17 janeiro 2018

A CRISE NORTE-AMERICANA


As imagens do vídeo acima têm precisamente seis meses. As outras são de ontem. Deixar a mulher e o filho a apanhar chuva enquanto se sai e entra de um avião são daqueles momentos que tornam Donald Trump, pessoalmente, numa besta egoísta. Não tem nada a ver com o que ele pensa, tem a ver com o que ele é. E se o fosse - a besta egoísta - até ao fim, então Trump até nem se importaria com o que pudessem pensar de si, mas sabe-se o quanto se importa - basta ver a sua reacção perante a perspectiva (ridícula) de se defrontar com Oprah Winfrey nas presidenciais de 2020. Mas se Trump se preocupa com a imagem que projecta de si, porque é que repete e repete e repete todas estas pequenas atitudes que tanto danificam a sua reputação interna e externa? Já se esgotaram as oportunidades de culpar o staff da presidência. Foi também há cerca de seis meses que chegou o general que ia pôr ordem naquilo tudo - por aquilo tudo entenda-se o staff presidencial. Se era para pôr ordem, não se nota a diferença, pelo menos no aspecto de ensinar alguns rudimentos de boas maneiras ao presidente. Visivelmente, o presidente não aprende. E sem a sua colaboração, é difícil ao staff mostrar serviço. De uma forma simpática para a sua capacidade intelectual: o presidente não quer aprender; de uma forma menos caridosa: não consegue aprender. Já houve vários imbecis a ocupar a Casa Branca, para isso é que a presidência é tão assessorada, mas não se consegue produzir milagres se alguém não aprende. Em vez de nos indignarmos tanto com o que faz o presidente dos Estados Unidos, devíamos pensar quanto o país é merecedor da nossa comiseração. Como se se tratasse da confissão de um recém chegado dos A.A.: - «Somos os Estados Unidos e elegemos democraticamente um cretino para nos dirigir»

Agora quanto a removê-lo do cargo?... Isso é toda uma outra história, não as confundamos.

O DISCURSO DE DESPEDIDA DE EISENHOWER - O ALERTA PARA OS PERIGOS DO COMPLEXO INDUSTRIAL-MILITAR


17 de Janeiro de 1961. A três dias de terminar o seu segundo e último mandato, o presidente norte-americano Dwight D. Eisenhower profere um discurso de despedida televisionado e radiodifundido para todo o país. Embora o discurso tenha uma duração total de 16 minutos, ficou recordado pela passagem em que o presidente - que, recorde-se, era um oficial general - alerta os seus compatriotas para a influência política crescente daquilo que designou por o «Complexo Industrial-Militar», uma expressão que acabou por identificar o discurso (veja-se o vídeo acima, a partir dos dois minutos). Foi uma daquelas raras ocasiões em que um político levanta publicamente uma daquelas questões complexas e para as quais não existem respostas fáceis. O Complexo (military–industrial complex no original) é constituído pelo triângulo formado pelas chefias militares, os congressistas e os gestores das indústrias relacionadas com a defesa, que se suportam reciprocamente no interesse de manter um orçamento elevado dedicado aos gastos com segurança e defesa. O alerta de Eisenhower é tanto mais significativo quanto era, simultaneamente, uma admissão do seu fracasso em conseguir pôr cobro ao despesismo com armamento que, no seu caso concreto, entre 1953 e 1961, tivera como pretexto a corrida à construção de um caríssimo arsenal nuclear, brandindo como justificação uma ameaça soviética que a História veio a demonstrar que era propositadamente empolada. Tratou-se de um discurso tão interessante quanto importante. Quase todos o elogiaram, muitos hoje ainda o elogiam, mas reconheça-se que não se lhe ligou nenhuma. O Complexo apenas prosperou. Em 2011, 50 anos depois do discurso, os Estados Unidos possuíam 4,4% da população do Mundo, a sua economia representava 21% da Economia Mundial, embora gastassem 41% das despesas militares de todo o Mundo, o que equivalia ao somatório dos 13 países que se lhes seguiam na lista dessas despesas. Com tal desequilíbrio, ninguém ousa desafiar directamente os Estados Unidos no campo militar (a não ser que se veja forçado a isso...), mas, ironicamente, isso não invalida que as potências rivais os desafiem noutros campos.

16 janeiro 2018

HÁ CERTOS ANIMAIS QUE «DINAMIZAM» OS TREINOS DE CICLISMO

Seja em fotografia...

