30 novembro 2012

O DEDO DE HENRY FONDA

Depois de aí há uns dias ter havido uma polémica por causa de um dedo de um jogador do Sporting após ter marcado um golo (dedo esse desmentido...), vale a pena recordar este outro, flagrante, de Henry Fonda, que passou muitos anos esquecido e escondido. A fotografia foi feita durante as filmagens de On Golden Pond (A Casa do Lago – 1981), filme com o qual Fonda e Katharine Hepburn (a seu lado na foto) receberam os Óscares para a melhor interpretação desse ano. Foi também o último filme de Henry Fonda, que veio a falecer em Agosto de 1982. Por tudo isso tornou-se particularmente inconveniente mostrá-lo neste instantâneo irritado, logo ele que sempre cultivara como actor uma imagem de simpatia e afabilidade…

29 novembro 2012

UM GRANDE CONTENTOR DE CONVERSA FIADA

Tenho seguido a greve dos estivadores com uma crescente simpatia pela facção dos grevistas, improvável de início, que os tenho na conta daquelas classes privilegiadas como os pilotos da aviação civil, maquinistas ou controladores aéreos que exercem profissões que controlam todo um sistema e que retiram desse facto as suas recompensas sem qualquer solidariedade para com as outras classes desses mesmos sistemas. Por causa do uso político que o braço laboral do PCP (a CGTP) lhes tem dado desde sempre, tende-se a esquecer como as greves deveriam ser conflitos laborais a sério. Há que ir às virilhas dos adversários, onde lhes dói mais…

Basta evocarmos uma figura maior do sindicalismo português como Mário Nogueira para nos apercebermos como isso está esquecido: se ele convocar amanhã uma greve de professores, para além de um incómodo de relações públicas, nem se imagina o ministro Nuno Crato a queixar-se das partes por causa das consequências dessa greve. O que nos faz regressar ao assunto principal deste poste, através da referência aos ministros, àqueles pins foleiros com a bandeira nacional que eles trazem sempre na lapela, que parecem torná-los próceres do patriotismo: a greve dos estivadores e o magno embate mediático que o governo está a travar com eles.
É que a primeira cartada mediática a ser jogada contra os estivadores foi a do patriotismo. Na verdade, houve até quem se tivesse envolvido nela que não teria perdido nada em ter ficado calado. Foi o caso de Ricardo Salgado do BES, que não tem lições sobre esse assunto a dar a ninguém: ele que transfira as sedes das empresas que detém em paraísos fiscais para que elas paguem o IRC em Portugal e depois pode-se começar a conversa… A partir daí, foi um salto culpar os estivadores por contribuírem para a queda das exportações. Mas esqueceram-se que a esmagadora maioria das nossas exportações vão para a Europa e não passam pelos portos…
 
Mais, também se esqueceram do (pretenso) impacto simétrico dessa mesma greve nas importações, diminuindo-as, o que melhoraria o nosso saldo comercial. Pelos vistos, aí, os argumentos têm de mudar. Apareceram hoje com este cabeçalho: Greves dos portos vão chegar aos preços dos bens alimentares. Quer-se que concluamos que, depois de lesarem a nação, os estivadores estão a agora a preparar-se para lesar o povo… Eu creio que haverá em muitos de nós um sentimento de simpatia inata pelo Robin dos Bosques. Como disse ao princípio, a tendência só se acicata com coberturas informativas destas, de quem parece trabalhar para o Xerife de Nottingham.

FOTOGRAFIAS PREENCHIDAS POR UM AUSENTE – 4 (O anúncio estúpido)

Permaneci hesitante em inserir este anúncio aos cigarros Kart de 1969 na série das fotografias preenchidas por um ausente. A razão é técnica: por um lado, não tenho a certeza de se tratar de uma fotografia; ou sendo-a, se não foi posteriormente retocada; depois, o presenteado que preenche o anúncio (leia-se o texto) e que causa aquele embasbacamento está semi-oculto mas não ausente. Vê-se-lhe os braços e ele até tem oportunidade de afagar o queixo à moça, com o fumo do cigarro a passar-lhe junto à cara sem, estranhamente, a incomodar… Decidi-me a publicá-la, ao descobrir que havia um outro anúncio a outra marca de tabaco que é ainda mais estúpido que o do Kart: nestoutro o fumo na cara já não é por descuido, é deliberado – sopre-se-lhe o fumo para a cara para que um Homem se mostre mais sexy!

28 novembro 2012

NADA…

Hoje apetece-me usar o blogue para o propósito com que eles foram inicialmente concebidos – como um diário. E escrever que hoje não aconteceu nada (embora tenha acontecido e esteja a acontecer muita coisa) em evocação ao que terá escrito o monarca francês Luís XVI para a famosa data de 14 de Julho de 1789. A sua entrada nesse dia em que a Bastilha foi conquistada é mesmo assim, só com uma palavra: nada. Claro que como qualquer boa história da História esta também tem as suas nuances. O seu diário pessoal onde se lê o nada era mesmo isso: pessoal. Abrangia o resultado das suas caçadas nos arredores de Versailles e as cerimónias da sua agenda - como hoje se diria. E disso, naquele dia, nada tinha havido. Aliás, curei-me da capacidade de julgar severamente a capacidade de se julgar a quente a projecção histórica de um acontecimento – e consequentemente a obtusidade de Luís XVI.
Foi há mais de 20 anos, aquando da tentativa de golpe de estado de Agosto de 1991 na União Soviética para derrubar Gorbachov. Via satélite, a Sky News enviava imagens não editadas de colunas militares nas ruas de Moscovo (como as do vídeo acima). A minha previsão era que, considerando a resistência à perestroika das altas hierarquias do partido comunista, os rebeldes iriam ser bem-sucedidos e tomar o poder. A consequência seria um regresso da ordem mundial ao statu quo post bellum e às duas tradicionais superpotências rivais. Porém, enquanto me aplicava a explicar o significado histórico daquelas imagens televisivas  a um convidado meu, olhava para os seus olhos – alguém que se considera diferenciado: um médico! – e divisava neles, talvez porque os blindados se alinhavam escrupulosamente em coluna, a compreensão que um boi dedica à passagem de um comboio… O golpe fracassou e nada foi histórico.

