23 setembro 2017

A INCÓGNITA DA RESPOSTA, A EXCITAÇÃO DA ESPERA

22 de Setembro de 1979. A edição desse dia do Diário de Lisboa trazia para destaque da sua primeira página uma proposta apresentada pelo PCP à sua organização satélite, o MDP, para que os dois se apresentassem conjuntamente ás próximas eleições legislativas, marcadas para princípios de Dezembro. Cinco anos depois do 25 de Abril, aquela que fora a formação de fachada dos comunistas durante o Estado Novo, o MDP/CDE, já se dera a mostrar em toda a sua submissão ao que fossem os interesses do PCP. Alguns militantes deste último (figuras de segunda linha como Vítor Dias), que haviam militado no, como controleiros do, MDP/CDE (numa espécie de comissão de serviço), já haviam regressado à sua base natural. Que o MDP/CDE não possuía autonomia política alguma tornara-se em 1979 num segredo de polichinelo. E, contudo, persistia-se como se percebe por esta manobra de promoção política a que o Diário de Lisboa (jornal da cor) se prestara. Na verdade, naquele amanhã que é proposto pelo título do jornal, de que hoje se completam precisamente 38 anos, não abundariam corações palpitantes, angustiados em adivinhar qual o sentido da resposta do MDP/CDE. Este(s) não tinha(m) opinião.

«A PRIMEIRA REPORTAGEM RADIOFÓNICA»

Ainda a propósito do combate da «Longa Contagem» de há 90 anos e dos anos esplendorosos do boxe nos Estados Unidos, durante os Anos 20, aproveite-se para contar como aconteceu a primeira reportagem radiofónica, tendo precisamente como pretexto um desses combates do século, que o século, ingrato, rapidamente veio a esquecer...
Note-se esta aparição do futuro presidente Franklin D. Roosevelt na história. Ao vê-lo afastar-se caminhando normalmente o argumentista (Lux) está a ser rigoroso: a doença que o deixou paralisado da cintura para baixo só o veio a atacar no Verão de 1921, já depois do combate ter tido lugar. Em contrapartida, é provável que ele fosse mais conhecido por ter sido o candidato à vice-presidência que perdera as eleições do ano anterior do que por ter sido um antigo sub-secretário da Marinha.
E um pequeno vídeo com algumas imagens de mais este outro combate do século opondo Dempsey e Carpentier em 2 de Julho de 1921. Note-se que tanto os comentários como o som ambiente do filme são apócrifos, a combinação da imagem com o som só se tornará comum no final daquela década.

22 setembro 2017

«SOU ESPIÃO»

É difícil explicar aos mais novos a revolução que o acesso aos meios audiovisuais tomou nos últimos anos. Aquilo que há precisamente 50 anos - 22 de Setembro de 1967, também uma sexta-feira - seria um dos pilares da programação televisiva desse serão - um episódio da série televisiva «Sou Espião» (I Spy) com Robert Culp e Bill Cosby - está hoje perfeitamente disponível para ser visto quando nos apetecer no You Tube. O que também já se tornou patente é que o acesso a muito mais informação não nos tornou correspondentemente muito mais sábios e informados...

MILAGRES DO "JORNALISMO" (INGLÊS!) (Com Adenda)

Eu nem consigo imaginar aquilo que terá custado ao The Economist ter escolhido esta capa para a edição desta semana. Considerando aquilo que de tão mal diziam de Corbyn lá pela revista ainda há um ano (como isto ou isto) a escolha fica como uma admissão. Ou então fica registado como um milagre político. Agora só fica a faltar outro, mas cá em Portugal, quando o Observador publicar uma notícia em destaque onde não diga mal de Costa... ADENDA: Afinal a edição posta à venda em Portugal tem uma outra capa, completamente diferente (abaixo) - isto quase parece um golpe à José Manuel Fernandes...

AS ARMAS E OS BARÕES ASSINALADOS...

...neste caso, será mais os ministros e os défices registados. Mantenho a tradição de aqui os registar de dois em dois anos e, sobretudo, registá-los a meio do ano, para que se tenha uma melhor perspectiva do que foram as heranças directamente legadas por Teixeira dos Santos... e por Vítor Gaspar. E eu que não dava nada por Mário Centeno... Neste blogue erra-se.

FOI VOCÊ QUE PEDIU UM PORTO FERREIRA?... (2)

Foi você que escreveu um Guião da Reforma do Estado? Regressado assim tão clássico, até parece que não...

O COMBATE DA «LONGA CONTAGEM»

22 de Setembro de 1927. Há precisamente noventa anos tinha lugar em Chicago um combate de boxe em que se disputava o título mundial. 105.000 pessoas assistiram ao combate e vários milhões tê-lo-ão seguido em transmissão radiofónica, quando a rádio era então uma novidade (a BBC britânica aparecera naquele ano, a Emissora Nacional portuguesa só virá a ser criada em 1935). No ringue defrontaram-se Gene Tunney e Jack Dempsey que embolsaram prémios de participação superiores a um milhão de dólares - somas colossais naquela época. E o combate ficou recordado pelo incidente ao sétimo assalto, quando Tunney, que fora derrubado por Dempsey, pôde beneficiar de uma contagem de protecção que, por uma questão de rigor técnico, se prolongou por mais tempo do que os dez segundos convencionados (abaixo). A questão tornou-se tanto mais relevante quando foi o próprio Gene Tunney que veio a ser considerado o vencedor do combate pelo júri. Dempsey contestou, como se pode ler acima no cabeçalho do New York Times do dia seguinte, mas sem qualquer efeito. Sobretudo, o que demonstra a irrelevância de todo este episódio para as memórias dos europeus, é o fosso cultural que então existia entre o Velho e o Novo Mundo naquele período de entre Guerras (1918-39), antes de os Estados Unidos virem para a Europa impor os seus padrões culturais, conjuntamente com os cheques do Plano Marshall.

21 setembro 2017

OLHA, PORTUGAL AFINAL JÁ NÃO É «O MILAGRE ECONÓMICO DA PENÍNSULA IBÉRICA»...