...em vídeo...
...ou, até mesmo, em Banda Desenhada...
...não restam dúvidas que treinar com certos animais torna os treinos muito mais motivados...

SOBRE O VALOR DE CERTAS ATITUDES

Com os meus agradecimentos ao João Pedro Pimenta.
Teerão, 16 de Janeiro de 1979. Perante o agravamento da crise do regime, o Xá do Irão parte para o exílio, de onde não regressará. Quase a embarcar e já na placa do aeroporto, um dos seus fiéis expressa para com o Xá ainda este último gesto de fidelidade. A imperatriz Farah Diba esboça um sorriso embaraçado. Como Pedro Passos Coelho estará a descobrir por estes dias que correm, ele há gestos de lealdade e de simpatia que, pela ocasião e pelas circunstâncias, não têm preço. Repare-se o contraste com a fotografia abaixo, tirada um mês depois (18 de Fevereiro), com o Aiatolá Khomeini acabado de regressar ao Irão em triunfo, e com o novo homem forte do Irão a ser cumprimentado deferentemente pelo palestiniano Yasser Arafat. 18 de Fevereiro irá ser também o dia do encerramento do congresso do PSD. Estranharei se não houver ocasião para tirar muitas fotos deste género...

15 janeiro 2018

O FIASCO DAS SONDAGENS NAS DIRECTAS DO PSD

Um resultado colateral das eleições internas do PSD é que as sondagens se revelaram um fiasco: nem foi a vitória esmagadora de Rui Rio prometida pela Aximage e divulgada pelo Correio da Manhã e Jornal de Negócios, nem foi uma disputa cerrada como era antecipado pela Eurosondagem para a candidatura de Pedro Santana Lopes, sondagem essa que o Observador depois promoveu em jeito de publicidade gratuita (abaixo - repare-se que o que mais interessaria saber era o resultado entre os dois candidatos nas directas de agora e não as hipóteses de cada um deles contra Costa, numas eleições previstas para daqui a dois anos. Ora o título escolhido pelo Observador concentra-se precisamente nisso, que é o supérfluo da notícia). Vale a pena publicitar este duplo fiasco porque fica a certeza que, tivessem sido certeiros os resultados das sondagens, e teriam aparecido esses mesmos órgãos de informação que os promoveram a ufanar-se da proeza. Aqueles Fact-checks que o jornal Observador tanto gosta de realizar são tão dirigidos quanto selectivos: claramente não são para incluir aquilo em que o próprio jornal falhou.

«HURRA PELOS CAMISAS NEGRAS!»

Daily Mail 15 Janeiro de 1934. Neste dia de há 84 anos havia quem, em Inglaterra, se entusiasmasse com os desfiles dos Camisas Negras. Os Camisas Negras, como se depreenderá pelos braços alçados e esticados da fotografia, eram as milícias fardadas da União Britânica de Fascistas, organização que era dirigida por Oswald Mosley. E o artigo não era assinado por um qualquer: Harold Sidney Harmsworth (1868-1940), o Visconde Rothermere era o proprietário do próprio Daily Mail. Já então com 65 anos, não era muito comum vê-lo a colaborar no seu próprio jornal. Poder-se-á atribuir ao artigo uma solenidade equivalente à de um artigo de Francisco Pinto Balsemão que apareça publicada no Expresso. E o teor do mesmo não engana, as simpatias que o autor manifesta pela causa fascista são entusiasmadas, assim como o eram as suas simpatias pessoais por Adolf Hitler. Documentos seus que só recentemente (2005) foram desclassificados mostram-no, não apenas a cumprimentar Adolf Hitler pela ocupação da Checoslováquia (1939), como a sugerir-lhe até que fizesse o mesmo com a Roménia! E contudo, quando se conta a história dos caminhos que levaram a Grã Bretanha à Segunda Guerra Mundial é sempre a figura presciente de Winston Churchill que abafa todos os outros protagonistas da História. Os outros povos europeus fuzilaram os seus Quisling e os seu Laval, mas esta capacidade da cultura britânica para omitir os seus traidores é espantosa.

