parecia encarnar a última possibilidade de um sobressalto de energia da França, cimentado no facto dele capitalizar como mais nenhum outro político francês o ideal da desforra contra a Alemanha. Tido como um parlamentar temível, o discurso da posse do seu governo diante da Câmara de Deputados configura um estilo hoje datado, mas que se reconhece ao mesmo tempo pujante e gracioso, apesar dos cem anos em cima. Eis o início:
 
«Meus senhores, nós aceitámos formar governo para conduzir a guerra com um redobrar de esforços tendo em vista a melhoria do rendimento de todas as nossas energias.
Apresentamo-nos diante de vós com o pensamento focado numa guerra integral. Queremos que a confiança que vos pedimos em testemunho seja um acto de confiança em vós próprios, um apelo às virtudes históricas que nos fizeram franceses. Nunca a França sentiu assim tão nitidamente a necessidade de viver e de crescer no ideal de uma força posta ao serviço da consciência humana, na resolução de atribuir cada vez mais direitos aos cidadãos assim como aos povos capazes de se libertarem. Vencer para sermos justos, eis a palavra de ordem de todos os nossos governos depois do princípio da guerra. Este programa a céu aberto, mantê-lo-emos.
Temos grandes soldados de uma grande História, sob chefes que foram experimentados pelos desafios, animados por uma devoção suprema que fez o renome dos seus antepassados. Por eles, por todos nós, a pátria imortal dos homens, dona do orgulho das vitórias, prosseguirá com as mais nobres ambições da paz o que é o curso do seu destino.
Estes franceses que fomos obrigados a lançar na batalha têm direitos sobre nós. Eles querem que nenhum dos nossos pensamentos se esqueça deles, que nenhum dos nossos gestos os não tome em consideração. Devemos-lhes tudo, sem reserva alguma. Tudo pela França que sangra na sua glória. Tudo pela apoteose do direito triunfante. (...)»
 
Nascido de uma fuga para a frente do que parecia um impasse político severo, este governo de Georges Clémenceau, que foi dos seis durante a Grande Guerra, aquele que foi indigitado com uma maioria mais frágil (que os houvera com um apoio unânime da Câmara), irá cumprir a sua missão de sobreviver pelo próximo ano, até ao Armistício de 11 de Novembro de 1918, conferindo a George Clémenceau o estatuto de Pai da Vitória.

PARA OS ENTUSIASTAS DAS VIRTUALIDADES INESCAPÁVEIS DA INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL...

...o que eu lhes desejo é defrontarem-se com uma encrenca por causa de uma encomenda perdida da Amazon, encrenca essa proporcionada pela qualidade de serviço de um transportador como a SEUR espanhola. Aliás, mantenho que a associação de palavras contida na expressão qualidade espanhola faz tanto sentido quanto as expressões humor alemão ou modéstia francesa. Por causa da SEUR, o número de vezes que já me frustrei a embater contra demonstrações de obtusidade da tal de coisa artificial, já me levou a ter saudades daqueles call-centers que adivinhávamos instalados em Bangalore ou afins. Havia os tradicionais problemas de entendimento por causa dos sotaques dos interlocutores e raramente o problema era resolvido, mas era uma ineficácia embrulhada numa capa aparente de se ser prestável. Fiasco por fiasco, preferia aquela estupidez natural a esta inteligência artificial que, de inteligente só tem a alcunha... e o entusiasmo dos crentes.

15 novembro 2017

ISABEL DOS SANTOS: O FIM DE UM MITO?

Mas, afinal, Isabel dos Santos não vale todos aqueles bilhões que faziam dela uma das dez maiores fortunas de África? E uma das dez mais poderosas mulheres do Mundo? Quer dizer que foi só preciso o pai abandonar o cargo de presidente, para que o seu sucessor - e não esqueçamos que Angola é só uma potência regional... - pudesse, num par de meses, esvaziar Isabel dos Santos de toda aquela aparência de poder? É curioso constatar, com este exemplo cristalino, que, em querendo, a correlação de forças entre o poder político e o poder económico pode ser afinal linear. É uma questão de, como dizia Fernando Ulrich, eles também aguentarem...

PORQUE SERÁ QUE AS PESSOAS NÃO QUEREM SABER PORQUE SABEM AQUILO QUE NÃO TEM QUALQUER INTERESSE SABER?

Há perguntas que me parecem imperativas e injustificadamente ausentes: Quem é Kim Kardashian? E o que é que Madonna tem feito? E qual o interesse em alimentar estas patetices?

JOÃO O PÓSTUMO

15 de Novembro de 1316. Em França nascia e começava imediatamente a reinar o filho póstumo de Luís X o Teimoso (1289-1316) e de Clemência da Hungria (1293-1328). Sem que existissem as modernas ecografias, e com a morte inesperada de Luís X apenas com 26 anos no mês de Junho, todo o reino ficara suspenso por cinco meses para saber qual seria o sexo do bebé da rainha. Entretanto, o irmão mais velho do rei, Filipe o Comprido (1293-1322), assumira a regência do reino. E é com este enquadramento que se chega a este dia de há 701 anos, em que se fica a saber que a França tem um novo rei (se fosse uma menina, a questão política seria mais complicada pois havia um partido na corte disposto a invocar a lei sálica, que excluiria as mulheres da sucessão ao trono). Deram ao bebé o nome de João e assim seria o primeiro rei com esse nome a reinar em França. Mas, nesses tempos medievais, onde se registavam elevadíssimas taxas de mortalidade perinatal, João I o Póstumo (1316-1316) não estava destinado a notabilizar-se nos livros da História: morreu com cinco dias de vida, a 20 de Novembro e foi o tio a herdar o trono como Filipe V de França. Nos milhares de relatos dos feitos de um reinado que haja por esse mundo fora, dificilmente haverá outro que se possa reduzir o comportamento do monarca às funções mais elementares como as do reinado de cinco dias de João I de França: mamou, chorou e sujou algumas fraldas...