Tenha pena que as várias notícias negativas que o Observador tem vindo a publicar nos últimos dias sobre as péssimas perspectivas que se deparam à economia portuguesa (todas do mesmo autor) não estejam a ser devidamente escrutinadas. No caso da notícia negativa de hoje (acima), que nos alerta, às costas da opinião de um economista do Comerzbank, para que os problemas de Portugal apenas pioraram, dá-se a coincidência de que (mais uma vez) o mesmo autor, o jornalista (Edgar Caetano) que a escreve e o economista alemão (Ralph Solveen) que é citado serem precisamente os mesmos que há 32 meses descreviam a economia portuguesa como sendo o milagre económico da Península Ibérica... É uma coincidência do caraças! Ou então não é... Não sei se ainda se recordam de como se vivia há trinta e dois meses quando do milagre: era aquele período em que o deputado governamental Luís Montenegro desenterrara uma memorável fórmula «A vida das pessoas não está melhor mas o país está muito melhor», que foi fortemente satirizada depois. Vista a evolução da opinião da dupla (jornalista e economista) fica a descoberta de como os os milagres económicos (ao contrário dos de Jesus Cristo) afinal podem ser reversíveis, bastará que os governos de direita deixem de estar no poder. E há finalmente a constatação de que isto não é jornalismo, nem económico, nem de qualquer outra espécie. É opinião política, pura e dura, e que não teria qualquer problema em aparecer publicada se não aparecesse camuflada de outra coisa diferente.

CATALUNHA: A CUIDADA COREOGRAFIA DA FORÇA PASSIVA

Se as notícias de ontem de Barcelona haviam sido as detenções dos responsáveis do governo regional efectuadas pela Guardia Civil, as notícias de hoje são a resolução do sequestro a que alguns agentes dessa mesma Guardia Civil foram submetidos pelos manifestantes independentistas catalães. Resolução essa que, como os jornais locais se apressarem a noticiar, só se tornou possível pela intervenção da polícia regional catalã, os Mossos d'Esquadra. À vista de todos, mas sem ser devidamente explicada, decorre uma curiosa coreografia de força passiva, nomeadamente do lado catalão. Se o poder central acionou a Guardia Civil como executante da autoridade do Estado no seu propósito de impedir a realização do referendo na Catalunha, o poder regional, neste caso protagonizado pelos Mossos d'Esquadra, parece ter deixado os agentes da primeira sozinhos, a resolver o problema do seu sequestro às mãos da multidão que os cercava - as viaturas em que os agentes da Guardia se haviam feito deslocar ficaram no estado que a fotografia acima mostra... E essa espera terá demorado até ao limiar da decência: cerca de uma quinzena de agentes da Guardia Civil acabaram por ficar retidos durante quase 24 horas no edifício onde tinham realizado as buscas. E isso torna-se, mesmo que o seja apenas pela passividade e que possa ser explicado pelas mais razoáveis razões de carácter técnico, também uma demonstração de força.

OS LOUROS DE CÉSAR (33)

Os diálogos travados entre Astérix e Obélix dá deles a imagem de quem está dentro de uma redoma que os impermeabiliza do que se prepararia para acontecer consigo. Esse alheamento provoca os seus próprios momentos cómicos de equívocos, como a sugestão do carcereiro pela mostarda.

20 setembro 2017

VAMOS AGORA IMAGINAR...

...que tinha sido nos Estados Unidos de Donald Trump e não na Espanha de Mariano Rajoy que se havia mandado prender alguns membros de um dos executivos estaduais... As reacções ultrajadas seriam inimagináveis especialmente por se tratar de Donald Trump. Porque, com a cobertura de uma decisão judicial (como reclama Mariano Rajoy) ou sem ela, foi mais ou menos isso que acabou de acontecer em Espanha.

UM BOTA-ABAIXO QUE CUSTOU A IR ABAIXO


20 de Setembro de 1967. Neste mesmo dia de há cinquenta anos o Queen Elizabeth 2 foi lançado à água, em cerimónia que decorreu nos estaleiros John Brown & Company em Clydebank na Escócia, onde o navio estivera a ser construído desde 1965. A própria rainha Isabel II dignificou a cerimónia com a sua presença, entre mais de 30.000 pessoas. Fizera-se segredo até à data do lançamento quanto ao nome que a embarcação viria a receber: esse nome veio a ser o da própria soberana que viria a ser também a sua madrinha. O vídeo relembra a cerimónia com uma britishness total, até (ou especialmente...) no aspecto que se esquece de mencionar: durante dois intermináveis minutos - ou seja, toda a duração do vídeo acima... - o colosso com quase 50.000 toneladas recusou-se a descer a rampa, conforme estaria previsto. Depois, algo o decidiu. As saudações que acolheram a conclusão do bota-abaixo terão sido uma mistura de alívio com alegria. Mas o famoso humor britânico não é feito da capacidade de se rirem de si próprios...

O ANTI-HELENISMO DO OBSERVADOR E UMA NOTÍCIA COM A CONSISTÊNCIA DE UMA CAVACA DAS CALDAS

20 de Setembro de 2015. Há precisamente dois anos Alexis Tsipras ganhava as eleições legislativas gregas, com o Syriza a renovar a maioria parlamentar que alcançara nas eleições que haviam tido lugar uns escassos oito meses antes. Foi uma manobra política para Tsipras se relegitimar que veio a compensá-lo. Mas esta efeméride não é sobre política grega, é antes sobre ideologia militante e a imprensa portuguesa que está ao seu serviço. Em toda a crise das dívidas soberanas é difícil encontrar antipatia mais visceral do que a manifestada pelo jornal português Observador para com a Grécia, sobretudo pela atitude desconforme como o eleitorado grego se recusou a reagir aos aparentes dogmas da doutrina que os ideólogos daquela publicação (José Manuel Fernandes, Helena Matos, Rui Ramos e os outros) subscreviam e defendiam à outrance nas páginas electrónicas daquele jornal. Ora este encore das eleições gregas de Setembro de 2015, apesar das expectativas prévias que o jornal se apressara e entusiasmara a veicular, transformara-se apenas numa confirmação daquela que já fora a outra derrota ideológica do jornal quando das eleições de Janeiro.
Nos outros jornais de 20 de Setembro de 2015 a notícia da vitória de Tsipras e do Syriza terá aparecido como uma outra notícia do dia, mas no Observador tornou-se impossível olhar para o destaque dado ao assunto sem pensar, mais do que num hipócrita sorriso amarelo (estas notícias são sóbrias, não há por que sorrir), numas cavacas das Caldas, infladas e cobertas de calda de açúcar mas concavas do outro lado e ocas lá por dentro, numa prosa redigida por almas muito decepcionadas. Significativamente, a matéria foi entregue ao rank and file, que os ideólogos primaram pela abstinência em comentar a Grécia e os desmandos de Tsipras durante os tempos mais próximos. Contudo, os cabeçalhos abaixo demonstram que, se a porrada foi forte, também as dores de José Manuel Fernandes e seus amigos passaram depressa, que nisso e apesar da sua inimizade visceral, a malta do Observador têm muito a compartilhar com os comunistas: não apenas a falta de disposição para aprender com os erros, mas também esta atitude de que a Democracia (esta coisa de pôr as pessoas a votar livremente...) pode ser uma chatice quando elas se decidem a não decidir aquilo que se estava à espera que decidissem...

