15 agosto 2012

PEQUENA RESENHA SOBRE A FESTA DO PONTAL

A Festa do Pontal foi criada sob o cavaquismo. Criou-se depois uma lenda retrospectiva que ia buscar a legitimidade da reunião aos anos difíceis de 1976 e a Sá Carneiro. Nunca vi essa lenda ser devidamente escrutinada, mas não creio que esse escrutínio interesse verdadeiramente a alguém. O sucesso inicial do evento do Pontal dever-se-á à convergência de três interesses. O das estruturas distritais do PSD, aproveitando o facto de Cavaco Silva ser algarvio e ali passar as suas férias, que promoviam uma festa popular que consolidava a sua imagem interna no partido. O do circo da comunicação social, que via na festa uma espécie de oásis no meio do deserto informativo de notícias sérias que costuma grassar por todo o mês de Agosto. E finalmente o da máquina de propaganda governamental que começou a tomar conta da festa para passar uns recados.   
Alguns desses recados eram simples, multifuncionais (aplicavam-se tanto ao militante social-democrata quanto ao cidadão comum) e eram feitos mais de imagem do que de substância. Cavaco Silva começou por discursar num palco acompanhado de uma retaguarda de militantes destacados do partido, a copiar, paradoxalmente, a cenografia tradicional dos comunistas. O que o aparelho governamental fez foi substituir progressivamente esses militantes que se destacavam lá das paróquias algarvias pelos notáveis, esse conceito tão genuinamente social-democrata, o das pessoas conhecidas por serem conhecidas. Os tais de notáveis notabilizavam-se por exibir bronzeados que se coadunavam com a imagem de sucesso que era a essência da mensagem do cavaquismo. O notável João de Deus Pinheiro, por exemplo, mostrava-se inexcedível nesse tipo de militância
E tanto a Festa do Pontal se havia transformado num marco mediático do cavaquismo que o PS, para as eleições de 1995, o foi disputar directamente convocando uma Festa da Pontinha rival a umas escassas centenas de metros de distância. Para a história ficou que o PS ganhou as eleições legislativas desse ano mas que o PSD ganhou a batalha das festas rivais. Nos anos seguintes, num registo cada vez mais desajustado com a ascensão progressiva da nova prosperidade guterrista, a festa repetiu-se. Houve um dirigente do PSD que a tentaram substituir por outra de cariz idêntico mas noutro local: Durão Barroso, que a quis transferir para a Póvoa do Varzim. E houve outro que a pretendeu esvaziar de conteúdo, abstendo-se de lá comparecer - Manuela Ferreira Leite, substituída na altura por Ângelo Correia, o homem da cataplana.
Assim, quando o seu pupilo, actual primeiro-ministro, se pôs ontem ali a discursar, já esta Festa do Pontal tem um historial por detrás de si. Ademais, ela já foi transplantada de Faro para Quarteira e já foi transformada de acontecimento aberto a um a que só se acede por convite. Mas o discurso de Passos Coelho, que se pretende agora ser de ruptura com o passado – que (já não) podemos, como era dantes, saciar as elites com dinheiro e o povo com promessas… – torna-se num anacronismo quando se recorda os fantasmas desse passado. Foi naquelas mesmas circunstâncias que um seu antecessor – actual Presidente da República – proclamou que Portugal já integrava o pelotão da frente da Europa. O que é feito de tal integração? Enfim, só seria caricato se o que se diz na Festa do Pontal fosse algo mais do que um sucesso de Verão já esquecido no Verão seguinte…

Nota final: Embora presente na Festa do Pontal não se deu pela presença de Miguel Relvas. Provavelmente está a resguardar-se enquanto se prepara para os exames da segunda época em Setembro…    

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