14 novembro 2017

NOVOS «PAPERS», MAS DESTA VEZ SEM PROMESSAS DE GRANDES REVELAÇÕES DO «EXPRESSO»...

Embora estejam a passar muito mais desapercebidos do que os seus antecessores do Panamá, tornou-se notícia uma outra gigantesca fuga de informações financeiras, expondo mais outros milhares de utilizadores das redes mundiais de offshores. Chamaram a estes os Paradise Papers. A fonte da fuga é a mesma da dos Panama Papers: o jornal alemão Süddeutsche Zeitung. Comparando esta com a precedente, o número de documentos desta fuga é superior (13,4 versus 11,5 milhões de documentos) embora o conteúdo informativo dos mesmos seja apenas um pouco mais de metade da anterior (1,4 versus 2,6 Terabytes de informação).
Mas, o que nos interessará à escala doméstica, é que não terão aparecido interesses portugueses entre as primeiras revelações, o que dispensará o Expresso de grandes promessas como aconteceu no ano passado (abaixo) e adivinha-se o suspiro de alívio de Pedro Santos Guerreiro, director do jornal, que por esta vez estará dispensado de fazer novamente figura de parvo tentando convencer-nos (sem grande sucesso) que, no capítulo das revelações, a montanha não havia parido um rato. Talvez por causa das baixas expectativas ainda acabe por pingar qualquer coisa em termos informativos...

O «MEU» PRIMEIRO «CASAMENTO DO SÉCULO»

14 de Novembro de 1973. Com uma impressionante cobertura mediática para a época - a BBC cobriu a cerimónia em directo para uma audiência potencial estimada em 500 milhões de telespectadores - casava-se a princesa Ana, a única filha da rainha Isabel II. As imagens da televisão, por uma primeira vez a cores, eram apenas o corolário de uma das mais gigantescas operações mediáticas até então, no que era uma concessão ao voyeurismo. A noiva não estava na linha directa de sucessão ao trono e já passara o tempo em que os casamentos de princesas serviam para forjar alianças entre potências e dinastias. Não era esse o caso já que o noivo era até um plebeu. Só o tremendo aparato montado pela comunicação social à sua volta é que justificaria o epíteto de «casamento do século». E eu tenho saudades desse tempo em que tinha a ingenuidade de acreditar no epíteto, sem sequer ter a percepção que aquele século caminhava para já o seu último quarto e que em matéria de casamentos daquele estilo, já houvera muita coisa nos 73 anos precedentes...

13 novembro 2017

A MINHA BIBLIOTECA

O momento em que se reforça a nossa crença no interesse das redes socias é quando se descobre que alguém já classificou de forma inspirada as categorias dos livros de uma biblioteca pessoal.

a) Lidos
b) À espera de serem lidos.
c) Meio lidos. No limbo de dar o assunto por encerrado.
d) Que se finge que foram lidos.
e) Aguardam por um período em que haja oportunidade...
f) ...provavelmente no dia de São Nunca à tarde.
g) Apenas para fazerem figura na estante.
h) Lidos, mas não me lembro nada deles.
i) Lidos, e infelizmente até me lembro deles.
j) Quem é que teve o descaramento de publicar esta merda?

«BADAMERDA» PARA ESSES «MISTÉRIOS»

13 de Novembro de 1975. Não é o sequestro dos deputados da Assembleia Constituinte que aqui se quer recordar, mas a sua libertação ocorrida precisamente há 42 anos. Estava lá a televisão a cobrir o acontecimento, que nos deixa ver uma fila indiana de deputados humilhados caminhando por um corredor deixado aberto pelos trabalhadores da construção civil (aqui, a partir dos 2:35), como se fosse uma reedição revolucionária das forcas caudinas. A excepção foram os deputados comunistas que se deixaram ficar para o fim. No frame de cima, retirado da reportagem televisiva, vê-se o deputado comunista Dias Lourenço saudando veementemente de punho erguido os sequestradores, precedendo os seus camaradas que exibem uma exuberância solidária semelhante. Se em política o que parece é, a cumplicidade do comunistas com os acontecimentos foi a que foi, ficou a parecer que os parlamentares comunistas só tinham ficado circunstancialmente do lado errado das trincheiras: não estavam eles a celebrar como vitória sua a cena da subjugação dos deputados? Tanto mais que os testemunhos de alguns dos outros sequestrados afirmavam que, à boa maneira de Orwell, o sequestro dos deputados comunistas fora mais igual que o dos deputados das outras bancadas à sua direita, sustentado com uns frangos assados e umas batatas fritas a amenizar o jejum geral por 16 horas que fora imposto ao resto do hemiciclo. Foi essa a percepção da época, uma época em que não se dava o devido valor à gravidade destes acontecimentos, conforme se pode comprovar pela conferência de imprensa que o mesmo sindicato dos trabalhadores da construção civil (que promovera o sequestro) deu, no dia seguinte aos acontecimentos. Nem eles falaram do sequestro, nem, diante das câmaras da televisão, nenhum jornalista terá tido a ousadia de levantar o assunto! E, claro, ainda não havia um Correio da Manhã para anunciar que a mulher do deputado do CDS Oliveira Dias morrera nesse dia 13 de Novembro, aos 46 anos e de doença cardíaca, presumivelmente de atribuir ao que acontecera ao marido...
Terá sido o distanciamento temporal a restituir ao episódio do sequestro dos deputados constituintes a gravidade do que se passara. Quanto mais o tempo passava e os costumes evoluíam, diminuía a condescendência e mais inaceitável se tornava aquilo que sucedera. E o posicionamento equívoco do PCP em todo o episódio mais desconfortável se apresentava. Foi só a partir do Século XXI que eu dei pelos comunistas a quererem sair de fininho de todo o assunto. E a técnica (clássica!) para refazer o que aconteceu é a de criar hipotéticos segredos por revelar, uma história que não está ainda toda contada, um mistério!... Mistério que não parece ser para esclarecer: ainda num recente regresso ao assunto feito pela TVI tanto o ortodoxo Jerónimo de Sousa quanto o heterodoxo Vital Moreira (acima) se conjugaram objectiva e subjectivamente na recusa em prestarem qualquer depoimento. Hoje completam-se 42 anos sobre a data dos acontecimentos e ainda há quem continue a insistir que o papel do PCP no cerco (à Constituinte) está envolto em polémica... Haja quem acredite nesses expedientes argumentativos. Parafraseando Pinheiro de Azevedo: «Badamerda para a (conversa da) polémica