27 novembro 2012

GLÓRIA EM ALVALADE

Podê-las-ia ter publicado em qualquer outra altura, mas este par de fotografias com Marcello Caetano a ser vitoriado pela multidão no Estádio de Alvalade em 31 de Março de 1974, dia de derby, têm por estes dias que correm um travo ainda mais irónico, juntando a evolução política imediata do protagonista – estava-se a menos de um mês do 25 de Abril – com a evolução desportiva a longo prazo do clube anfitrião – depois do desse ano, o Sporting só viria a ganhar mais 4 campeonatos nacionais nos 38 anos que se seguiram e este ano está a exceder-se nos (maus) resultados…

O CHACO, 80 ANOS DEPOIS

Se se confirmar o anúncio feito pelo Presidente da descoberta de jazidas de petróleo no Paraguai, tratar-se-á de boas notícias para aquele país. As cautelas quanto à aceitação do optimismo de ontem de Federico Franco, pelo sucesso das pesquisas efectuadas na região fronteiriça de Pirity na província de Boqueron (vejam-se os mapas acima e abaixo), em como haveria já exportações no próximo ano, justificam-se tomando em consideração o momento político e económico que se vive no Paraguai, numa situação institucionalmente aceite no interior mas rejeitada no exterior e como única economia sul-americana em crise. Mas pode haver outra explicação para o facto de ser o próprio Presidente da República a anunciar algo que normalmente surge nas notícias mais discretamente: 80 anos depois de ter sido travada a Guerra do Chaco (1932-35) contra a Bolívia pela posse dessa região semi-desértica do Chaco onde se situa Boqueron e que então se julgava riquíssima em petróleo, os cem mil mortos então sofridos pelo Paraguai parecem finalmente justificados.      

26 novembro 2012

NO INVERNO É VERÃO NO BRASIL


Também nos blogues, com a veterania chega o conhecimento das rotinas. Ao aproximar-se o fim do ano a frequência do Herdeiro de Aécio tradicionalmente diminui. Abaixo, pode ver-se um gráfico com a evolução da média móvel de cinco semanas de visitas desde 2006. Que diminui no fim dos anos por causa do Natal…mas também por causa do Verão. É que mais de 55% de quem cá vem é brasileiro. Especialmente para eles, como escreveria Vinícius de Morais, Saravá!

FOTOGRAFIAS PREENCHIDAS POR UM AUSENTE - 3 (Saúde Pública)

Tenho um fraquinho por fotografias em que o protagonista está ausente. Nesta, o passante não tem muito interesse, esse vai para o anúncio pichado na parede que nos avisa para ter cuidado com a sífilis da Dana Davis, a verdadeira protagonista, cujo comportamento moral e cívico é arrasado publicamente de uma penada Tão dominante se torna a mensagem na paisagem que o facto do destino do caminhante coincidir com o da seta ainda nos pode levar a pensar que ele não se importará com o aviso, pensamento que não passará de pura especulação: haverá muitas outras razões para ele ir para aquele lado... 

25 novembro 2012

OS MINISTÉRIOS DOS NOMES ENGANADORES

Considero Maria de Belém Roseira, a actual presidente do PS, uma das melhores presenças televisivas da actualidade. Sempre sorridente e aparentando calma, uma boa disposição que roça a bonomia, só se lhe nota o pecado de falar desmesuradamente demais para aquilo que diz, mas quem é que pode condenar isso num político?... É difícil antipatizar com ela. Porém, não me consigo esquecer da sua passagem inglória pela pasta da Saúde (1995-1999), seguida de uma transferência para a pasta da Igualdade (1999-2000), ministério de competências misteriosas de que até na Wikipédia se perdeu o rasto, tanto no elenco ministerial, como (parcialmente) na biografia da ministra. Reconheça-se porém que a própria Maria de Belém permanece fiel ainda hoje à ideia da importância do cargo que desempenhou, que já a ouvi defender à outrance.
 
Mas confesso que, nas raras ocasiões em que ouço a referência à existência de Maria de Belém como tal ministra me lembro de Yes, Minister e de Jim Hacker, o ministro dos Assuntos Administrativos fictício dessa série britânica, quando esteve em vias de ser transferido para a pasta da Harmonia Industrial – que ele imediata e correctamente antecipou iria receber a competência de tratar das greves! Porque caímos no paradoxo em que as designações de alguns ministérios se tornaram deliberadamente falaciosas: é o caso do que foi da Guerra e que agora se tornou da Defesa, mas que só se torna importante quando há guerra¹; é o caso do do Trabalho, que está encarregue – e são cada vez mais... – daqueles que não têm trabalho; e era o caso do da Igualdade, onde Maria de Belém parecia menos igual do que todos os seus colegas de gabinete…
¹ E é por a não ter havido que a capacidade de pressão e negociação (e as condições) dos militares têm diminuído substancialmente nas últimas décadas.