14 janeiro 2018

ANUNCIA-SE POR AÍ UM MÊS DE UMA PECULIAR «MILITÂNCIA SOCIAL DEMOCRATA»

Depois do anúncio dos resultados das eleições internas de ontem no PSD e basta que a natureza humana continue igual a si mesma para que se possa anunciar por aí um próximo mês de peculiar «militância social democrata», procurando manter-se junto à superfície das águas, qual alforreca, até à realização do congresso do partido. Para quem gosta de identificar tais atitudes com idiotismos, o mais consagrado para estas ocasiões em que o que é preciso é não dar parte de fraco, costuma ser aquela expressão, unidade do partido, como, de resto, já se começou a usar por aí...
Só que, por muito que agora alguns recorram a essas fórmulas convencionais depois da decisão ter sido decidida, a reputação daquilo que Rui Rio possa vir a fazer pelo país vai-se construir também por aquilo que ele se disponha a fazer previamente dentro do partido, especialmente com alguns dos seus companheiros... Por mim, está visto que a tal unidade do PSD não pode ser com todos. É uma formula que até pode soar bonita, mas que não parece ser justa. Estas imagens abaixo já têm três anos e o inquérito ainda continua em curso sem suscitar um centésimo da atenção da Operação Marquês...

FOI MAIS A DERROTA DE CAVACO DO QUE A VITÓRIA DE SAMPAIO

14 de Janeiro de 1996. Jorge Sampaio é eleito à primeira volta presidente da República. Mas derrotar Cavaco Silva - para muitos era disso que se tratava sobretudo, depois de 10 anos de cavaquismo - revelava-se mais difícil do que parecera à primeira vista. Sampaio vencia claramente, com mais 400 mil votos do que o oponente, mas o candidato comunista (Jerónimo de Sousa) e também o candidato folclórico da extrema-esquerda (UDP) haviam desistido preventivamente das suas candidaturas, não se desse o azar de que o resultado do escrutínio os tornasse responsáveis por uma segunda volta. Sentia-se numa franja apreciável da população e do eleitorado uma saturação com a omnipresença de Cavaco Silva e as celebrações dessa noite reflectiam também esse estado de espírito (abaixo), tanto quanto a alegria com a vitória de Jorge Sampaio. Nessa noite contaram-se 2,6 milhões de fiéis em Cavaco Silva mas, e passe o absurdo, tal seria a saturação dos outros que, mesmo se Cavaco Silva se tivesse apresentado àquelas eleições a concorrer sozinho contra o Pato Donald, o boneco de Walt Disney teria tido para aí uns 30 a 35% dos votos...

13 janeiro 2018

«LE PETIT JOURNAL»

Apesar do nome (enganador), Le Petit Journal era um dos três jornais de grande circulação da França de há 100 anos: em 1914 ele tirava uma média de 850.000 exemplares. A capa do suplemento ilustrado da edição dominical de 13 de Janeiro de 1918 era a reconfortante cena - para os franceses - da partida dos soldados norte-americanos ("Sammy") para Europa. Depois de algumas más notícias em 1917, como o desastre da frente italiana e a saída da Rússia da guerra depois da tomada do poder pelos bolcheviques, a mobilização dos Estados Unidos, com os seus meios humanos e materiais, era a constatação reconfortante de que, ainda assim, o tempo funcionava em favor dos países da Entente.

A CONSPIRAÇÃO DOS MÉDICOS JUDEUS

13 de Janeiro de 1953. Há 65 anos, o jornal Pravda, o órgão oficial do partido comunista da União Soviética, conjuntamente com a agência noticiosa TASS, anunciavam em destaque a descoberta «de uma organização terrorista de médicos que atentaram contra a vida de importantes personalidades soviéticas por meio de diagnósticos erróneos». Eram essas as citações contidas na edição desse dia do Diário de Lisboa, que prosseguia: «muitos desses médicos, de origem judaica, tinham íntimas ligações com a organização nacionalista burguesa judaica J.O.I.N.T.» A organização fora criada pelos serviços secretos para auxiliar os judeus «mas, na realidade (era) para exercer espionagem, terrorismo e outras actividades clandestinas em vários países da União Soviética». Entre as vítimas destacáveis identificavam-se Andrei Zdanov, por causa de um «falso diagnóstico», e Aleksandr Shcherbakov, a quem «encurtaram a vida» com «tratamentos errados e perigosos». Outros alvos (fracassados) haviam sido altas patentes do Exército Vermelho, casos dos marechais Vasilevsky, Govorov e Konev, do general Shtemenko e do almirante Levchenko. As acusações eram sérias, o precedente da Grande Purga que tivera lugar há 15 anos estava presente na memória de todos, só que desta vez a tipologia dos visados se revestia de um anti-semitismo indisfarçável, uma atitude a que já se assistira em outros países do Leste da Europa e que era desconfortável perante uma opinião pública mundial que vira os judeus sair da Segunda Guerra Mundial na condição de vítima preferencial do nazismo. A hostilidade para com os dois milhões de judeus soviéticos que haviam sobrevivido ao Holocausto permanecia (e permanecerá) viva, como se pode apreciar pela imagem abaixo. Mas a cobertura oriunda do Kremlin a toda a «conspiração» desapareceu subitamente com a morte de Estaline que se ocorreu sete semanas depois deste anúncio. Na sequência e com excepção de dois médicos que entretanto haviam morrido na prisão, todos os restantes «conspiradores» foram libertados e retomaram as suas antigas funções.