19 setembro 2017

NEM COSTA, NEM SEQUER PASSOS, AFINAL FOI O BCE OU MESMO APENAS SORTE

Nem mesmo neste momento, em que pelas suas páginas passaram declarações dos dois mais altos responsáveis políticos que se vieram a revelar proféticas, o Observador contemporiza no seu estilo. É sempre uma curiosidade interessante (e rara) ver políticos a ter razão. Mas o estilo do Observador que, no que concerne à apresentação gráfica até mudou recentemente, na sua substância continua tão engajado e rafeiro como desde sempre. O que lhes interessa dar crédito a Marcelo Rebelo de Sousa ou a António Costa (acima), naquelas suas duas antecipações de há três meses e meio, quando se podem esconder agora atrás de alguém da Bloomberg ou do Financial Times (abaixo) para minimizar a autoria da melhoria do rating atribuído pela Standard & Poor's? Pelos vistos o (inesperado) facto não se deve a Costa, mas tão pouco também se deverá a Passos Coelho (isso é só a opinião particular de Rui Ramos), terá sido tudo uma questão de intervenção do BCE ou então a sorte e o "timing" perfeito. Uma opinião que é tanto mais respeitável quanto não é própria, é de uns senhores do estrangeiro. É destas atitudes que se criam e consolidam as reputações de atribuir a uma publicação o labéu de perfeito pasquim.

OS LOUROS DE CÉSAR (32)

A forma como Uderzo desenha o discurso auto-condenatório de Astérix é do domínio do cinema: a «câmara» vai-se centrando no impacto que o discurso provoca em assistentes selecionados (Tifus, a família Qualquerius, o juiz, o promotor, não esquecendo os olhos pequeninos de Obélix, sugestivos de quem não percebe nada do que está a acontecer), até ao clímax da emotiva condenação à morte, sentenciada por unanimidade e aclamação. No reino do absurdo estamos nos domínios do estilo dos Irmãos Marx ou de Jacques Tati, embora os primeiros não conseguissem levar a cena até ao fim sem intercalar alguma palhaçada de Groucho e a cena ser demasiado palavrosa para o género de humor que caracteriza o segundo.

A TOMADA DE POSSE DO VI GOVERNO PROVISÓRIO

19 de Setembro de 1975. Há precisamente 42 anos tinha lugar a cerimónia da tomada de posse do VI Governo Provisório. O 25 de Abril de 1974 ocorrera 17 meses antes e haviam-se sucedido cinco governos provisórios, com uma média de duração que era inferior a três meses e meio, o que reforça o cunho de provisoriedade aos governos que já de si eram crismados de provisórios. Este que naquela data tomava posse (não se sabia na altura) e apesar das vicissitudes (que incluirão a substituição do primeiro-ministro Pinheiro de Azevedo por doença), irá durar uns perenes dez meses, até Julho de 1976. O momento da foto é simbólico da informalidade dos costumes da época revolucionária que se atravessava, mas também da personalidade do primeiro-ministro, que ali se virava para trás trocando impressões com alguém à sua retaguarda, despreocupadamente desatento quanto ao conteúdo do discurso que o presidente da República estava a proferir. A relação entre os dois homens nunca será sã e terá um episódio notável nos anais da ciência política quando da entrada em greve do governo à espera de que o presidente da República concedesse ao executivo as condições políticas que este considerava mínimas para poder governar. Há até uma célebre entrevista colectiva em que o primeiro-ministro manifestava o seu aborrecimento pela frequência com que era sequestrado, uma prática revolucionária que o chateava.
Porque a disputa do poder tanto se fazia nos gabinetes nos palácios governamentais quanto em manifestações de rua. Tanto assim, que a edição desse dia do jornal O Século (um jornal que, como quase toda a comunicação social do Estado, se engajara no espírito do Processo Revolucionário em Curso) divide a sua primeira página entre a notícia da posse do governo e a da manifestação que o contesta: «Muitas dezenas de milhares de operários, camponeses, soldados e marinheiros , oficiais progressistas, intelectuais revolucionários, membros de assembleias populares, de comissões de moradores, de conselhos de aldeia percorreram, ontem, a coluna vertebral da cidade de Lisboa, afirmando "Não ao Governo de direita", "Não à social-democracia", "Apoio às Assembleias Populares", e exigindo entre outras coisas "que os reaccionários abandonassem os quartéis", que a Reforma Agrária prosseguisse, pois que contava com o apoio da classe operária e dos trabalhadores portugueses.» Haviam sido aprovadas «já junto do Parque Eduardo VII, por aclamação da multidão», moções de apoio aos rurais alentejanos e ao MPLA, «único movimento representativo do povo angolano» bem como «à justa luta dos povos do Chile, da Espanha e do Brasil». Estes últimos, imagina-se, eram compromissos muito mais animados que o modorrento e repetitivo "Eu, abaixo assinado, afirmo solenemente pela minha honra que cumprirei com lealdade as funções que me são confiadas" dos ministros empossados. Era assim o PREC, demente, mas muito animado, e com a participação entusiástica em segundo plano de muitos que hoje tomaríamos por insuspeitos.