A VENDEDORA

A fotografia acima é do italiano Nino Migliori (1924-    ) e dispensará legendas, tal a evidência do contraste entre a actividade comercial da rua e os sonhos prometidos pela publicidade do comércio institucional. Há ali uma possível pequena ironia adicional para o qual gostaria de chamar a atenção, que se pode perder na tradução – não fosse o ditado traduttore, traditore italiano… É a referência no cartaz à carnagione (tez da pele, em português há a  equivalente mas pouco usada carnação), palavra onde qualquer falante de um idioma neolatino facilmente identifica o étimo carne. Porém, talvez para acentuar o contraste, a vendedora que copia o gesto da modelo do cartaz vende fruta…

24 novembro 2012

MAURICE O COLABORACIONISTA, E OS OUTROS

No Outono de 1944, alguém aconselhou o actor e cantor Maurice Chevalier (1888-1972) a melhorar a sua imagem junto do público norte-americano, conspurcada por acusações de colaboracionismo com os alemães. É assim que aparece a sua apresentação/justificação em inglês do vídeo abaixo, que passou na altura nos cinemas de além-Atlântico e que depois veio a constar do documentário Le Chagrin et la Pitié (Tristeza e Compaixão) de 1969, que provocou uma onda de choque sobre a forma como descrevia - através de entrevistas a protagonistas - a atitude geralmente complacente dos franceses durante a ocupação alemã (1940-1944).

Olá a todos. É o vosso amigo Maurice Chevalier, a falar-vos de Paris, onde nasci. Senhoras e senhores, há algum tempo escreveu-se nos jornais e disse-se na rádio que tinha sido morto. Umas vezes que tinha morrido num acidente ferroviário, outras que tinha sido abatido pela Gestapo, outras que tinha sido abatido por patriotas (da Resistência) e finalmente que tinha sido abatido pela Milícia (colaboracionista). Como podem ver, para alguém que foi abatido tantas vezes, não estou assim tão mal.

Este preâmbulo, concebido em estilo casual de laracha, omite o pormenor que o próprio comité francês no exílio em Argel considerara Chevalier um colaboracionista notório a ponto de o ter mesmo condenado à morte. Cauteloso, quando da invasão dos Aliados em Junho de 1944, Chevalier (um parisiense...) escondera-se numa aldeia rural remota da Dordogne, a Resistência esteve quase a capturá-lo, mas Chevalier conseguiu fugir para Toulouse onde se entregou às autoridades e foi detido. Com que amigos contara para o tirar da prisão e evitar a sanção fatal é algo que hoje já se tornou impossível esclarecer…

Há uma coisa que gostava de clarificar: nos finais de 1941, uma falsa propaganda fez crer às pessoas em França e no resto do Mundo que eu tinha feito uma tournée artística na Alemanha. Durante a guerra. Durante a ocupação alemã. Tenho que dizer que é completamente mentira. Nunca fiz nenhuma tournée na Alemanha. Eu apenas aceitei ir cantar a um campo de prisioneiros na Alemanha, um campo de prisioneiros franceses onde eu próprio tinha estado na última guerra (a de 1914-18). Foi só ali que cantei numa tarde para animar a malta e não cantei em mais lado nenhum.

Nesta passagem, Maurice Chevalier é económico com a verdade quando descreve o acontecimento: esqueceu-se nomeadamente de referir que o seu concerto fora radiodifundido, tanto pela Rádio alemã como pela Rádio-Paris que era controlada pelas autoridades de ocupação alemãs em França e não podia desconhecer o valor propagandístico para a causa nazi (além do impulso dado à sua própria carreira na Europa ocupada…) dessas transmissões.

Espero que a França se recupere rapidamente e espero que, também rapidamente, possa ter oportunidade de os ver novamente, para variar. Enquanto espero, não posso deixar de pensar numa canção que eu cantava quando estive no vosso país (Estados Unidos). E a canção era mais ou menos assim… Eu não sei tocar piano, portanto desculpem-me, mas vou cantar sem acompanhamento (segue-se um pequeno trecho de Sweepin' the Clouds Away, um sucesso de Chevalier de 1930 quando ele estivera nos Estados Unidos).

Esta é uma das tentativas mais canhestras de justificação de que me lembro, considerando a elaboração dos meios à disposição do protagonista: já aqui a referi, evocando-a a propósito de uma justificação de Marcelo… à Marcelo. Mas o que verdadeiramente me incomoda nestes processos é que, quanto mais os conheço, maiores me parecem as discrepâncias de critérios deste género de julgamentos: Édith Piaf (1915-1963), que abaixo vemos numa fotografia de Agosto de 1943 diante da Porta de Brandeburgo em Berlim, foi à Alemanha cantar tantas ou mais vezes que Maurice Chevalier e dificilmente a sua carreira sobreviveria também a um escrutínio igual ao realizado ao seu colega e rival…

23 novembro 2012

AFRICA FOR NORWAY


Desde que por ocasião do sétimo aniversário deste blogue, tive oportunidade de ler um amável poste de congratulações de um leitor regular oriundo da Noruega, onde faz, entre várias referências amáveis, outras complementares a um poste meu referente ao país onde vive, que me sinto um pouco em falta para retribuir com algo dedicado precisamente à Noruega. Até hoje, em que insiro um vídeo do youtube – a criatividade não foi portanto minha, apenas a selecção – que se intitula Africa For Norway – embora a Noruega não seja essencial para a história…
 
Trata-se de uma campanha de angariação de radiadores em países africanos (por isso baptizada de Radi-Aid) para serem enviadas para auxílio dos habitantes dos países nórdicos como a Noruega, de que são mostradas imagens muito de passagem e quando se verificam situações climatéricas horríveis. Para complemento, alguns cantores beneméritos reúnem-se para interpretar uma canção pela causa, à semelhança doutras conhecidas. A ironia, quando bem conseguida como é o caso, até dispensará a tradução das legendas que estão em inglês.  
 
