25 julho 2017

A ILUSÃO DE (QUASE) TODA A HUMANIDADE

25 de Julho de 1992. Há 25 anos tinha lugar a abertura dos Jogos Olímpicos de Barcelona. A cerimónia foi dominadas pela forma verdadeiramente espectacular como a pira olímpica foi acesa com uma flecha em fogo disparada por um archeiro de dentro do estádio. Tomando em consideração a colocação da câmara de televisão, fica a impressão para quase toda a Humanidade que seguiu o acontecimento à distância (impressão essa que perdurou, porque ninguém a desmentiu nos dias que se seguiram), que o arqueiro conseguira colocar a flecha precisamente dentro da pira, incendiando-a.

Na verdade, deve ter sido o truque de magia que alcançou a maior audiência de sempre até aquela data - uma audiência verdadeiramente planetária! Como se compreende, a organização não se poderia permitir correr o risco de que houvesse um fiasco numa situação tão delicada. E assim os arqueiros foram submetidos a intensos ensaios, mas apenas a direccionar o tiro, a pira seria acesa quando a seta lhe passasse por cima e competiria ao posicionamento da câmara de televisão criar o resto da ilusão. Ilusão essa que não foi compartilhada pelos milhares presentes no estádio, como se depreende pela fotografia abaixo.

ASTÉRIX E CLEÓPATRA (36)

Mais um exemplo de um trocadilho que se perdeu na tradução.

24 julho 2017

AQUILO QUE O TINTIN JÁ TINHA DESCOBERTO HÁ MUITO...

...o que não é propriamente uma novidade para quem conhecer as aventuras de Tintin quando esteve na Lua.

É MAIS DO QUE APENAS DISCORDÂNCIA...

Depois de ter passado 2015 a profetizar repetidamente as maiores desgraças para a Grécia (acima), é preciso ter o maior dos descaramentos para agora assobiar para o lado e deixar escoar os dias sem um comentário sequer à notícia abaixo - já lá vão doze dias! - sobre a saída da Grécia do procedimento por défice excessivo. Sobre a natureza conturbada do caminho trilhado por eles até aqui, Alexis Tsipras, ao menos, penitencia-se, confessando que cometeu enormes erros - e até isso se pode ler no próprio jornal onde José Manuel Fernandes escreve! Mas o publisher do Observador não cometeu erros de análise. A realidade é que se enganou.
São episódios como este que fazem de José Manuel Fernandes, no âmbito da opinião publicada e da honestidade intelectual, no equivalente daquilo que representa Isaltino de Morais para a gestão autárquica e a ética da causa pública. Passeiam-se ambos por aí, impunes e aparentemente absolvidos pela opinião pública, com a adicional de que a Fernandes nem sequer há razões para o sancionar com o equivalente à estadia no hotel da Carregueira de Isaltino Morais, visto que é só um aldrabão consumado, não roubou nada a ninguém. Mas isso será motivo para convidá-lo para opinar em tudo o que é programa de televisão?...

«VIVE LE QUÉBEC LIBRE!»


24 de Julho de 1967. Charles de Gaulle está em Montreal numa visita oficial ao Canadá e resolve cometer uma das maiores gaffes diplomáticas do Século XX, apelando descaradamente ao separatismo de uma parcela do país que o acolhe. A visita acabou bruscamente. Já tive oportunidade de contar uma síntese do episódio aqui no blogue vai para 10 anos e, se a recupero para efeméride de hoje (pelo seu cinquentenário), é só para recordar que, mau grado a completa falta de jeito que já demonstrou ter nas relações com o exterior, Donald Trump ainda nada fez de verdadeiramente grave nesse panteão das colossais gaffes diplomáticas.

ASTÉRIX E CLEÓPATRA (35)

Déployer é traduzível nas circunstâncias do penúltimo quadradinho por desdobrar. E égorger (à letra, degolar) é empregue no sentido figurado de derrota. Ora, a expressão égorge déployé reinventada pelo terceiro legionário remete para a expressão típica do francês «rire à gorge déployée», que será o equivalente ao nosso rir a bandeiras despregadas. O tradutor não conseguiu dar a volta à situação, o que torna incompreensível a referência do último legionário a um jogo de palavras.

