21 julho 2014

LEMBRANDO A OTI A PROPÓSITO DA CPLP

Não sei quantas pessoas se lembrarão ainda da OTI. Não se tratando de uma organização internacional de grandes ambições geopolíticas – era uma organização de televisões dos países ibero-americanos – a sua composição podia-se prestar, apesar de tudo, a interpretações desse cariz. Fundada em Março de 1971 no México e popularizada através da realização de um Festival da Canção muito semelhante ao da Eurovisão, podia-se perceber o desejo na adesão de Portugal – ou melhor, da RTP – em romper um certo cerco político em que as democracias ocidentais europeias haviam colocado o regime marcelista. Nesses primeiros anos, o Festival da OTI aparecia nas pantalhas como uma alternativa ao da Eurovisão, conferindo à organização uma notoriedade que rapidamente desapareceu quando, depois de 1974, as prioridades de Portugal puderam passar a ser outras. O festival já deixou de se realizar há mais de uma dúzia de anos e que o se pode dizer do historial da participação da RTP nele (abaixo, a estreia em 1972, com Tonicha) pode sintetizar-se na conclusão que não parece fazer parte da vocação portuguesa a de competir com sucesso em festivais da canção internacionais…

A OTI, apesar das ambições que suscitou e que eram muito mais vastas do que apenas a acima descrita para Portugal (os países latino-americanos procuravam, por exemplo, fazer dela um contraponto à fortíssima influência cultural, especialmente audiovisual, vinda da América do Norte, o Brasil obrigava-se, como é seu timbre, a procurar exercer a sua hegemonia em tudo o que sejam manifestações que contestem a ascendência norte-americana, Espanha, México e Argentina tinham as suas próprias agendas, etc.), ter-se-á tornado num projecto fracassado e a OTI parece hoje ter-se tornado numa organização adormecida. Uma das causas, pelo menos nos casos português e brasileiro, percebe-se de imediato se se olhar para um mapa-mundo com os países fundadores da OTI (mais acima) e bastando conhecer um pouco de geografia. A demografia tornava a OTI numa organização fortemente dominada pelos países de língua castelhana: eram dezanove versus a dupla dos países de língua portuguesa e por isso o português esteve sempre longe de adquirir a paridade que lhes mereceria (a Portugal e ao Brasil) a continuidade do investimento. Significativamente, quando se visita a página da organização actualmente existente na net, ela nem sequer é bilingue…
Pois bem, esse é um aspecto em que a questão da próxima adesão da Guiné-Equatorial à CPLP parece-me assemelhar-se um pouco à da OTI, só que a desproporção entre português e castelhano é a inversa. Já aqui tive oportunidade (já há oito anos!) de tentar explicar como a Guiné-Equatorial foi um acidente da História, resultado de uma negociação entre Portugal e a Espanha em que os interesses de ambos estavam noutro continente. Intriga-me a personalidade do português que se lembrou da ideia, intriga-me ainda mais a personalidade do espanhol que a comprou. Os 190 anos de administração colonial espanhola são notáveis… por ninguém se lembrar deles. Será ínfima a percentagem de espanhóis que hoje saberão que tiveram uma colónia na África equatorial, muito menos localizá-la num mapa. É por isso que se afigura natural que, dada a sua pequena dimensão e perante o desinteresse da ex-metrópole, desirmanado de outros países que compartilhem as mesmas raízes culturais, a Guiné-Equatorial procure fazê-lo com o que de mais aproximado há pelas redondezas. Adoptou o Franco CFA como sua moeda. As críticas que tenho lido a pretexto da ausência de raízes lusófonas dão uma nota de exclusivismo pedante: a Commonwealth britânica conta no seu seio com países como Moçambique ou o Ruanda, a CPLP já concedeu o estatuto de associado a esse farol da lusofonia que é a ilha Maurícia
Mas as críticas mais substantivas à adesão da Guiné-Equatorial à CPLP que tenho lido não têm a ver com o próprio país, antes com a pessoa que a dirige, Teodoro Obiang. Além de ser um ditador, é um ditador rico, o que tem servido de argumentação daqueles que se opõem à adesão da Guiné-Equatorial contra os que se mostram favoráveis a essa adesão: sugere-se que quem defende a entrada da Guiné-Equatorial na CPLP só o faz pelo interesse nas riquezas petrolíferas daquela. Mas há melhor que isso, hoje li a quem segue esse estilo de argumentação, um link para uma artigo da Forbes (já com dois anos) que classifica Teodoro Obiang entre os cinco piores dirigentes africanos. Com tanto azar que na mesma lista aparece também José Eduardo dos Santos… Se a reputação de dirigente do país pertencente à CPLP é assim tão fundamental para a sua presença na organização, não será de equacionar pedir também a suspensão de Angola?... A sério, suponho que será preferível discutir ideias (neste caso países) e não pessoas. E a esse título e mais do que a admissão da Guiné-Equatorial, confesso-vos a minha apreensão ao apreciar o mapa abaixo e a heterogeneidade dos países identificados como interessados em associar-se à organização, pois, para lá da identidade democrática ou autocrática de quem os dirija, tenho dificuldade em descortinar o que Croácia, Roménia, Ucrânia, Filipinas ou Austrália têm a ver com uma ideia do que possa ser a CPLP.

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