IMPRESSÃO, NASCER DO SOL

13 de Novembro de 1872. Pretende uma tese, robusta na argumentação, que este quadro pioneiro do impressionismo de Claude Monet foi pintado há precisamente 145 anos, às 7H35 da manhã (abaixo). A cena representa o amanhecer no porto francês de Le Havre, ainda coberto das brumas matinais comuns nos portos da Normandia, um ou dois botes mais nítidos em destaque e um fundo onde se divisam os vultos de um estaleiro, grandes barcos de velas e chaminés. O único foco de cor na tela é um Sol alaranjado e longínquo. O quadro está hoje exposto em Paris, no Museu Marmottan.

12 novembro 2017

PORQUE O OPTIMISMO, QUANDO EM EXCESSO, TAMBÉM CHATEIA...


PELO NONAGÉSIMO ANIVERSÁRIO DA EXPULSÃO DE TROTSKY DO PARTIDO COMUNISTA

É curioso (ou talvez não...) como, sendo considerados os grandes rivais pela herança de Lenine como líderes do Partido Comunista Soviético, não tenham sobrevivido quaisquer fotografias de época em que figurem conjuntamente Estaline e Trotsky. O melhor que se poder arranjar é este frame, extraído de um filme mudo feito por ocasião do funeral de Félix Dzerzhinsky que teve lugar em 30 de Julho de 1926 em Moscovo (abaixo). Nesse frame, aparecem os dois rivais segurando o caixão do defunto, cada um de seu lado, conjuntamente com outros velhos bolcheviques como Kalinine (á frente do caixão), Kamenev (atrás de Trostsky) e Bukharine (atrás de Estaline). Daí por dezasseis meses com a expulsão de Trotsky neste dia 12 de Novembro de 1927, começaria uma saga a que, para além de Estaline, dos mencionados só Kalinine iria sobreviver para contar.

A MAIS FAMOSA COBERTURA TELEVISIVA DE UMA EXPLOSÃO DE UMA BALEIA

12 de Novembro de 1970. Desde há três dias que a carcaça de uma enorme baleia de 14 metros e de mais de 7 toneladas de peso juncava, incomodativamente, uma das praias das costas do Pacífico no estado americano do Oregon. E, quanto mais tempo passava, pior o cheiro e pior o incómodo. A jurisdição sobre as praias pertencia no Oregon ao equivalente do nosso Instituto de Estradas. É portanto compreensível que os responsáveis pela resolução do problema da baleia tivessem atacado o problema como se se tratasse de um enorme pedregulho que houvesse resvalado para bloquear uma estrada: removê-lo com explosivos! A ideia parecia conceptualmente brilhante: explodia-se a baleia e a carne e (sobretudo) a sua gordura espalhar-se-iam pela praia em pequenos pedaços para que fossem depois comidos pelos necrófagos do ecosistema, como as gaivotas e os caranguejos. Contudo, na prática, desde o principio que a reportagem televisiva mostra o desconforto do técnico encarregado da operação naquilo que se prenderia com os detalhes da sua execução. Vêmo-lo duvidoso quanto à quantidade de dinamite a empregar para a destruição do que ele designa hesitantemente por «coisa» (thing). E quanto à segurança da operação, é caricato apreciar a inconsciência daqueles mirones de primeira fila, que depois tiveram de ser escorraçados pela equipa até uma distância segura de 400 metros. E depois veio a explosão: na dúvida, o técnico decidira-se por aplicar tudo o que trouxera - 20 caixas de explosivos! (se calhar, terá pensado, os pedaços ficariam mais pequenos...) O operador de televisão filmou-a mas rapidamente desligou a máquina e pôs-se a correr para se pôr a abrigo, pois o cómico da situação rapidamente deu lugar ao tragicómico, quando enormes pedaços voadores de gordura mal cheirosa começaram a cair em cima das cerca de 75 pessoas que se haviam reunido para assistir à cena. Prova da seriedade da ameaça, as imagens da reportagem ainda mostram um automóvel que ficou completamente destroçado por um grande naco de banha voadora. Pior que isso: a maior parte da baleia ainda lá estava... Decerto não se tratará de um momento propriamente histórico, este de há precisamente 47 anos, mas em minha defesa posso acrescentar que já vi a serem qualificados como históricos, momentos muito menos interessantes do que este em televisão.