Feita numa montagem de imagens seleccionadas é possível transformar o que se quiser naquilo que se quiser, dar a aparência de uma Sibéria remota ao país com o maior índice de desenvolvimento humano (IDH) do Mundo. Creio que todos percebemos (mesmo sem entender as legendas) que o vídeo não se tratará de uma manifestação de ingratidão da parte de quem recebe auxílio externo. Por estes dias, com Portugal resgatado, nós também andaremos muito sensíveis para o cuidado que é preciso dispensar ao amor-próprio daqueles que são auxiliados

AO RITMO DA REVOLUÇÃO

Na então Leninegrado de 1973 (hoje São Petersburgo), Henri Cartier-Bresson (1908-2004) fotografou esta cena onde uma inocente dupla de um pai com um filho, passeando-se ao ritmo do pequenito, parece prestes a ser atropelada – qual Godzilla dialéctico – por uma reprodução descomunal (retirada de uma outra famosa fotografia na Praça Vermelha de Moscovo em 1919) de Lenine, homenageado na cidade que tinha o seu nome – que entretanto perdeu.

22 novembro 2012

POSSÍVEIS EXPLICAÇÕES PARA O COLAPSO DA INFORMAÇÃO TRADICIONAL

Anteontem Vítor Gaspar informava-nos das suas previsões macroeconómicas para os próximos anos com o mesmo acolhimento que se dedica a uma daquelas tradicionais previsões do professor Marcelo ou Karamba. Ontem, aparecia em destaque uma entrevista àquele senhor etíope que dirige a delegação do FMI repuxando-se para título a sua opinião que Vítor Gaspar é muito impressionante. Vítor Gaspar foi a Berlim e as notícias faziam do homem o máximo, muito apreciado pelos alemães: Vítor Gaspar recolhe elogios e simpatia em Berlim. Hoje, o destaque vai para uma lista do Financial Times que o coloca a meio da tabela, no 10º lugar entre 19 titulares europeus das pastas das Finanças: Vítor Gaspar sobe no ranking dos ministros das Finanças do Financial Times¹. Colhidas aqui e ali, este conjunto parece mesmo a cortina de fumo atrás da qual se esconde aquela que será a verdadeira notícia: Desencadeou-se uma forte campanha mediática para melhorar a imagem do ministro das finanças. Desta ou doutra forma, nenhum órgão de comunicação social se dedicou até agora a este último tema. Valerá a pena eles serem instrumentos tão descarados de um jogo oriundo do poder? Será que não valerá também a pena informarem os destinatários desse jogo que ele está em curso? É que assim, depois não se estranhe a diminuição das audiências…     
 
¹ Independentemente relutância na aceitação da valia destes rankings, a bem do rigor, precise-se que Vítor Gaspar subiu apenas do 12º para o 10º lugar, e não espectacularmente do 18º para o 10º, como se escreve na notícia de hoje do Jornal de Negócios… que se pode desmentir com a notícia desse mesmo Jornal de Negócios do ano passado. O jornalista Paulo Moutinho nem consultou o arquivo do próprio jornal!

21 novembro 2012

E AGORA?

Este poste precisa de ser redigido com o cuidado de procurar evitar mostrar uma clarividência do autor quanto à evolução da actual crise europeia que ele não teve. Mas, depois do problema das crises europeias se ter propagado da Grécia à Irlanda, a Portugal, a Chipre (de que ninguém fala), sempre considerei que a conduta do governo português parecia ser a mais razoável: portar-se bem, não fazer ondas, porque era previsível que o efeito de contágio iria atingir outros países maiores (Espanha, Itália), o que iria forçar a uma mudança de regras do jogo na União Europeia.
 
Apostava-se nisso porque o liberalismo nos fez esquecer quanto é o poder político que define essas regras do jogo. Na História não se conhecem, porque irrelevantes, as opiniões dos presidentes da Siemens ou da BASF sobre a forma como Adolf Hitler conduzia a política externa da Alemanha nos finais da década de 1930, quando acabou por precipitar o seu país e a Europa na Segunda Guerra Mundial. Mas, escrevia eu, o efeito de contágio haveria de chegar aos países e às economias que, devido à sua dimensão, não poderiam ser socorridas como antes e o caso mudaria de figura.
 
Mas não. A Espanha anda há uns meses a fazer de conta que não está aflita, porque quem a poderia ajudar não sente o problema como aflição sua, enquanto Madrid engole os maiores desaforos de Barcelona e ontem a Moody’s baixou o rating da República Francesa. De Gaulle teria perguntado ironicamente se a Moody’s se tratava de uma empresa de refrigerantes rival da Coca-Cola, mas o seu sucessor François Hollande está condicionado a levá-la com outra seriedade. Mas se a inundação já molha os pés dos franceses evidencia-se que não há pão na casa europeia.
 
E, se eu antecipara que os acontecimentos seriam razoavelmente assim, a situação agora afigura-se-me descontrolada, como um filme que perdeu o script, como se, para recuperar o período histórico usado mais acima, depois da Áustria e da Checoslováquia, a Alemanha tivesse invadido a Polónia e as potências ocidentais tivessem contemporizado uma vez mais*. Depois disto, embora não se sabendo como, apenas resta a certeza que a Europa se irá federar… ou desagregar. Como aconteceu com Cunhal, a vida parece reservar a Mário Soares a amargura de assistir com vida ao desmoronar do seu projecto.
* Em vez da declaração de guerra franco-britânica.

25 DE NOVEMBRO SEMPRE!

Por coincidência e logo depois de me ter referido aqui no Herdeiro de Aécio a um 25 de Novembro contrafactual, i.e., com um desfecho diferente do que realmente se verificou, não deixa de ser curioso constatar como, mesmo depois de passados 37 anos, aquele acontecimento continua a ser tão importante ao ponto de duas editoras aproveitarem a data para publicarem livros a respeito de duas figuras magnas entre os militares vencedores: Melo Antunes e Jaime Neves.
 