12 janeiro 2018

UM TRIO DE «SERIEDADE»

Como suporte o Observador e como protagonistas Pedro Santana Lopes e Donald Trump a negarem o que se lhes atribui. Deve ser este o tal tipo de jornalismo de seriedade que transmitirá confiança aos leitores. E quando não, depois a culpa do descrédito é atribuível às redes sociais...

ESTE JORNAL ENDOSSA A CANDIDATURA DE PEDRO SANTANA LOPES

Os destaques de capa das duas últimas edições do Público (ontem e hoje) mostram, para além de quaisquer dúvidas, qual o alinhamento do jornal nas eleições internas do PSD. Se a entrevista de ontem a Miguel Relvas ainda se poderia prestar a umas dúvidas remotas (à esquerda), o destaque e as 4 páginas da entrevista a Pedro Santana Lopes da edição de hoje dissipam-nas totalmente. Esta de publicar uma entrevista a um dos candidatos na véspera do dia das eleições é o máximo do apoio que um órgão de informação lhe pode conceder. Cumprisse-se a tradição política dos jornais anglo-saxónicos e o Público obrigar-se-ia a um «outing»: este jornal endossa a candidatura de Pedro Santana Lopes. Seria uma excelente ocasião para que o director David Dinis explicasse as razões da opção assumida pelo jornal que dirige. Até se trata de uma eleição interna, mas eles nos Estados Unidos não endossam também candidatos às primárias partidárias? Mas por cá, a tradição é outra e é estúpida. Perpetua-se a fábula que jornais e jornalistas não se engajam politicamente, embora as suas opiniões e as suas atitudes sejam tão óbvias que normalmente são facilmente conotadas. E porque não são explicadas é que se prestam a todas as especulações. Porque razões inconfessáveis a Sonae está neste caso mais interessada em promover Santana Lopes do que Rui Rio? E David Dinis, ao não se pronunciar em nome da equipa que dirige, estará a deixar o jornal que dirige apoiar Santana Lopes por convicção, ou estará a ser um pau mandado dos patrões? Aqui há dez anos, os seus trabalhos como jornalista mostravam que ele tinha uma opinião bem diferente de Santana Lopes...

Adenda: No mesmo estilo, o Observador também endossa a candidatura de Pedro Santana Lopes. Também publica hoje uma entrevista de Santana Lopes em 20 tweets. Rui Rio deve chatear muita gente...