11 novembro 2017

A INVASÃO DA ZONA «LIVRE»

Há precisamente 75 anos e tomando como pretexto a defesa menos que encarniçada que as tropas francesas haviam oposto aos Aliados que haviam desembarcado na África do Norte 72 horas antes, Adolf Hitler deu instruções às unidades militares alemãs estacionadas em França para que ocupassem também o resto da França que ainda não ocupavam, uma área impropriamente designada por Zona "Livre". O Fall Anton, que há mais de dois anos fora concebido para a eventualidade da totalidade da França, foi impecavelmente executado. A verdade é que em Vichy, depois dos desembarques, já se estava à espera de uma reacção do género e o pequeno exército de 100.000 homens que sobrevivera às condições do armistício tomara as suas disposições para travar um último combate retardador, para que o Chefe de Estado Philippe Pétain tivesse condições para partir de avião para a Argélia onde, através da sua pessoa, a França poderia retomar com honra a sua condição de Aliada como o fora até Junho de 1940. Mas afinal nada chegou a acontecer: o exército não reagiu mas também não havia por que reagir: Pétain, apesar das insistências, preferiu ficar. O exército, tirando algumas excepções pontuais ficou nas casernas e foi posteriormente desarmado. Quanto a Pétain preferiu protestar diante do Marechal von Rundstedt, comandante das tropas invasoras e também embaixador encarregue de amenizar diplomaticamente a proeza das armas alemãs, quando o visitou em Vichy: «Recebi esta noite uma carta do Führer anunciando-me que, por causa das necessidades militares, se vira na obrigação de adoptar medidas que tiveram por consequência prática suprimir os elementos principais e fundamentais do armistício. Protesto solenemente contra essas decisões que são incompatíveis com o que ficou convencionado na assinatura do armistício». O gesto é de tal modo inócuo que Rundstedt até dá o seu acordo à sua transmissão radiofónica! Na época e para efeitos de propaganda, foi do interesse das duas partes directamente envolvidas - Alemanha e França de Vichy - minorar o impacto da invasão, como se percebe pelo vídeo de actualidades exibido abaixo. Pelo contrário, para os Aliados, o episódio foi valorizado, na demonstração de que, se Vichy e os seus protagonistas maiores continuaram na senda do colaboracionismo mais subserviente para com a Alemanha, foi por sua livre opção. Esse foi o único aspecto que será verdadeiramente livre nesta invasão da Zona "Livre".

«FOI DEUS»

Até mesmo para os que não acreditam, ele há vezes em que nos assalta a todos uma vontade de atribuir à intervenção do divino imagens como a de cima, em que O vemos a escrever direito por linhas tortas...

Nota: A ideia original de atribuir a Deus o bloqueamento duplo de uma carrinha da EMEL não é meu, encontrei-a numa das redes sociais.

10 novembro 2017

«RENDEZ-VOUS COM RAMA»

Rendez-Vous com Rama foi um daqueles livros da colecção Argonauta que se comprava nas férias de Verão e que me pregou uma partida. O livro revelou-se bom demais para que lhe dedicasse aquela atenção descuidada que um livro de bolso lido naquelas circunstâncias costumava merecer. A história é a de um artefacto (um cilindro com 54 km de comprimento e 20 km de diâmetro) que se aproxima do sistema solar com uma velocidade tal (100.000 km/h) que indica as suas origens extra sistema solar, e o seu formato - o cilindro vem a revelar-se oco, como um barril - uma origem de uma civilização extraterrestre. Limitados pela escassez de tempo que a possível nave espacial irá permanecer pelas paragens do sistema solar, uma expedição (estamos no ano 2131) é enviada ao corpo celeste - que entretanto foi baptizada com o nome de Rama, um dos deuses hindus - para o avaliar. Uma boa parte do livro é a descrição do que os expedicionários iam encontrando, num apelo estimulante à nossa imaginação nas condições pouco propícias de deitado numa espreguiçadeira... Mais de trinta anos depois, as memórias de Rama voltam à ribalta com a descoberta no passado mês de Outubro do primeiro objecto de origem interestelar, um asteroide muito pequeno (uns 160 metros de tamanho mesmo estimando que tenha um albedo muito baixo, rondando os 0,10), a que se deu a designação técnica de A/2017-U1 e o nome mais inspirado de Oumuamua. Como acontecia com Rama, a sua velocidade intersideral de base é considerável (26,22 km/s = 94.400 km/h) e a sua trajectória junto ao Sol (abaixo), que o catapultará de volta ao espaço intersideral de onde veio, acentuam o carácter efémero do encontro. Só ficou a faltar o mistério da civilização alienígena e de todas as perguntas que o livro de Arthur C. Clarke deixou por responder...

« ¿¿POR QUÉ NO TE CALLAS?? »


10 de Novembro de 2007. As cerimónias finais da XVII Cimeira Iberoamericana e a famosa frase do rei Juan Carlos a Hugo Chávez completam hoje o seu décimo aniversário. Mas é interessante rever uma pequena parte do incidente para perceber como a substância do mesmo - se alguma terá tido - repousa no discurso do primeiro-ministro espanhol e não na reacção pirotécnica do monarca - porém, foi esta última que tornou o incidente memorável, ainda hoje digno de evocação. E simbólico deste mundo informativo moderno o quanto ele não se mostra interessado em difundir os considerandos do que se diz, preferindo os repentes. Por outro lado, se se percebia que Zapatero estivera ali a defender Aznar por razões institucionais e de princípio, apesar da sua estima pessoal pelo antecessor alvo das críticas de Chávez ser bem pouca, em Espanha e apesar de se ter percebido claramente o frete evidenciava-se o quanto a política tende a ser ingrata. Em Madrid, numa conferência de imprensa, Gabriel Elorriaga, que era o secretário de comunicação do PP (o partido de Aznar), fazia um rasgado elogio ao rei («...teve que ser o chefe de Estado, com a sua atitude de firmeza (...) que soube dar uma resposta adequada aos gravíssimos insultos que todos os espanhóis estavam a receber pela boca de Hugo Chávez...») enquanto não poupava críticas ao primeiro-ministro («...consequência (...) da imprevisão, da negligência e da falta de capacidade de actuação...» do chefe do governo). O que vale é que, do outro lado, criticava-se o rei...