Ainda a propósito desse jogo infindável, imaginando o que teria sido uma República Popular Portuguesa (1976-1989), há que acrescentar que, se se atender no exemplo soviético, teria sido provável que o 25 de Novembro vermelho  viesse a superar, em comemorações, o 25 de Abril. Na Rússia, a Revolução de Outubro que levou os comunistas ao poder em 1917 era a comemorada em detrimento da anterior de Fevereiro desse ano, a que, como o 25 de Abril, derrubara a ditadura e o czar…

20 novembro 2012

WOLF A MINISTRO DAS FINANÇAS



Para quem se lembrar de Pulp Fiction, um bom ministro das finanças tem que funcionar como o Wolf (Harvey Keitel). Para quem não se lembrar espalhei pelo poste alguns vídeos com os momentos mais significativos do episódio, que começa quando um dos dois assassinos, Vincent (John Travolta), rebenta inadvertidamente…


…os miolos de um comparsa numa corriqueira viagem de automóvel. Assim começa uma encrenca para os dois executores (o outro chama-se JulesSamuel L. Jackson), passeando-se em pleno luz do dia dentro de um carro exuberantemente ensanguentado ainda por cima com um cadáver decapitado lá dentro.


Mesmo antes da sua aparição, só a referência ao nome do Wolf parece ter o condão de misteriosamente sossegar os espíritos, a que se juntou o de Jimmie (Quentin Tarantino), o dono da casa onde apressadamente os outros dois haviam escondido o carro. Diga-se, de passagem, que me recordo que a última meia dúzia…


…de ministros das finanças em Portugal foram acolhidos de início com aquelas mesmas expectativas e deferências que as mostradas para com o Wolf – Sousa Franco, Pina Moura, Oliveira Martins, Manuela Ferreira Leite, Bagão Félix, Campos e Cunha, Teixeira dos Santos, Vítor Gaspar – de qualquer das vezes é que era…


O Wolf lá apareceu em casa de Jimmie, seguro de si e informado, impôs-se, deu as suas ordens mas quem faça um balanço depois de ele desaparecer de cena ao volante de um carro semi limpo, mascarado com mantas coloridas a tapar o sangue e o cadáver na bagageira, apercebe-se que Wolf fez muito pouco além de...


…dar ordens e fazer-se respeitar. Respeito! Quando ontem Vítor Gaspar (Vítor Gaspar) se apresentou para comentar os resultados a sexta avaliação da troika já traz consigo um histórico de previsões estrondosamente fracassadas. Que respeito suporá ele que se atribui às suas previsões para as variáveis macro em 2013 ou 14?


16,4% de taxa de desemprego? Recuperação do crescimento a partir do segundo trimestre de 2013? Ou, como pergunta um amigo meu, se ele se considera tão bom com os números porque é que não se dedica a adivinhar os do totoloto para financiar o deficit?