18 setembro 2017

GOVERNAR O MUNDO por MARK MAZOWER

É engraçada a história de como encontrei a obra deste historiador britânico pela primeira vez: numa tradução francesa de uma história sua sobre a Grécia sob a ocupação alemã (1941-44)! (Ver como se viveu por outras paragens europeias a Segunda Guerra Mundial é um exercício mais instrutivo do que enfiar o nariz cá pela terrinha e culpar Salazar por todas as desditas.) Depois apercebi-me que o autor contaria cá em Portugal com um clube de fãs: de facto, não será comum que um historiador da sua projecção tenha tantos livros traduzidos para português e editados em Portugal: O Império de Hitler, editado por cá em Maio de 2013, originalmente de 2008, O Continente das Trevas, editado depois, em Novembro de 2014, mas que fora publicado inicialmente em 1998 e finalmente este Governar o Mundo, editado já em Junho deste ano, a versão original é de 2012. Qualquer deles é interessante, as ideias que se apresentam fogem ao convencional, há passagens tão bem seleccionadas que apetece transcrever. O que não tenho a certeza é se aquilo que se debate naquelas páginas, precisamente por causa da sua sofisticação, produzirá alguma consequência significativa no comportamento dos actores, se Mazower não será mais uma reedição de outros autores que caíram no gosto e no goto do público (exemplo de Niall Ferguson) sem que as suas teses tivessem influenciado aquilo que veio a ser produzido pelos seus pares. Mas, mais uma vez, apetece-nos recuperar algumas passagens deste Governar o Mundo, caso destes parágrafos a respeito da mais recente crise que envolveu Portugal:

«Os custos reais deste modelo de integração internacional revelaram-se com uma rapidez espantosa quando o colapso financeiro de 2008-9 se metamorfoseou na crise da dívida pública de 2010. Com o fim do conto de fadas, o euro ficou mergulhado na incerteza. Os keynesianos disseram que a implementação de políticas de crescimento teriam provavelmente evitado o pior da crise porque o total das verbas necessárias para lidar com a dívida da Europa do Sul teria sido inferior, por exemplo, às gastas no âmbito do Plano Marshall em 1947. Mas nunca saberemos porque a sua implementação foi impedida pelas regras da Zona Euro e pela resistência política da Alemanha. Os países que se encontraram no meio da tempestade foram empurrados para a austeridade: o rendimento nacional contraiu-se rapidamente, os salários caíram, o desemprego disparou, em especial, entre os jovens, e as realizações da assistência social das décadas anteriores foram invertidas. (...)
Durante as negociações realizadas em 2010-11 para manter a Grécia no euro, os políticos viram-se limitados pela necessidade de evitar um «evento de crédito» cuja adjudicação não dependia deles nem de nenhum funcionário eleito, mas sim das deliberações de uma comissão da Associação Internacional de Swaps e Derivados, que se compõe principalmente de banqueiros. Os seus membros devem supostamente pôr de lado os conflitos de interesse decorrentes da posição das suas empresas e falar pelo conjunto do sector mas a falta de transparência do processo torna impossível saber se é assim. Também foi concedido um poder imenso a algumas agências de notação americanas, que chegaram há relativamente pouco tempo à avaliação de riscos globais (e que não têm sido nada de especial nesta actividade). Nenhum destes grupos adquiriu o seu poder automaticamente; conquistaram-no através de lóbi eficaz e de uma série de decisões políticas tomadas nos anos anteriores que permitiram que os mercados de capitais se regulassem praticamente a si próprios.
Só em 2008 começou a classe política europeia a reconhecer, nas palavras do presidente alemão, Horst Kohler , que os mercados financeiros eram "um monstro que tem de ser domado". A comprovação de que o sistema financeiro estava completamente viciado começou a afirmar-se com o aparecimento de provas inequívocas de que um pequeno número de bancos estava coludido na fixação do cálculo da taxas de juros interbancária do mercado de Londres ( Libor) - a taxa de juro básica subjacente ao valor impressionante de 350 triliões (mal traduzido: na realidade biliões) de dólares de veículos financeiros. A falta de interesse inicialmente gerada por esta história extraordinária - além das páginas do Financial Times - é bastante instrutiva. Se na vida financeira moderna os acrónimos são impenetráveis, as questões são tecnicamente complexas, a terminologia é eufemística, nada disto acontece por acaso: estes factores funcionam para realçar a mística do "mercado", em cujo nome ocorreram estes desenvolvimentos, e para dissimular as suas imperfeições e assimetria.
No entanto, ao mesmo tempo que estes elementos eram mais bem compreendidos, a crise revelou a habilidade dos mercados financeiros para protegerem os lucros privados e tornarem públicas as perdas, neste caso, numa escala colossal. Em 2008-9, os pacotes de resgate dos governos para o sector financeiro foram tão grandes que aumentaram o rácio endividamento/PIB de alguns países em 20/25%. Paradoxalmente, enquanto os governos ficaram enfraquecidos e, em muitos casos, entraram em crise, os participantes nos mercados receberam a assistência mas ao mesmo tempo mexeram-se rapidamente e com êxito para frustrarem qualquer todo e qualquer desafio regulatório sério. Os políticos denunciaram a irresponsabilidade dos banqueiros mas não lhes deram uma resposta eficaz. Pelo contrário, ajudado pelo dinheiro barato disponibilizado pelos bancos centrais - a flexibilização quantitativa representou uma forma extremamente tosca de estímulo monetário, a única forma de incentivo que restava a uma época que já não acreditava no planeamento - e sem ser afectado por nenhum imposto sobre as transacções financeiras globais, nem por pressões regulatórias significativas, o mercado dos derivados, que esteve na raiz dos problemas, tem continuado a crescer e o sector financeiro tem seguido em frente com muitos dos veículos novos e não colateralizados que contribuíram para a crise. Recorrendo a uma combinação e lisonjas e ameaças, os seus participantes principais demonstraram muito mais capacidade de acção colectiva, afirmação e sobrevivência do que os líderes dos estados europeus

Em toda a descrição acima só ficou a fazer falta, na história recente que nos diz directamente respeito, a peculiaridade portuguesa do estouro do BES no Verão de 2014. A extensa citação acima é de apenas de 4 páginas (pp. 440-443), ainda para mais incompletas, de Governar o Mundo. E se o leitor deste meu poste chegou até aqui, permita-me felicitá-lo, pois é um leitor atípico do que costuma ser a prática das redes sociais.