E contudo, dez anos passados, Zapatero será, de todos os protagonistas, aquele que aguentou melhor o passar do tempo. Chávez entretanto morreu e o regime que deixou à Venezuela mostra-se no estertor de uma lenta agonia política, económica e social. Juan Carlos, apanhado a caçar elefantes em África num momento em que o seu povo padecia na Europa, viu-se compelido a abdicar. E quanto a Aznar, o pomo da discórdia, a sua reputação afundou-se até ser usado em programas cómicos de televisão como pretexto para abalar as convicções mais profundas dos mais convictos republicanos espanhóis...

09 novembro 2017

A «GRAVIDADE» DAS NEGOCIAÇÕES SOBRE O USO DO GLIFOSATO

Antes da SIC Notícias pespegar aquela tarja vermelha indicativa de assunto importante e urgente, a ponto de receber o qualificativo de última hora, teria convido que os jornalistas da estação explicassem o que é precisamente o glifosato e a importância do que estará em negociação entre os países membros que possa justificar tal destaque. Isso, quando comparado com tantos outros assuntos que se sabe que também são objecto rotineiro de negociação no seio da União Europeia. O desenvolvimento sugerido é para não se ficar com a impressão que se trata de um certo histerismo jornalístico despropositado, pior ainda se ele tiver sido induzido por algum lóbi...
...como, sei lá, por exemplo o Greenpeace que, por acaso, é o patrocinador da carrinha estacionada junto do Berlaymont em Bruxelas que, novamente por acaso, é a fotografia escolhida pelos jornalistas da SIC Notícias para ilustrar a notícia...

A ESTREIA DO CONCERTO DE ARANJUEZ


9 de Novembro de 1940. Há 77 anos ocorria a estreia mundial do Concerto de Aranjuez, uma das peças musicais clássicas mais conhecidas e simbólicas da Espanha do século XX. Apesar da localização da cidade que dá o nome à composição (nos arredores de Madrid), essa estreia veio a ter lugar no Palácio da Música Catalã em Barcelona. Foi seu primeiro solista Regino Sáinz de la Maza. A história do dia que passa costuma ser feita da invocação de alguns factos inequívocos mas também o pode ser de insinuações mais subtis.

08 novembro 2017

A COR DE ÁFRICA

Este curioso mapa é feito pelo mosaico dos contornos dos países africanos a serem preenchidos com um trecho da face do respectivo chefe de estado. Dá uma surpreendente imagem de uma África a vários tons.

A VITÓRIA ELEITORAL RIBOMBANTE DE FRANKLIN D. ROOSEVELT

A 8 de Novembro de 1932 realizavam-se eleições presidenciais nos Estados Unidos. Para compreender o que aconteceu naquele dia convém perceber como era a geografia eleitoral norte-americana de então, nomeadamente como se haviam distribuído os resultados eleitorais nas eleições presidenciais precedentes ao longo da década de 20. A hegemonia era republicana e os Estados Unidos pareciam politicamente seccionados de uma forma assaz consistente. Nas eleições presidenciais de 1920, 1924 e 1928, os candidatos democratas pareciam estar condenados e confinados a vencer apenas nos estados do Sul, que permanecia o bastião tradicional do seu partido ainda 60 anos depois do fim da Guerra de Secessão (1861-65).
As eleições que há 85 anos tiveram lugar modificaram isso tudo. Mais do que a vitória eleitoral do candidato Franklin D. Roosevelt o que impressiona foi a dimensão de que essa vitória se revestiu quando se comparam os mapas acima e abaixo: mesmo concorrendo contra o presidente Herbert H. Hoover, o candidato democrata venceu em quase todos os estados, transmitindo uma impressão de insatisfação geral do eleitorado com a situação geral dos Estados Unidos no apogeu da Depressão. Numa mais se registou uma transferência de um partido para outro tão ribombante quanto esta e o partido democrata deixou de estar confinado ao seu bastião sulista. Pelo contrário e ironicamente, nos dias que correm os estados do Sul tornaram-se num bastião republicano.

07 novembro 2017

OS COMUNISTAS E AS ELEIÇÕES PORTUGUESAS

Em dia de centenário vale a pena evocar, através desta fotografia simbólica, a participação dos nossos comunistas nos primeiros actos eleitorais depois do 25 de Abril. A fotografia mostra Álvaro Cunhal o secretário-geral do PCP a receber o boletim de voto para as primeiras eleições presidenciais que tiveram lugar em 27 de Junho de 1976 (reconhece-se facilmente que o boletim tem apenas quatro concorrentes). Para essas eleições, Cunhal e o PCP haviam feito uma opção que se virá a revelar completamente errada. Depois de terem recolhido 789.000 votos (e 40 deputados) nas primeiras legislativas eleições de Abril, progredindo cerca de 2% (+10 deputados) em relação ao resultado que o partido tivera nas constituintes do ano anterior, o colectivo que o dirigia decidiu-se a apostar numa candidatura demonstrativa da consolidação da sua força eleitoral e apresentou uma candidatura isolada de um militante seu, Octávio Pato, submetida ao lema "Assim se vê a força do PC!". Apanharam uma tareia monumental: o candidato comunista ficou no último lugar, foi o que recebeu menos votos dos quatro (365.000), menos 423.000 para ser mais preciso, quando feita a comparação com os votos que o PCP recebera nas eleições legislativas apenas dois meses antes. Pela análise da transferência desses votos concluía-se que mais de metade dos votantes do PCP havia preferido outras candidaturas, a começar pela de Otelo Saraiva de Carvalho que alcançara um surpreendente 2º lugar. Nessa noite de 27 de Junho caiu um mito em que os próprios dirigentes comunistas mostraram ter acreditado: a de que o eleitorado comunista era muito disciplinado. Talvez fosse verdade nos países comunistas do Leste da Europa, mas nos da Europa Ocidental, onde as eleições eram verdadeiramente livres, até os eleitores comunistas exerciam as prerrogativas dessa liberdade.