CORTINA DE FERRO: UM LIVRO QUE RECOMENDO… QUANDO SAIR

À sua chegada a Portugal, Mikhail Gorbachev fez uma referência à pequenez do nosso país quando comparado com a vastidão russa, comentando que, mal lhe haviam dito que havia entrado no nosso espaço aéreo, já o avião se preparara para aterrar. Mesmo durante a vigência do poder soviético, por causa das diferenças entre as dimensões dos dois países, as comparações entre eles tendiam a sair forçadas, tanto as dos amigos da causa comunista como as dos seus inimigos: tanto a fraternidade do PCP com o PCUS que era uma subalternidade pouco fraterna, como as acusações sobre os milhões que morreram no Gulag, que entre nós teriam sido necessariamente muitos menos e desterrados para mais próximo. Ora, se o Gulag foi precisamente o tema do livro que trouxe a fama a Anne Applebaum em 2003 (acima), sou levado a admitir que, o seu mais recente livro, sobre os países do Leste Europeu que ficaram para lá da Cortina de Ferro, seja muito mais interessante para nós, precisamente por causa das distorções de escala das comparações entre o que poderia ter sido um regime comunista em Portugal e aquele, de carácter imperial, que foi implantado na Rússia.
Os protagonistas do Cortina de Ferro: o Esmagamento da Europa de Leste(1944-1956) – ainda não traduzido para português – são países de uma outra escala mais conforme a nossa: a Polónia, a Hungria e a zona de ocupação soviética da Alemanha que se veio depois a tornar na República Democrática Alemã. A Polónia tem uma extensão geográfica e uma população comparável com a de Espanha e à Hungria acontece o mesmo com Portugal, enquanto a Alemanha Democrática situar-se-á entre as duas. A autora vai-se focar nestes três exemplos – a Europa de Leste era maior, incluía a Roménia, a Checoslováquia, a Bulgária, a Jugoslávia e a Albânia – para nos explicar como, atrás da progressão do Exército Vermelho, que viria a assegurar a vitória aliada na Segunda Guerra Mundial da Wehrmacht até Berlim, se construíram sucessivos regimes comunistas decalcados do que existia na União Soviética. A legitimidade para o fazer era obviamente a das armas. E os agentes de tal edificação foram as poucas centenas de devotados militantes comunistas desses países. Seriam muito poucos mas eram uma elite de sobreviventes, que escapara às repressões dos regimes inimigos mas também às purgas ordenadas pelos partidos amigos – o Partido Comunista Polaco, por exemplo, foi extinto e os seus líderes executados em 1938 por ordem de Staline, quando da Grande Purga.
Em 500 páginas, o livro mostra-nos como os núcleos foram colocados nos postos-chave das administrações que renasceram depois do caos da guerra – a Checoslováquia, a Polónia e a Jugoslávia, por exemplo, haviam sido desmembradas como estados – para assegurarem a supremacia comunista. Em qualquer dos países os métodos replicaram-se com o controlo da informação, a doutrinação da juventude, o controlo das polícias – todas as polícias… – e o emprego destas para perseguir os adversários políticos. Depois desses objectivos assegurados é que se seguiam os outros aspectos, os culturais e também os económicos. Pouca importância teve as eleições realizadas. Aliás, ao contrário do que fiz aqui nalguns casos no Herdeiro de Aécio, Anne Applebaum quase não se lhes refere pela inocuidade das consequências das mesmas. Em qualquer dos três países, os partidos comunistas – que haviam tido resultados miseráveis nos escrutínios iniciais – absorveram posteriormente os partidos socialistas/sociais-democratas numa nova formação hegemónica de esquerda que passou a receber a quase totalidade dos votos em eleições melhor organizadas.
Consolidados, os regimes robusteceram-se com a colaboração dos ambiciosos e dos interesseiros mais a neutralidade da maioria da população, como é a norma das sociedades, tornando-se em réplicas menores da União Soviética sob Staline (acima é na Hungria). Mas a tutela soviética permaneceu essencial, como se percebe por um episódio engraçado, ocorrido quando das revoltas de Berlim-Leste em Junho de 1953, em que Walter Ulbricht (1893-1973), o dirigente leste-alemão, pretendeu ir para casa depois de uma reunião com o embaixador soviético e este último, Vladimir Semyonov (1911-1992), cujo exército dominava então as ruas, o impediu de o fazer, não apenas com receio do que pudesse acontecer a Ulbricht, mas sobretudo daquilo que em Moscovo lhe podiam fazer depois a si, com uma acusação de negligência com a segurança do alemão (p. 467). Afinal, mal se haviam escoado três meses desde a morte de Staline… Trata-se de um excelente livro. Recomendo-o porque neste período de Crise do capitalismo liberal democrático, vale a pena recapitular porque é que, para além das aparências e militâncias, esta alternativa não democrática morreu de morte morrida. Além disso, a Democracia não existe expontaneamente e, depois de perdida, custa muito a recuperar. O livro custou-me 20 € na FNAC e espero que a sua versão em português não dispare para os 35 com uma daquelas traduções miseráveis
Mas o livro vale mais do que este arremedo de recensão: não consegui deixar de o ler sem resistir a utilizá-lo como base para uma história contrafactual do nosso passado recente: como teria sido Portugal se os comunistas tivessem ganho no 25 de Novembro? Esquecida a rigidez das fronteiras da Guerra-Fria como teriam sido os quase 25 anos de uma democracia popular portuguesa? Será pacífico atribuir-lhe um líder político reverenciado: Álvaro Cunhal. A fotografia abaixo de Alfredo Cunha faz-lhe a justiça de lhe dar o destaque guardando o cinzentismo para as figuras que gravitam à sua volta no comité central e que naquelas circunstâncias assumiriam todos aqueles lugares de destaque explicados por Anne Applebaum: Carlos Brito, Carlos Costa, Domingos Abrantes, Octávio Pato, assim como as jovens estrelas em ascensão como Vital Moreira ou Zita Seabra – que hoje já não teriam tido margem de manobra para se arrependerem. A liderança dos socialistas – para não mencionar sequer a dos partidos à sua direita… – teria sido exilada e/ou presa e substituída por outra mais complacente. Quem? O mesmo aconteceria aos dirigentes da extrema-esquerda. Teriam sido alguns recuperáveis? Felizmente, porque o comunismo da década de 1970 já nada tinha da selvajaria dos anos abrangidos pelo livro, considero improvável que chegasse a haver execuções... Mas imaginar este outro Portugal é um exercício infindável…

19 novembro 2012

O QUE DIZ MARCELO

A pretexto daquilo que Marcelo descobre e que a comunicação social do dia seguinte descobre que ele descobriu – por exemplo que Vítor Gaspar é um nerd a ocupar um cargo para o qual é incompetente¹ – permitam-me recordar outras descobertas de Marcelo de um passado recentíssimo já esquecidas, como a da premência de uma remodelação governamental, desmentidas e olvidadas pelas descobertas do dia quando se permite a ressurreição de semimortos (sic) como era o caso de Miguel Relvas. Associado a Marcelo, os temas têm que ser mesmo assim, miraculosos e ao mesmo tempo apocalípticos, depois da famosa descida de Cristo à Terra que nem assim o faria presidente do PSD… 
¹ Na minha modesta opinião, esse é um princípio aqui muito repetido mas que se aplica apenas em Portugal. Com o seu perfil tecnocrático e internacional é muito possível que Vítor Gaspar se revelasse um excelente ministro das finanças da Letónia.

18 novembro 2012

AS OENEGÊS DA «PORRADA»

Mesmo à escla de um país enorme como os Estados Unidos, a cidade de Seattle fica num cú de judas, encostada no canto Noroeste dos seus territórios continentais (acima). Não se saberá se terá sido por isso que a OMC (Organização Mundial de Comércio) a escolheu em 1999 para sedear uma conferência ministerial onde se pretendia chegar a um acordo para uma revisão das pautas aduaneiras alegadamente para a promoção do livre comércio. O que então me pareceu mais impressionante foi a concentração, conjuntamente com as delegações ministeriais vindas de todo o Mundo e numa cidade que então contaria com uns 560.000 habitantes, de uma multidão estimada entre 40 e 100 mil manifestantes (neste último caso o equivalente a 18% da sua população!) que vieram simultaneamente protestar contra a globalização e mais uma data de outras coisas mais. Por acaso, o encontro primário foi um fiasco total, os ministros e as delegações não chegaram a acordo nenhum...
Mas o que o tornou histórico é que houve imensa porrada. Mas esse foi também o toque de finados na crença da espontaneidade daquele tipo de eventos. Para juntar a multidão foi precisa militância, foi precisa organização mas foram sobretudo precisos meios financeiros – nem que fosse para deslocações de tantos milhares… – que estão muito para além da espontaneidade. Note-se – como já aqui referi a propósito do Greenpeace ou do WikiLeaks – que considero normal que este tipo de combates já tenha de ser desempenhado por profissionais dos dois lados: desde que o profissionalismo e as agendas sejam assumidos pelas duas partes. Mais: tenho até uma certa predilecção por certos países em que a modalidade da pancadaria com a polícia de choque tem qualidade e é emotiva, como a Coreia do Sul. Não há é pachorra para os espectadores queixosos que nem sabem quais são as regras de segurança mínima para se integrarem num tal espectáculoÉ mesmo o tipo de pessoas que nunca se perguntaram porque é que não é aconselhável seguir um combate de boxe encostado às cordas do ringue…