11 janeiro 2018

OS VOCABULÁRIOS DOS DISCURSOS DOS PRESIDENTES NORTE-AMERICANOS

Encontrado na Visão, este gráfico vem a revelar-se mais interessante do que aquilo que a revista veio a explorar dele. Segundo a explicação que lá se lê quanto à forma como ele foi construído, um site compilou o vocabulário dos discursos de Donald Trump desde que ele assumiu a presidência há um ano e comparou-o com o dos seus 14 antecessores. Para isso, os vocabulários foram aferidos por um teste denominado Flesch-Kincaid que os equipara ao nível de escolaridade medido em anos de frequência. Confesso que não estou em condições de avaliar o processo. Mas percebo que o objectivo do exercício - conseguido! - seria o de posicionar Donald Trump no último lugar e considerar os seus discursos os mais infantilizados de sempre - e por uma distância significativa. Todavia e para além da traulitada política dos dias que correm, o resto do gráfico aponta para conclusões tão interessantes que é uma pena que se desperdicem. São várias. Assim, os discursos de George W. Bush são significativamente mais sofisticados dos que os do seu pai George H.W. Bush, apesar da imagem consagrada que o primeiro é a degenerescência do segundo. Os discursos de Franklin Delano Roosevelt (FDR), que terá a pretensão de ter sido o último poliglota a ocupar a Casa Branca, são considerados aqui de uma pobreza surpreendente, significativamente mais pobres até do que os do despretensioso Ronald Reagan. O único dos quinze presidentes a ter sido premiado como escritor, John F. Kennedy, que recebeu o Prémio Pulitzer por (não) ter escrito Profiles in Courage, aparece apenas a meio da tabela. Pelo contrário, a Dwight Eisenhower, a quem se desculparia preventivamente a sua formação castrense na diminuição das expectativas quanto à sofisticação dos seus discursos, aparece afinal bem colocado - os generais não discursarão só para as tropas. Mas sobretudo, e significativo de que o tópico não terá grande relevância política, é que os 2 presidentes que aparecem como melhor classificados, Jimmy Carter e Herbert Hoover, se contam entre os 3 únicos casos (entre os 15) de presidentes que se apresentaram à reeleição e dela saíram derrotados... Herbert Hoover, talvez porque discursasse ainda com mais sofisticação do que Carter, ainda foi mais severamente derrotado. Descontada a intenção de desfazer Donald Trump, o resto da classificação contêm tantas surpresas que elas me levam a aceitar que o exercício foi realizado com boa fé.

ASSASSINAM-SE OS CARÁCTERES... E OS CARÁCTERES RESSUSCITAM

Se há expressão de que se use e abuse é «assassinato de carácter». Quando se emprega, tem uma conotação maldosa. Deve ser por isso que me parece que ele há muito mais acusações preventivas de intenções do que verdadeiros assassinatos. Nesses assassínios costuma haver até quem queira negar o óbvio e que o morto não morreu. Mas o que me parece mais estranho neste nosso universo mediático nacional é como nele acontecem vários casos em que se consegue depois «ressuscitar do Além.» Tomemos o exemplo de hoje de Miguel Relvas (notícia acima), o videirinho que se cobriu de ridículo quando se soube que concluíra uma espécie de licenciatura completando apenas quatro cadeiras. Em termos de honestidade do tipo intelectual o expediente estará ao mesmo nível da honestidade material de um João Vale e Azevedo. Pois bem, Miguel Relvas, qual submarino, submergiu por uns anos para andar por aí (outro!), só para agora reaparecer à superfície como uma das vozes autorizadas do PSD. O homem bem se proclama "fora da política". Diz mais: "- Estou há muitos anos fora, estou a reconstruir a minha vida profissional e pessoal, porque a vida política é muito absorvente. Eu tenho até, hoje, limitações da vida profissional que não me permitem estar na vida política – há uma separação que considero essencial entre o mundo dos negócios e a vida política." Vejam lá vocês que, apesar destas proclamações de indisponibilidade, tanto o Público quanto a Rádio Renascença só o encontraram a ele, Relvas (de entre dezenas de militantes de vulto do PSD!), com disposição para comentar a actual situação política ao aproximarem-se as eleições internas do partido.

A GAZETA DAS ARDENAS

Se a colaboração dos franceses com as autoridades de ocupação alemãs durante a Segunda Guerra Mundial é um assunto conhecido, muito mais discreto é aquilo que está publicado sobre o mesmo fenómeno durante a Primeira Guerra Mundial. Este jornal, Gazeta das Ardenas, na sua edição de há precisamente cem anos, é uma das expressões desse primeiro colaboracionismo. Publicado na França ocupada, mais precisamente em Charleville (hoje Charleville-Mézières), a publicação era dirigida por um alsaciano francófono mas germanófilo chamado René Prévot. Uma excelente pena jornalística, na opinião de qualquer das partes do conflito. Redigida obviamente em francês, o seu público-alvo eram, não apenas os 2 milhões de franceses que residiam em território ocupado pelos alemães, mas também os restante 38 milhões que estavam do outro lado das trincheiras. Porém, o que tornava o jornal lido tanto na França ocupada como na que os combatia, eram as listas dos soldados franceses que haviam sido feitos prisioneiros e também as daqueles que haviam morrido no cativeiro - no total virão a ser publicados cerca de 250.000 nomes. Refira-se que a indicação da tiragem que se lê acima no cabeçalho (100.000 exemplares), podendo estar inflacionada, não era uma daquelas mentiras descabidas da propaganda de guerra. Muitas dezenas de milhares de exemplares da Gazeta das Ardenas eram distribuídas e a circulação clandestina do jornal em França era uma preocupação dos responsáveis franceses. Afinal, já há cem anos que se sabia identificar aquilo que interessaria aos leitores e que os levaria a comprar um jornal: não há rival para as páginas dos anúncios classificados do Correio da Manhã, por exemplo.