O 70º ANIVERSÁRIO DA CIA

18 de Setembro de 1947. O National Security Act promove uma vasta reorganização dos órgãos de defesa e segurança norte-americanos, nomeadamente a fusão dos Departamentos da Guerra e da Marinha num só, o da Defesa, a criação da Força Aérea como um ramo independente nas forças armadas, a criação de um Conselho de Segurança Nacional para assessorar o presidente nestes assuntos e, last but not least, a criação da Central Intelligence Agency (a famosa CIA). É difícil pensar que a CIA só tem 70 anos e que a incontestada supremacia mundial dos Estados Unidos pouco mais tem do que isso.

17 setembro 2017

OS LOUROS DE CÉSAR (31)

Repare-se na onomatopaica GROMBLEBLABLAGROMGROMBLABLA a representar a cacofonia dos comentários da assistência, em minúscula e depois em MAIÚSCULAS, representando dois tons, um primeiro mais discreto, o outro algo mais elevado, este último a provocar a intervenção do juiz, ameaçando evacuar a sala.

FOI VOCÊ QUE PEDIU UM PORTO FERREIRA? (1)


No meio das celebrações pela subida do rating da Standard & Poor's (pela qual houve quem se quisesse co-responsabilizar, e quiçá com toda a justiça), apeteceu-me ir actualizar (abaixo) um gráfico que guardei de uma publicação que já não consigo identificar, dos tempos em que Portugal era mantido no "lixo". É por esse gráfico que se constata o quanto a agência de notação americana foi compreensivelmente renitente em adoptar a decisão que acabou de tomar: passaram-se, grosso modo, 22 meses desde que o governo da "geringonça" tomou posse. Mas repare-se que coerentemente, os mesmos analistas haviam sido renitentes em afundar o rating de Portugal: por 17 meses eles esperaram pelos resultados da actuação do governo do PàF antes de se decidirem a classificar a actuação por ineficaz e o rating como "lixo" (aconteceu em Novembro de 2012). Em termos políticos, todos sabemos ao que todas elas andarão mas, ao contrário das suas concorrentes, pelo seu comportamento neste passado próximo, a esta agência de notação S & P não a podemos acusar de falta de prudência...

QUANDO O ROCK & ROLL ERA MAIS DO QUE MÚSICA


17 de Setembro de 1967. Os The Doors apareciam num dos canais da televisão americana (CBS) a cantar "Light My Fire". Por acordo prévio, um dos versos da música («Girl we couldn't get much higher») devia ter sido modificado mas o vocalista Jim Morrison, aproveitando-se do facto da transmissão ser em directo, cantou mesmo a versão original (é o que provoca o sorriso do outro membro da banda, aos 0:29 do vídeo). E os The Doors foram banidos de regressarem futuramente àquele programa de televisão. No mesmo dia, mas num outro programa, tinham sido os The Who que, quando procediam à sua tradicional destruição dos instrumentos no final da actuação, tinham provocado um incidente assustador (também em directo) por causa da colocação excessiva de material pirotécnico na bateria de Keith Moon. A explosão assustou um dos membros da banda e deixou os telespectadores inquietos com o que acontecera a outro, escondido por uma enorme nuvem de fumo. Mas os The Who não foram banidos, nem mesmo por terrorismo em palco... Há 50 anos, o Rock & Roll era muito mais do que apenas música, como se percebe pela comparação destes dois episódios, que nos levam a deduzir que as palavras podiam (e podem) ser muito mais ameaçadoras que as bombas...

16 setembro 2017

EU, CÁ POR MIM, 3,5% ACHO POUCO... MAS EU TAMBÉM NÃO FUI MINISTRO DE PASSOS COELHO!

Para quem se tenha esquecido, quando Miguel Poiares Maduro saiu do poder, no terceiro trimestre de 2015, o PIB estava estagnado...
Ele há aquela piada das bandas de garagem que não deviam ter saído da garagem, devia haver uma adaptação com os académicos expatriados que bem podiam ter ficado lá onde estavam... Portugal devia estar a crescer acima de 3,5% tanto quanto Poiares Maduro devia estar calado.

QUARTA FEIRA NEGRA PARA A LIBRA

16 de Setembro de 1992. Esta Quarta-Feira negra de há 25 anos só foi verdadeiramente negra para os britânicos, porque para os seus parceiros mais próximos da União Europeia (incluindo Portugal) o episódio ter-se-á revestido de múltiplos tons de cinzento. O que aconteceu nesse dia é que o Reino Unido teve que se desvincular do Mecanismo de Taxas de Câmbio que regulava o Sistema Monetário Europeu por causa das enormes pressões especulativas que se vinham a compactar contra a Libra, todas apostando na desvalorização da divisa britânica. Nesse dia, o Tesouro britânico teve que baixar os braços e deixar de segurar a cotação da sua moeda nos parâmetros que haviam sido pré-estabelecidos pelo Mecanismo. O afundamento da Libra terá custado uns 3.300 milhões ao contribuinte britânico mas o maior dano terá sido moral: todo o episódio mostrara à evidência quanto a divisa britânica se expunha frágil quando emparceirada num mesmo mecanismo com a moeda alemã. O Reino Unido não voltou a reentrar no Sistema Monetário Europeu.

15 setembro 2017

A EUROPA DE JUNCKER

Contar-se-ia com a reacção superficial mas desagradada da comunicação social portuguesa (...e das redes sociais) à gaffe do discurso de anteontem de Jean-Claude Juncker no Parlamento Europeu (acima). O que foi verdadeiramente surpreendente foi a contra-reacção daqueles que se apressaram a sair em defesa do presidente da comissão europeia. Surpreendente e eloquente pelos processos que se empregaram para minimizar o que, não tendo qualquer gravidade, era, apesar disso, indesculpável. E que esvaziou, dentro de portas, o impacto de um discurso em que Bruxelas havia depositado tantas esperanças. Houve quem, conhecedor da História, procurasse produzir algumas larachas diminuindo o incidente, evocando precedentes de outras descrições a pincel grosso da geografia europeia, como a famosa Europa do Atlântico aos Urais de de Gaulle ou então a Cortina de Ferro que a dividia desde Stettin no Báltico até Trieste no Adriático de Churchill. Não sei se esta Europa de Vigo a Varna, de Espanha à Bulgária de Juncker se irá perpetuar na memória colectiva como aconteceu com as outras duas famosas descrições. Mas, se isso acontecer, será triste - como até os próprios amigos domésticos de Juncker, aqueles que agora o defendem com denodo, decerto o reconhecerão. Se alguma coisa tivemos que aprender com o que nos aconteceu desde 2011 é a nossa irrelevância à escala europeia. E a passagem de Durão Barroso pelo cargo que é agora de Juncker também nos educou na inutilidade do que valem as simpatias de quem ocupa os mais altos cargos da União. Convém é que não sejam muito ostensivos na forma como essa nossa menoridade é evidenciada verbalmente. É que não nos podemos esquecer que não se tratou ali de um lapso ocasional: estes textos (o de Juncker, como o de de Gaulle ou de Churchill) são para parecer espontâneos mas foram todos pensados e preparados de antemão e sopesados no impacto das palavras que contêm.