IMBECIL

Pelos vistos, Henrique Monteiro tem uma crónica regular no Expresso a que deu o imaginativo título de Chamem-me o que quiserem. O título deste poste é a minha resposta a esse convite a propósito da última crónica que ele dedicou à desigualdade da justiça com os exemplos de Duarte Lima, Vale e Azevedo e Isaltino de Morais (abaixo). Que, das razões para tal desigualdade não lhe tenha ocorrido referir-se por uma vez que fosse à cobertura mediática dada pela própria comunicação social aos casos por si escolhidos é trivial: lá diz o ditado que ninguém vê o argueiro no seu olho. Mas que, no caso concreto de Vale e Azevedo, a sua redacção seja Foi encarcerado na Penitenciária e, de imediato, se queixou da falta de condições da cela (2º parágrafo abaixo) já considero excessivo. Mesmo para Henrique Monteiro…
Para os imbecis e para Henrique Monteiro é sempre difícil abordar as questões em abstracto, compreender uma doutrina. Tal obtusidade, de tradicional, não mereceria este poste. Mas aquilo de que ele fala quando de Vale e Azevedo é concreto: um prisioneiro que chega à cela e como a esmagadora maioria dos que o precederam e dos que lhe sucederão, quase para fazer conversa, queixa-se das condições da sua detenção. O que tornará este episódio desigual não é o sistema judicial como Henrique Monteiro pretenderá sugerir, mas o aparelho da informação de que ele faz parte que amplifica os queixumes de Vale e Azevedo como o não fez às centenas de detidos que deram entrada numa cela, só para citar os deste ano. No exemplo que descreve, o elemento de injustiça é da responsabilidade da sua própria classe. Será isto tão difícil de perceber?...

17 novembro 2012

UMA ANALOGIA ESCANDALOSAMENTE CAPITALISTA DO COMPORTAMENTO DOS COMUNISTAS

Dean Acheson (1893-1971) foi o Subsecretário (1945-1947) e depois Secretário de Estado¹ (1949-1953) norte-americano durante a administração Truman. Ocupou por isso uma posição impar durante o arrefecer progressivo das relações entre os Estados Unidos e a União Soviética, desde a aliança contra a Alemanha até à Guerra-Fria assumida. É de Acheson uma expressão de que gosto muito e de que tive oportunidade de comprovar a veracidade mais do que uma vez aqui no blogue. Concluía ele das inúmeras negociações que tivera com delegações soviéticas que a melhor forma de lidar com os comunistas empedernidos era como se eles fossem uma daquelas antigas máquinas de jogo caça-níqueis: podia-se acelerar o processo abanando-a, mas de nada adiantava tentar falar com a máquina… Em termos de empedernimentos, a única coisa em pedra que parece ter mudado foi mesmo o Muro ter vindo abaixo.
¹ O equivalente ao ministério dos negócios estrangeiros (Portugal) ou das relações exteriores (Brasil).

16 novembro 2012

A RAPAZIADA NÃO CHORA


Em 1979, os The Cure criaram o (relativo) sucesso musical acima Boys Don't Cry. Nesses tempos a rapaziada quando se decidia a enfrentar a polícia de choque já sabia ao que ia, não era decente chorar depois. Os tempos estão muito mudados, agora já a própria polícia faz pré-avisos que vai carregar à bastonada, portanto quem por lá se deixa ficar, além de objectivamente dar cobertura a quem fomenta as desordens, já sabe de antemão ao que se arrisca, mas a capacidade de inventar reparos e queixas à actuação policial assemelha-se à dimensão da estupidez humana: infinita.
Adenda de 17 de Novembro: Muito do que se lê na Internet sobre o assunto - ontem já recebi duas mensagens com descrições presenciais do que se passara... - parece-me ter a objectividade da visão de um benfiquista a apreciar um penalti contra o Benfica no estádio da Luz: só é questionável a actuação da arbitragem (polícia), nunca a canhestrice do defesa central (arremessadores de pedras) que cometeu a falta. Já vai atrasado, mas ainda se podia montar um daqueles programas televisivos de paineleiros para analisar os casos do jogo.

OS ADERNADOS

É subtil e a maior parte das vezes inconsciente a comicidade que nos é transmitida pela imagem de alguém que se inclina a ponto de pôr em perigo o próprio equilíbrio. Costuma ser sinal de bebida em excesso e terá sido isso provavelmente o que aconteceu previamente com Brassaï, quando foi fotografado acima, de cigarro ao canto da boca, preparando-se para uma sessão de trabalho que se suspeita não ter sido muito produtiva. No instantâneo abaixo porém, a inclinação de Groucho Marx (mais o seu charuto) enquanto dançava com Diana Ross, parece deliberada e exuberante, como era aliás seu timbre, mas resulta igualmente cómico.

15 novembro 2012

EM PROFUNDIDADE…

Colhido da página das notícias do Google do princípio desta semana pode-se apreciar abaixo um momento preservado - para agora recordar… – exemplar do espírito de acolhimento à visita relâmpago de Angela Merkel a Portugal. O punhado de dias transcorridos parece-me ter dado ao episódio a relevância que merece. Realcei o pormenor de se querer culpar Merkel pelo excedente comercial que a Alemanha regista com Portugal que é classificado como… lucro! Mas isso é apenas ignorância e incompetência. Imbecil mesmo é um artigo sobrequalificado em profundidade que arranca encabeçado por um título qualificável de trocadalho do carilho (Portugal não é uma Merkeldoria!) e cujo conteúdo trivial não desmerece o título. É profundo, mas suspeito não me estar a referir ao mesmo conceito de profundidade de quem o seleccionou para este permanente florilégio jornalístico que é a página portuguesa do Google News.