7 DE NOVEMBRO: O INÍCIO MAS TAMBÉM O FIM DE UMA QUIMERA

Hoje 7 de Novembro de 2017, cumpre-se o centenário da Revolução Russa de 1917. Não vou referir-me a ela porque acontecerá com dezenas de outras evocações. O que valerá a pena, em complemento a elas, é lembrar um outro 7 de Novembro, esse de 1989, que como que encerrará o ciclo criado pela Revolução. Foi neste dia de há 28 anos que os poderes da antiga República Democrática Alemã ensaiaram uma última tentativa para se tentarem reformar e sobreviver ao colapso eminente. Egon Krenz, que se tornara no novo líder da RDA no mês anterior, demitiu o governo e anunciou a reforma da composição dos órgãos de cúpula do partido comunista este-alemão, como o politburo e o comité central. Hoje, sabe-se que tudo aquilo era muito pouco e muito tarde: o comunismo não se reforma. À falta de melhor, esta reportagem televisiva francesa daqueles dias mostra-nos os acontecimentos. Não deixa de ser uma ironia (fortíssima!) ver o camarada leste-alemão a queixar-se em 1989 do "terror das ruas", esquecendo-se provavelmente que fora através desse mesmo "terror das ruas", ainda mais violento se possível, que a ideologia que ele abraçara chegara ao poder em 1917...

«Os acontecimentos desenrolam-se cada vez mais depressa na Alemanha de Leste. Esta manhã o Politburo do Partido Comunista demitiu-se a pedido de Egon Krenz que ontem já havia demitido o Governo. Mas trata-se de concessões mínimas a uma população que duvida destes novos dirigentes. Como prova: desde ontem, mais 11.000 alemães orientais refugiaram-se na República Federal. Reportagem do nosso enviado especial a Berlim Leste, Philippe Rochot:

A Voz Única do Socialismo. É por detrás deste emblema que o Comité Central do Partido Comunista alemão oriental se irá metamorfosear, depois das demissões do Politburo sob a palavra de ordem: a renovação é a única hipótese para que o SED possa conservar a escassa confiança que lhe resta junto da população. Essa população aguardava esta manhã com impaciência a abertura dos quiosques. Só a velha guarda parece inquieta com as demissões:
- Espero que o comité central vá encontrar soluções em todos os domínios e que nós saiamos de tudo isto.
- Você é do partido?
- Desde há 60 anos que sou camarada, membro do partido.
- E o que é que pensa destas manifestações?
- Eu por mim considero que é o terror das ruas.
Malgrado a grande subversão, a renovação já começou, por exemplo, na televisão alemã-oriental que não teve dúvidas em transmitir as manifestações em volta do edifício da sede do Comité Central pedindo eleições livres, depois dos jornalistas se terem desculpado perante o público por o haverem enganado durante 40 anos. É o elemento novo na vida do país. Aqui, ainda, o novo porta-voz do Governo apela em directo aos cidadãos para que não cedam à tentação do êxodo para a Alemanha Federal e a permanecerem. «Precisamos de vós», diz ele, «precisamos da vossa força». Tudo isso ao mesmo tempo que, enquanto uma das figuras da oposição, Bärbel Bohley, intervinha para dizer que se mostrava céptica quanto ao futuro, a televisão anunciava as demissões do governo e, esta manhã, do politburo do partido comunista este-alemão. Com esta cascata de demissões no momento em que se inicia a reunião do comité central do partido comunista é toda «a rua» que fica com a impressão de ter alcançado uma vitória já que era «a rua» que pedia ontem nas ruas de Leipzig e de Berlim Leste a demissão dos dirigentes e que queriam homens novos.»

06 novembro 2017

A MODA ABSURDA

A moda tanto se pode exprimir por um chapéu que não protege do Sol como por umas calças que não protegem do frio. E alguma da argumentação mais veemente que vejo a ser brandida nas redes sociais também é inconsequentemente assim: é um conjunto de palavras sem significado...

A PRISÃO DE JOHAN SEBASTIAN BACH

Há precisamente 300 anos, o músico Johann Sebastian Bach (1685-1750) era preso. O que terá feito aquele compositor aos 32 anos, casado e pai de filhos, para lhe ter acontecido isso? Vale a pena contar a história que ali o conduziu. Em finais de 1716, o director musical da corte ducal de Weimar, (onde Bach trabalhava) morreu e foi sucedido no cargo pelo filho, que Bach considerava um incompetente e que o ultrapassara injustamente. Ao longo do ano seguinte o compositor procurou uma nova colocação e, no Verão, encontrou-a, como director musical na corte vizinha do príncipe Leopoldo de Anhalt-Köthen. O duque Guilherme Ernesto de Saxe-Weimar, despeitado pelos pedidos de demissão de Bach a que se recusava a dar provimento, acabou por o prender a 6 de Novembro de 1717, num gesto de prepotência gratuita que só terminou quando libertou o compositor quase um mês depois (2 de Dezembro), por intercessão de Leopoldo (que também era cunhado de Guilherme Ernesto). Comparando com este despotismo, as prisões dos membros do governo da Catalunha só podem ser justificadíssimas...

05 novembro 2017

«COM QUEM ESTEVE O WALLY?»