Nota: entre os protagonistas da contra-reacção, houve quem tivesse previsto «É um fait-divers. Vai ser aproveitado nas redes sociais e daqui a 24 horas já ninguém se vai lembrar...» Só para o chatear, esperei 48 horas para publicar isto. Sobre o conteúdo carregadamente federalista do discurso, houve quem também tivesse esperado 48 horas para dar a sua opinião: Um discurso desastrado. Quanto ao acolhimento oficial dado pelo governo português, pelo que é possível ler na entrevista já dada pelo ministro dos negócios estrangeiros, pode classificar-se de uma reacção muito circunspecta.

OS LOUROS DE CÉSAR (30)

Uderzo deixa-se levar pela imaginação na configuração como desenha um tribunal romano. É muito improvável que as audiências comuns decorressem em salas com um tal pé-direito, ainda por cima com anfiteatro semicircular para sentar a assistência. O desenho faz lembrar mais um teatro clássico, com o juiz, réus e advogados como actores. Por outro lado, noutro retoque irónico, os dois advogados disputam-se a deixa de invocar a destruição de Cartago, citando Catão, para início do seu discurso. Na realidade, o que Catão alegadamente fazia, numa passagem que se tornou um clássico da oratória latina, era terminar todos os seus discursos fazendo essa invocação: «Ceterum censeo Carthaginem delendam esse».

O ATOLEIRO VIETNAMITA

15 de Setembro de 1967. A capa da TIME desse dia (a revista sai semanalmente) é dedicada a Nguyen Van Thieu, o presidente do Vietname do Sul, que fora legitimado pelas eleições do princípio desse mês (dia 3). Contudo, convirá explicar por que a evocação é feita à capa da TIME e não às eleições propriamente ditas, que haviam sido fraudulentas, o único facto surpreendente nelas fora o facto do general candidato governamental, mais do que previsivelmente vencedor e devidamente apoiado pelos Estados Unidos, ter sido eleito recebendo apenas 34,8% da votação*. O destaque da capa, em que o destacado aparecia emoldurado pela bandeira sul-vietnamita por detrás, dirigia-se inteirinho para a frente interna norte-americana, onde a opinião pública começava a mostrar um indisfarçável cansaço por aquilo que se estava a assemelhar a um atoleiro do qual que não se via saída. Os leitores da revista TIME que combinasse a memória com o jeito para fixar nomes asiáticos poderiam recordar que, entre homens fortes prometidos para a solução do problema vietnamita já haviam aparecido três, só nos últimos quatro anos (1963, 1964 e 1966). Que garantias apresentava a administração Johnson que desta vez e com este é que era? Pelo menos, apesar de ser tão general quanto os outros, não aparecia fardado...
* Significativamente, o segundo candidato mais votado, o advogado civil Truong Dinh Dzu, que recebera 17,2% dos votos e que alegou que houvera fraudes, foi posteriormente preso por transacção ilegal de divisas, julgado por um tribunal militar e ali condenado a cinco anos de trabalhos forçados. Comparando com exageros despóticos destes, a situação que se vive em Angola é uma democracia.

14 setembro 2017

DULCOLAX®

A imagem é de um outdoor de uma campanha publicitária que teve lugar na Alemanha promovendo imaginativamente um laxante. Aqui para a campanha de Oeiras só ficaria a faltar ali ao centro do rolo a sombra (em padrões sombrios) da figura de Isaltino Morais...

O GRANDE INCÊNDIO DE MOSCOVO

14 de Setembro de 1812. Há precisamente 205 anos o grande exército de Napoleão entrava em Moscovo em perseguição do exército russo que acabara de evacuar a cidade e esta, de uma forma que nunca ficou devidamente explicada (o incêndio terá sido deliberado ou acidental?), acaba por ser vítima de um grande incêndio que a destruiu em cerca de 75%. Recorde-se que à época, Moscovo, (que contaria então uns 250.000 habitantes), sendo a mais importante cidade do centro da Rússia, não era a capital do Império, que estava então localizada às margens do Mar Báltico, em São Petersburgo (que albergava então umas 300.000 pessoas). Voluntário ou involuntário, o grande incêndio de Moscovo foi transportado para a História como o gesto simbólico da vontade inquebrantável do tsar Alexandre I em resistir à coacção de Napoleão Bonaparte.