10 janeiro 2018

A MODA DOS TRANSPLANTES CARDÍACOS

10 de Janeiro de 1968. Depois da realização do primeiro transplante cardíaco na Cidade do Cabo no início do mês anterior, o panorama informativo mundial de há cinquenta anos tornara-se frenético na cobertura de mais cirurgias idênticas, debitando nomes de pacientes e de cirurgiões a um ritmo que se tornava difícil de acompanhar para o leitor menos atento. A edição deste dia de 1968 anunciava em destaque de primeira página a morte de Louis Block, o quinto transplantado, e nas páginas interiores que Michael Kasperak se sentara pela primeira vez depois da operação e que o doutor (neste caso, um paciente, dentista) Philip Blaiberg continuava a melhorar. Por outro lado, ainda nessa mesma página traçava-se o perfil do doutor Adrian Kantrowitz, cirurgião norte-americano e candidato a grande rival do sul-africano Christiaan Barnard e dava-se publicidade à opinião de um «conhecido» mas não nomeado cirurgião canadiano que era um «amigo da onça»: duvidava do êxito dos transplantes do coração. Contudo, nos finais de 1968 já haviam sido realizadas mais de cem cirurgias semelhantes, embora sempre com taxas de sucesso bastante modestas. Mas, por essa altura, o assunto, que chegara a suplantar as notícias de um sério défice energético português e também a recolha de novas fotografias da superfície lunar, já se banalizara e abandonara os cabeçalhos da imprensa. Hoje acontecem cerca de 3.500 transplantes cardíacos por ano em todo o Mundo e, a não ser que haja interesse no assunto por causa da figura do transplantado, como aconteceu recentemente no caso de Salvador Sobral, o acontecimento não tem qualquer relevo noticioso.

O APARECIMENTO DE TINTIN

10 de Janeiro de 1929. Le Petit Vingtième era a edição juvenil semanal de quinta feira do diário conservador católico belga Le Vingtième Siècle. Mais do que o conservantismo, ao longo da década de 1920 o jornal iniciara uma inflexão política em direcção ao fascismo. Esta edição de há 89 anos caracterizava-se por conter as duas primeiras pranchas de uma aventura de um herói de BD destinado a dar muito que falar: Tintin. A história chamava-se Tintin no País dos Sovietes e, com um total de 138 pranchas, irá prosseguir a sua publicação ao mesmo ritmo até à edição de 8 de Maio de 1930. E, como se pode apreciar pela primeira prancha abaixo, ainda se estava muito longe do estilo de linha clara que caracterizaria as Aventuras de Tintin.

09 janeiro 2018

ARRIAVA-SE-LHE CÁ UM «CALDO» NAQUELE CACHAÇO...

A fotografia datará de 2007 ou 2008, já se terão passado quase dez anos mas perdura aquela sensação de se sentir vergonha pelo comportamento alheio, os vermes rastejam assim. Não se vá dar o caso de, depois de Santana Lopes e também com Durão Barroso, também se queira agora passar uma esponja sobre o passado...

A ESTRADA PARA O SUCESSO

Na estrada para o sucesso, não há atalhos. - é o que se pode ler na lateral do camião que acabou de se entalar ao tentar passar por debaixo da ponte.

...SOBRE A ADMISSÃO DA IGNORÂNCIA

Depois de nos idos tempos do século passado se criticar algumas manifestações de ignorância quando elas se mostravam atrevidas , as manifestações do novo século, tal qual aparecem expressas numa rede social vão muito para além disso, tornaram-se assertivas e desavergonhadas. Seria bom mas não é obrigatório que quem lê conhecesse os rudimentos da obra poética de Fernando Pessoa - afinal, trata-se de um poeta que faz parte do currículo da disciplina de português da escolaridade obrigatória... Haja quem goste e a publique no facebook (acima). Que quem lê, não tenha percebido nada, é que já não é elevado. Mas que o mesmo tenha sentido necessidade de o expressar publicamente é que me parece um bocadinho pior. Afinal, quando foi daquela de mandar o Relvas estudar, até o Relvas teve vergonha e embatucou, não foi mesmo? Ora isto é ser-se pior do que o Relvas...