CONVERGÊNCIAS À ESQUERDA

Se a história das associações de socialistas e sociais-democratas por um lado com os comunistas ortodoxos por outro está cheia de vicissitudes, onde predominam os insucessos por causa da impossibilidade de combinar a matriz essencialmente democrática dos primeiros com a autocrática dos segundos, o historial que envolve os primeiros e as organizações da extrema-esquerda radical de origem intelectual (marxistas-leninistas-maoistas-trotskistas...) ainda será mais desapontante para quem ainda se encantar com o romantismo dessas convergências à esquerda. As histórias serão menos conhecidas porque mais raras são as organizações extremistas que chegaram a ter alguma relevância social¹. Mas vale a pena recordar o episódio do MIR (Movimiento de Izquierda Revolucionaria) chileno que recusou integrar a Unidade Popular, a coligação de esquerda que conseguiu eleger SalvadorAllende para a presidência do Chile nas eleições de 1970. Nem mesmo assim convergiu, preferindo opor-se-lhe pela esquerda. O derrube e morte de Allende no golpe de estado de Setembro de 1973 tornou a opção do MIR num clamoroso erro táctico e histórico, hoje escamoteado. 
Assim, na entrada da Wikipedia em castelhano sobre o MIR (naturalmente mais desenvolvido) pode ler-se sobre esse período que com a chegada ao poder da Unidade Popular e de Salvador Allende, a direcção do partido (MIR) decidiu suspender qualquer tipo de acção armada, ao mesmo tempo que assume uma atitude crítica ao governo e de apoio à organização e mobilização social. Mas desta cuidada redacção dificilmente se percebe que o MIR não só não apoiava o governo de Salvador Allende (considerado um reformista) como o pressionava pelas suas acções radicais. Este é apenas um exemplo, mas considero-o pertinente considerando as semelhanças genéticas do perfil do MIR com organizações como o Bloco de Esquerda. Agora que este terminou a sua convenção sem que houvesse grandes inflexões tácticas na sua potencial política de alianças, só é surpreendente perceber que houve quem esperasse um desfecho diferente do verificado. Mentalmente parece que, por detrás da retórica das convergências, continua a haver o muro de sempre a dividir a esquerda (que já foi do tamanho do Muro de Berlim²) entre a esquerda que é democrática e… as outras.  
¹ Recorde-se que em Portugal a UDP nunca conseguiu mais do que 1 deputado em 250.
² Recorde-se que, quando o Muro de Berlim foi construído (1961), a parte ocidental da cidade era governada por um social-democrata, Willy Brandt, e a oriental por outro, Friederich Ebert Junior. No entanto, estes últimos haviam sido aglutinados com os comunistas num só partido (SED) onde os comunistas mandavam.

14 novembro 2012

M.... INACREDITÁVEL

Convenço-me que o mais dramático da nossa actual situação é a total ausência de confiança que os governados têm sobre os governantes. O núcleo duro do actual governo só pode ser dominado por pessoas inanes que, perante mais outra dose de más notícias, em vez da verdade e de futuro (como o sangue suor e lágrimas de Churchill), último argumento de quem nada mais têm para distribuir, induzem o primeiro-ministro português a repetir elaborações que se revelaram um fiasco ainda há poucos meses (como as tretas das evoluções bastante em linha).
Fazem-no até usar fórmulas que foram originalmente inventadas num tempo em que Pedro Passos Coelho ainda cagava fraldas, na época dos princípios da intervenção norte-americana no Vietname – como a explicação, a propósito da evolução do desemprego, que a actual situação ainda piorará mais, antes de melhorar sem nos querer antecipar muito precisamente quando é que essa melhoria terá lugar... E se a minha metáfora meteu merda é porque em inglês o produto é incontornável quando o tópico é uma mentira inacreditável, como se comprova por esta passagem do filme Aeroplano 2.  

Contrariamente a um preceito que este blogue procura manter, este poste não está traduzido, embora esteja convencido que ele é acessível ao leitor médio. O significado de bullshit deduz-se graficamente e na cena do filme, a hospedeira está a tentar convencer os passageiros que uma situação catastrófica é apenas um incidente menor.

13 novembro 2012

O JARGÃO DO «BUSINESS»

Como qualquer actividade em que não costuma haver mudanças significativas nem frequentes (evoquemos, para comparação, o exemplo das gravatas), o jargão da actividade empresarial precisa de ser sacolejado de quando em vez para criar a impressão que também nele o mundo é feito de mudança. Recordo, apenas para exemplo, o tempo em que se passou a acrescentar valor às empresas, o da rentabilização dos activos ou então o aquele em que os financiamentos não se faziam sem engenharias financeiras. Se percebi bem, um modismo mais actual é que o dinheiro deixou de se ganhar, agora faz-se. E é por causa disso que me lembrei desta passagem de um álbum de Lucky Luke em que o dinheiro feito ficou imperfeito por causa da falta de um lápis de cor…

EXPRESSÕES

Venho recordar a expressão severa de Vítor Gaspar quando prometia tributar desse modo (severo) as transferências para os paraísos fiscais. Abaixo, e a propósito de mais más notícias sobre a execução orçamental deste ano, torno minha a expressão desdenhosamente compadecida de John Cleese (no sketch Silly Job Interview) a respeito dos méritos de um ministro das finanças que foi demasiado gabado. Nota-se que não se quer dar publicidade ao assunto, mas não se pode querer transformar o fiasco numa outra coisa qualquer apenas por se considerar não haver alternativas políticas credíveis/convenientes.