13 setembro 2017

SOBRE A DISCRIÇÃO E A EXUBERÂNCIA DE CERTOS CONFLITOS

13 de Setembro de 1967. Há precisamente 50 anos as relações sino-indianas passavam por mais uma fase muito tensa, com a ocorrência de um choque violento entre forças armadas dos dois países a propósito da delimitação das fronteiras numa remota portela dos Himalaias denominada Nathu La. O que se pode hoje reconstituir hoje do incidente, tudo terá começado por uma iniciativa indiana de delimitar a fronteira naquele local, a equipa (de engenharia militar) que estava encarregue de o fazer foi interpelada por um destacamento do exército chinês que acabou recorrendo ao fogo de armas ligeiras para dispersar a equipa indiana, atingindo alguns. Seguiu-se um crescendo do poder de fogo, com o emprego de morteiros e de artilharia dos dois lados, emprego esse que se prolongou pelos três dias seguintes (é o conteúdo da notícia acima). Ao quinto dia dos combates alcançou-se uma espécie de cessar-fogo. No final, e apesar daquela tradicional guerra de comunicados com números entre as baixas causadas e sofridas (em que se multiplicam as primeiras e se dividem as segundas), qualquer dos lados assumiu, pelo menos, que tinha sofrido várias dezenas de mortos nos combates, o que tornava o incidente em algo mais do que uma escaramuça acidental.
Do ponto de vista do seu desfecho, as análises depois surgidas ao combate travado consideram que os indianos gozavam da vantagem inicial do seu posicionamento táctico e que, no final, beneficiaram com isso. De todo o modo, vitória que tivesse sido, tratou-se de uma vantagem infinitesimal se considerarmos a envolvente estratégica de todo o incidente - a questão dos contornos fronteiriços entre a China e a Índia que ainda hoje é um assunto dormente nas relações entre aquelas duas grandes potências. Mas o que tornará oportuno evocar agora este episódio, quando a questão da Coreia do Norte ocupa as manchetes, é perceber como a coreografia dos intervenientes pode ser decisiva na importância e na gravidade que a comunicação social tende a atribuir a estes incidentes. Se há um historial de rivalidade sino-indiana por causa de questões fronteiriças (com fases mais quentes, como este episódio agora aqui descrito de 1967, que se seguira a uma mini-guerra em 1962, e que precederá novos confrontos em 1987), parece haver também haver um consenso estabelecido entre as duas partes em tratar toda a questão com a maior discrição possível. Às vezes é vantajoso. A prova é que quase ninguém se lembra deles - e de como a China e a Índia são rivais.

O ENGENHO E A TÉCNICA DE NOS QUEIXARMOS DA LADROAGEM

O facto do assalto à sede de campanha de Isaltino Morais ter ficado conhecido rapidamente e do assalto à sede de campanha de Joaquim Raposo (que ocorrera anteriormente) só ter sido dado a conhecer na sequência de toda a publicidade dada à do seu rival, só mostra a enorme diferença de dinâmicas no aproveitamento de queixas que possam ser feitas sobre ladroagens. É curioso aliás, que toda a campanha autárquica em Oeiras decorra sob o signo da ladroagem, a única queixa que não parece surtir efeito mediático é a de nós, (alguns) munícipes, a queixarmo-nos da ladroagem praticada pelo próprio Isaltino... AGARRA QUE É ISALTINO!

OS LOUROS DE CÉSAR (29)

É sabido o quanto (quase tudo!) o nosso aparelho judicial deverá à tradição romana, mas também é confrangedor constatar quanto esse quase tudo terá mudado do tempo dos romanos para cá: eles, para se assegurarem de uma boa condenação, aceleravam o expediente; nós não, empurramo-lo até ao raiar do ridículo (e mais além...), veja-se, desde o tão mediático caso de José Sócrates até ao tão discreto caso de Miguel Macedo (você ainda se lembra deste último?).

12 setembro 2017

FURACÃO «IRMA»: O DESAPONTAMENTO

Depois de uma expectativa tremenda, aquele que foi classificado como o possível «pior furacão de sempre» revelou-se afinal uma desilusão nas consequências quando atingiu território americano: uns meros três mortos na Florida, apenas dois na Geórgia, isto são números que se equivalem ao registo de um mero desastre de automóvel. Sempre se aceitou que o alarmismo fosse excessivo, mas o que ele não pode é ser tão exagerado assim, a ponto de parecer fraudulento. Diante destes desapontamentos, e como outrora o fizeram os Monty Python a respeito de Mortes Célebres, é de equacionar a hipótese de se criar um concurso pontuando a destrutibilidade dos furacões, mas só depois de eles terem passado...

O INCIDENTE DO LACONIA

12 de Setembro de 1942. Aquilo que veio a ficar conhecido como o incidente do Laconia começou há precisamente 75 anos, no dia em que o paquete com esse nome (fotografia acima) foi torpedeado por um submarino alemão em pleno Atlântico Sul (localização do local do ataque no mapa abaixo). O RMS Laconia era um navio de passageiros relativamente novo (fora lançado à água em 1921), deslocando 20.000 toneladas e que, com a Guerra, fora fretado pelo Almirantado britânico para o transporte de tropas. Naquela que seria a sua última viagem, ele saíra dos portos do Médio Oriente (Suez e Aden), navegando ao longo do Índico e da costa oriental de África (Mombaça e Durban), transportava sobretudo prisioneiros italianos, que haviam sido capturados pelos britânicos por ocasião das campanhas da África Oriental italiana (Eritreia, Abissínia e Somália). Acompanhavam-nos uma escolta de soldados britânicos para os guardar. Um terceiro grupo a bordo era o de soldados polacos que tinham uma história complicada para ali se encontrarem: haviam sido capturados e aprisionados pelos soviéticos quando estes haviam invadido a Polónia em 1939; os comunistas haviam executado uma apreciável percentagem dos seus oficiais no hoje célebre massacre de Katyn, mas as outras patentes continuaram aprisionadas; a invasão da União Soviética pela Alemanha nazi em Junho de 1941 tornara-os (russos e polacos) em aliados; a pedido das autoridades polacas no exílio (em Londres!), os soviéticos começaram a libertá-los e a transportá-los para o Irão (neutral), onde, através de uma viagem de circum-navegação a toda a África se viriam juntar às unidades da Polónia Livre que se estavam a constituir na Grã Bretanha. Um último grupo a bordo era o dos passageiros civis. Neste trecho da viagem, entre a cidade do Cabo na África do Sul e com a chegada prevista para Freetown na Serra Leoa, seguiam a bordo do Laconia, 1.793 prisioneiros italianos, 286 soldados britânicos para os guardar, 103 soldados polacos (auxiliando também os britânicos nas tarefas de guarda aos prisioneiros), 87 civis e 463 membros da tripulação, um total de 2.732 pessoas, dos quais ⅔ deles eram italianos.
Era já noite quando o Laconia foi atingido pelo primeiro torpedo. O autor do torpedeamento fora o submarino U-156 comandado pelo capitão-de-corveta Werner Hartenstein (1908-1943). Um segundo torpedo precipitou o afundamento do navio uma hora depois. Embora as explosões e o afundamento tivessem provocado um número apreciável de vítimas, os tripulantes alemães ficaram surpreendidos com o número inesperado de milhar e meio de sobreviventes em botes salva vidas e à tona de água. Mais do que isso, outra surpresa foi a nacionalidade italiana de muitos deles, numa época em que, recorde-se, alemães e italianos constituíam o Eixo. Houve tanto de humanitário (salvação de vidas) quanto de político (a maioria dessas vidas seriam italianas) na decisão e no gesto dos alemães de convocar as suas outras unidades navais naquela área (dois outros submarinos alemães e ainda um italiano). Mais do que isso, foi solicitado o auxílio de um pretenso neutral (a França de Vichy) e enviada uma proposta de trégua para os inimigos (Reino Unido e Estados Unidos). Os franceses responderam positivamente mas os anglo-saxónicos desconfiaram que se trataria de um estratagema alemão. Como se percebe pela foto abaixo, os quatro submarinos revelaram-se manifestamente insuficientes e desapropriados para acomodar ainda que uma ínfima parte dos náufragos. O que eles puderam fazer nos dias seguintes foi rebocar os salva vidas até um ponto de encontro convencionado com os navios franceses entretanto saídos dos portos das suas colónias africanas mais próximas. Quatro dias depois do afundamento, bombardeiros B-24 norte-americanas encontraram um dos grupos de submarinos que rebocavam os sobreviventes e, apesar da sinalética (cruzes vermelhas) que afixavam, atacaram-nos com cargas de profundidade. Os submarinos evadiram-se, o ataque provocou foi (mais) baixas entre os náufragos e os salva vidas que eram rebocados. No computo global, e embora haja versões diferentes, cerca de 1.100 pessoas terão sobrevivido (40% do total que viajava no Laconia), mas a taxa de sobrevivência entre os prisioneiros italianos terá sido substancialmente mais baixa (400 entre 1800 pessoas, ou seja 22%).
O incidente foi estopim para que o almirante Karl Dönitz emitisse de imediato uma ordem (Triton Null) proibindo os comandantes dos submarinos alemães de prestar qualquer assistência às tripulações dos navios que haviam acabado de afundar. O episódio reveste-se de potencialidades para à volta dele se escrever um bom enredo de série televisiva, tanto mais que o protagonista Werner Hartenstein, que terá querido humanizar a crueldade da guerra (sob as ordens de Dönitz!), acabou tendo, escassos seis meses depois, aquele destino trágico que foi o de tantos outros comandantes de U-Boot. O que não costuma ser referido, porque, quiçá estragará a emoção do momento, é que o U-156 logo no dia seguinte ao dos acontecimentos que o haviam vitimado, afundou mais um navio britânico, o Quebec City. A guerra continuava.