Marcelo é um grande leitor! Apreciemo-lo nesta foto acima a folhear uma edição gigante do Onde Está o Wally? com a destreza única de uma grande cabeça, de um grande intelectual. Porém, os tempos evoluem, assim como as modas editoriais e, se a moda de outrora foi andar página fora à procura do Wally, o boneco de óculos e barrete exótico, a moda dos tempos que correm parece ser andar à procura de fotografias de outros tempos, tiradas essas na companhia de um outro Wally, no caso abaixo também com uns chapéus promocionais bem garridos e exóticos.

ASTÉRIX CHORA A MORTE DE RENÉ GOSCINNY

5 de Novembro de 1977. Há quarenta anos toda a França que gosta de BD é surpreendida pela notícia da morte inesperada de René Goscinny com apenas 51 anos. Oriundo de uma família de judeus do Leste da Europa e apesar de nascido em Paris, só algumas circunstâncias acontecidas no momento certo o tornarão definitivamente francês, tendo vivido a primeira parte da sua vida na Argentina e nos Estados Unidos. Um daqueles criativos com apontamentos verdadeiramente geniais, a personagem de Astérix torna-o imensamente popular (uma primeira edição de uma aventura do herói gaulês chega a atingir os 1.400.000 exemplares nos anos 70) mas, por despeito, por se tratar de BD, mas também pelas suas origens, Goscinny é apreciado com indisfarçável desdém pelos círculos bem pensantes da intelectualidade francesa. Os detalhes da sua morte parecem sair de uma das histórias rocambolescas que ele tanto gostava de inventar: ao realizar uma prova de esforço em bicicleta para a avaliação regular da sua condição cardíaca, o argumentista francês foi acometido de um verdadeiro ataque cardíaco que lhe foi fatal.

04 novembro 2017

UMA FOTOGRAFIA QUE ATÉ PARECE «MUITO» ANTIGA

Da esquerda para a direita Soraya Sáenz de Santamaria, vice-presidente do governo espanhol e agora enviada como "duquesa de Mântua" para a administração directa da Catalunha por parte de Madrid, Ana Pastor, presidente do congresso de deputados espanhol, António Costa, primeiro-ministro português, Carles Puigdemont, até há poucos dias presidente da generalitat da Catalunha, ao lado de Mariano Rajoy, presidente do governo espanhol. A fotografia tem apenas dois meses e meio e foi recolhida por ocasião da missa em memória das vítimas dos atentados de Barcelona, realizada na catedral da Sagrada Família a 20 de Agosto. E atendendo à tradicional distribuição protocolar dos lugares, aqueles, dos oito membros da generalitat actualmente presos, que estiveram presentes naquela cerimónia, não devem estar muito distantes destes cinco fotografados.

OS AINDA «NÃO PROTAGONISTAS» DE EL ALAMEIN

Ainda a propósito do que era a propaganda de há 75 anos, aprecie-se, com um olhar entendido, esta caricatura de David Low publicada na edição do Evening Standard de 4 de Novembro de 1942, a assinalar o desfecho (finalmente) vitorioso da batalha de El Alamein. Repare-se como o sovado Rommel nem sequer se parece fisionomicamente com Rommel e precisa do nome no cinto para que os leitores britânicos o identifiquem; mas, sobretudo, destaque-se que quem o sova é um 8º Exército de aparência «working class» (conforme se pode identificar pelo capacete), uma vitória que é dada por colectiva numa altura em que ainda não se começou a trabalhar propagandisticamente a imagem de Montgomery para neutralizar a imagem do seu adversário alemão.

HERDEIRO DE AÉCIO - SÓ PARA OS QUE GOSTAM MESMO DE «CROISSANTS»

O ciclo da moda dos blogues ter-se-á assemelhado, em intelectual, ao ciclo da moda social e comercial dos croissants e das croissanterias que o precedeu por uns bons 20 anos. Depois de irromperem e pulularem por todo o lado, a actividade veio a cingir-se gradualmente a uns pouco estabelecimentos que são frequentados pelos clientes que verdadeiramente apreciam o produto assim como os recheios típicos da casa (aqui são hiperligações desenvolvendo alguns dos temas aflorados). Doze anos depois, são esses clientes dedicados que mantêm esta e outras casas abertas.

03 novembro 2017

COMO SE PROMOVEM TROPAS DE ELITE

Capa da edição da revista Look de 3 de Novembro de 1942. O destaque que já aqui se vê a ser dado às tropas pára-quedistas, revela a intenção do exército em transformá-las, para efeitos de propaganda, nas suas unidades de elite durante a Segunda Guerra Mundial, e a intenção precede mesmo a sua estreia em combate. Verdade que essa estreia estaria reservada para daí a muito poucos dias (8 de Novembro), uma operação aerotransportada que foi protagonizada pelo 509º Regimento, associada ao desembarque aliado no Norte de África e que foi baptizado por Operação Villain, como já aqui contei no Herdeiro de Aécio (foi um fiasco). Mas não foi esse fiasco que terá detido a máquina de propaganda do exército americano como se percebe por esta foto abaixo, encenada quase um ano e meio depois, precisamente antes do Dia D, como também conto neste outro sítio.

UMA EXCELENTE IDEIA PARA MARCELO VESTIR NO DESFILE DO PRÓXIMO CARNAVAL DE TORRES


Neste último Dia das Bruxas o primeiro-ministro canadiano Justin Trudeau resolveu mascarar-se de Super-Homem disfarçado de Clark Kent. Não só foi uma excelente ideia e um sucesso mediático, como poderá servir de inspiração para o disfarce do nosso Super-Homem nacional por ocasião das celebrações do corso do próximo carnaval de Torres Vedras.