PEGANHENTO

No domínio do informativamente peganhento só há um assunto que bate os comentários de Marques Mendes: são as deambulações de Madona. Porra! Ainda não repararam que não há quem se interesse nem por uns, nem por outras? Experimentem não dizer nada sobre os dois assuntos a ver se continua a haver protestos...

11 setembro 2017

OS AUTORES DO MASSACRE DOS MONTES MEADOWS

11 de Setembro de 1857. Há 160 anos, em território do Utah, tinha lugar mais um daqueles episódios sangrentos que costumam ser associados à conquista do Oeste americano, um massacre de emigrantes que, naquele caso, custou a vida a 120-140 pioneiros (os números são imprecisos) depois de, nas suas características carroças, terem partido do Arkansas em busca de novas terras férteis. O que torna este episódio diferente de outros tantos que estão associados à colonização do Oeste é que os autores deste massacre foram europeus e não índios. Porém, sendo europeus, eles distinguiam-se por pertenceram a uma minoria religiosa (os mórmons) que se consideraria na fronteira do que seriam as práticas religiosas aceitáveis na ampla variedade de designações abrangidas pelo cristianismo eclético dos Estados Unidos daquela época. Um dos aspectos mais chocantes que apartava os mórmons do resto da sociedade norte-americana era a aceitação por aqueles da poligamia. A forma como este Massacre dos Montes Meadows e a sua memória têm sido preservados nestes 160 anos reflete a pulsão hostil ou integradora do núcleo da sociedade norte-americana para com a comunidade mórmon. O tratamento dado ao episódio podia - se calhar, devia - ser o mesmo que foi dado a tantos outros massacres que foram perpetrados pelas tribos índias. Os mórmons, se tivesse sido adoptada essa narrativa, seriam tratados como um movimento religioso exótico, distinto dos valores cristãos que estão associados à epopeia da conquista do Oeste. Só essa distinção - no caso religiosa - justificaria o gesto de eles serem responsáveis por massacrarem quem deviam considerar como iguais na Fé. Por essa narrativa, a versão hostil, a Fé de uns e outros não era propriamente a mesma e os mórmons, seriam tão alheios ao ideal americano quanto qualquer tribo índia. Porém, os mórmons concentraram-se no Utah e tornaram-se uma realidade política regional: insignificantes no resto dos Estados Unidos, eles são hoje 70% da população de 3 milhões de habitante do Utah. Era evidente que a melhor solução para as duas partes era arranjar uma solução integradora entre a comunidade e as autoridades federais, já que o Utah se situa no interior dos Estados Unidos (mapa abaixo). Num processo não isento de percalços, os mórmons tiveram que renunciar em 1890 à poligamia, naquilo que era uma questão inaceitável para o resto da sociedade norte-americana. Só meia dúzia de anos depois disso, em 1896, é que o estado do Utah e a sua teocracia puderam ser aceites na União*. A memória deste Massacre dos Montes Meadows é que penou com essas necessidades da política real. Acima, do lado esquerdo, vê-se uma das poucas tentativas de relembrar o episódio, já por ocasião do seu 75º aniversário, em 1932. Mesmo assim, para o compatibilizar com a mitologia do Oeste houve uma tentativa séria de tentar corresponsabilizar os índios da região por parte do massacre, como que dividindo as culpas, quando os índios participaram sobretudo como tropas auxiliares de uma outra vontade. Só de há uns 25 anos para cá é que o assunto tem voltado de novo a ser evocado (acima, à direita), num processo de ampla revisão histórica por que todos os Estados Unidos estarão a passar, algumas dessas revisões com consequências mais visíveis que outras.
* Como se vê, o Irão não foi o primeiro caso em que Washington teve de lidar como uma teocracia de contornos aparentemente democráticos.