02 novembro 2017

NUNO ROGEIRO COM CABELO EMPASTADO, NUNO ROGEIRO COM «DRY LOOK»


Quando este anúncio chegou a Portugal a fórmula publicitária foi alterada para Fulano cabelo empastado, Fulano com «dry look». Ainda haverá muitos que se lembrarão do olhar apatetado, pretensamente metamorfoseado, da segunda aparição. Agora aprecie-se um outro contraste, inspirado nessas imagens, aquele de como Nuno Rogeiro, ainda com o cabelo empastado, descreveu há um mês Stephen Paddock (abaixo à esquerda), aquele que foi «o autor da carnificina de Las Vegas» (que causou 58 mortos e 489 feridos) e como ontem, agora já com o «dry look», fez o mesmo com Sayfullo Saipov, «a besta oculta», o «homicida em massa de Nova Iorque» (8 mortos e 11 feridos). Termina a descrição do perfil do segundo com um desdenhoso «blá, blá, blá» destinado aos sem remissão. Paddock, pelo contrário, para além de misterioso, era apenas «um demónio vivo»... para além dos do Daesh. O grave mesmo não serão os actos e as suas consequências, é mesmo a filiação e as reivindicações...

A REVOLUÇÃO RUSSA (1891-1924) A TRAGÉDIA DE UM POVO

A Revolução Russa (1891-1924) de Orlando Figes continua a ser um livro interessantíssimo mais de 20 anos depois de ter sido editado pela primeira vez. A minha cópia é uma tradução espanhola comprada há mais de 15 anos (acima). Foi a que consegui, alguns anos antes do aparecimento da Amazon. A sua qualidade já fizera com que me referisse no blogue ao livro. Investigando a propósito de uma próxima edição portuguesa bastante tardia, fiquei a saber que o livro anteriormente já fora traduzido em mais de 30 idiomas incluindo o português... mas no Brasil. E, sinceramente, quando vejo todo este fru-fru promocional (abaixo) à volta de um livro que foi originalmente publicado em 1996, sinto um embaraço intenso, seja pela demonstração de atraso científico, pela nossa falta colectiva de exigência editorial, mas sobretudo por toda esta auto-satisfação manifestada por uma parte menor do nosso panorama intelectual. Para comparação, imagine-se quantas bandas rock de vulto, promovendo tournées pela Europa, se permitiriam estar 20 anos sem vir tocar a Portugal?...

O NOSSO E OS OUTROS SISTEMAS SOLARES

É raríssimo encontrarmos nas ilustrações o Sistema Solar representado na sua verdadeira escala. Por um lado, como se observa acima, há a disparidade das dimensões do Sol quando comparado com os planetas circundantes; mas o pior mesmo é preservar a escala quando se consideram as distâncias das órbitas. Para quem tiver uma genuína curiosidade em ver como é um sistema solar à escala, aprecie o exercício abaixo, realizado por uns curiosos norte-americanos, em que a referência da nossa Terra foi reduzida à dimensão de um berlinde. Mesmo a essa escala, foi preciso ir montar o modelo para um sítio onde houvesse quase 12 quilómetros de espaço livre! O Sol é representado por um balão luminescente e inflável com um metro e meio de diâmetro. Mercúrio está a 68 metros, Vénus a 120 metros, a Terra a 176 metros e Marte a 269 metros, seguindo-se os gigantes gasosos Júpiter (0,92 km), Saturno (1,7 km), Úrano (3,4 km) e Neptuno (5,6 km). A escala foi calculada de tal forma que, ao amanhecer e quando observados do ponto de vista da órbita do berlinde, o balão inflável tivesse o mesmo diâmetro aparente do próprio astro que se levantava no horizonte.

Este é o universo que os nossos cientistas conhecem com segurança e que, até há uma dúzia de anos, tinham como referência. A descoberta dos exoplanetas (ou seja, planetas que orbitam outras estrelas - hoje há cerca de 3.700 referenciados) veio subverter muito do que se dava por normal na estrutura dos sistemas planetários à volta das estrelas. Prolongando estes trabalhos de configurar o Sistema Solar a uma escala e inserindo para comparação aquilo que se vai descobrindo, talvez os leigos possam perceber melhor o exotismo das descobertas. Um exemplo bem recente é o de uma estrela situada a 600 anos-luz da Terra, identificada pela designação NGTS-1. Regressando ao quadro do cimo do texto, é notória a disparidade das dimensões entre a estrela e os planetas circundantes. No caso do planeta que foi detectado na órbita de NGTS-1 aquela disparidade quase desaparece. Não apenas a estrela é pouco mais de metade do Sol como se estima que o planeta (NGTS-1b) seja ⅓ maior do que Júpiter (veja-se o quadro abaixo). Mais do que isso, e preservando a escala e as distâncias usadas no exercício acima para o Sistema Solar, o balão inflável teria agora apenas 86 cm de diâmetro mas a bola representando NGTS-1b estaria apenas a uma distância de 5 metros!

O CENTENÁRIO DA DECLARAÇÃO BALFOUR«

«O Governo de Sua Majestade encara favoravelmente o estabelecimento na Palestina de um lar nacional para o povo judeu,...» Nota-se como a redacção é cuidada e como o governo britânico não se compromete substantivamente a grande coisa: limita-se a encarar favoravelmente algo que designa prudentemente por lar nacional. Ainda por cima, e apesar da resolução ter sido aprovada num conselho de ministros, note-se que foi Arthur James Balfour, o secretário do Foreign Office (assinalado abaixo à direita), e não o primeiro-ministro David Lloyd George (à esquerda), o encarregado de a transmitir por carta a Lionel Walther Rothschild. No momento, esta terá sido mais uma de milhentas resoluções produzidas pelas circunstâncias da Grande Guerra, a que só o tempo e a utilização que lhe foi dada pelos destinatários veio a dar importância.