23 julho 2017

UMA INUSITADA «CONVERSA EM FAMÍLIA» NO ESTIO DE 1971

23 de Julho de 1971. Ao serão de há 46 anos tinha lugar na RTP uma singular, talvez a mais atípica, conversa em família de Marcello Caetano. Como se percebe escutando-a, o processo de revisão constitucional atrasara-se, obrigara a uma sessão extraordinária da Assembleia Nacional que se iniciara a partir de meados de Junho de 1971 entrando pelo mês seguinte, o que tornara o Verão de 1971 anormalmente tépido para o que era costume num regime já muito habituado a certos rituais, a suscitar a presença do presidente do Conselho nos ecrãs quase a meio de um Estio tradicionalmente plácido. Recomenda-se a quem não o conheça, a assistir a um pouco da conversa em família para lhe apreciar o estilo, de uma outra época, de um outro século. Com a duração de uma meia hora e preenchida completamente por um monólogo de Marcello Caetano a fazer valer os seus dotes didáticos de professor académico, o conteúdo da conversa que se pretendia íntima com o espectador, a complexidade de algumas passagens do que é explicado, ao nível de uma aula de faculdade de Direito, justificaria muito mais as explicações ulteriores dos Paulos Baldaia ou dos Ricardos Costa da actualidade. Mas nesse tempo não havia tais explicações mesmo quando pertinentes, já que não se pressupunha que a audiência fosse estúpida por defeito, muito menos havia estrelas do comentário televisivo. Mas, mais do que proceder a uma análise comparativa sumária dos procedimentos regimentais entre alguns parlamentos da Europa ocidental, o que terá tornado memorável esta conversa em família em particular, para além da altura do ano em que foi emitida, foi o seu alvo político: a denominada ala liberal. É que, para além do projecto canónico com o patrocínio governamental, houvera mais dois outros projectos de revisão da Constituição em discussão, de origens das franjas reformistas do regime. E, por essa vez, um parlamento que era conhecido pelo seu monolitismo e pelo carácter rígido da coreografia das suas sessões ter-se-á animado com os underdogs a granjearem as simpatias decorrentes do capital de queixa de quem joga as regras do jogo e o perde porque elas estavam viciadas desde o começo. A condescendência e menorização de que Marcello Caetano dá mostras nesta conversa em família em relação àquilo que seria a oposição possível no quadro da abertura do regime (a denominada a Primavera Marcelista), acabou por lhe assentar muito mal. Marcello Caetano não estava a ser gracioso na forma como vencera um desafio que as elites de uma outra geração (hoje octogenários) não concebera para ser assumido pessoalmente pelo chefe do governo. Para muitos daqueles que acompanharam e perceberam aquela pequena meia hora de conversa do presidente do Conselho, a Primavera terminara naquela noite quente de Verão...

ASTÉRIX E CLEÓPATRA (34)

Na última linha da prancha cada intervenção é precedida de uma invocação aos deuses do antigo panteão: Por Toutatis! Por Júpiter! Por Isis! Por Belenos! Por Belizama! Por acaso...

O MUNDO DO PODERIA-TER-SIDO

Fui buscar à infância as memórias de uma imaginativa história que se intitulava A Bola do Faz de Conta (uma tradução traiçoeira, como se comprova acima, porque a expressão original francesa é um pouco mais contundente: se-fosse-verdade). Em quase cinquenta anos, o exercício de tomar o fantasioso por sério terá galgado os terrenos da BD juvenil para se instalar na imprensa adulta, na de referência mesmo, ao encontrarmos nas páginas da The Economist exercícios como o de especular como teria sido o resultado do referendo do Brexit se todos os britânicos tivessem participado no acto eleitoral do ano passado (abaixo). No The Economist querem-nos convencer que o resultado seria coincidente mas a pergunta pertinente é: que é que interessa isso? Quem quis votar, votou e quem não o fez, foi porque decidiu não o fazer. Qual a importância que poderá representar um exercício de especulação e contabilização das intenções de quem voluntariamente não o quis fazer? Isto não tem nada de semelhante com as sondagens em que se pedem opiniões informalmente numa ocasião em que isso não acontece formalmente, ou então em que se pedem, também informalmente, opiniões específicas sobre assuntos sobre os quais não está prevista fazer uma pergunta formal. Não foi nada disso que se passou com o Brexit. A cobertura da actividade política deve ser sóbria e assente na realidade mas parece cada vez mais diáfana a fronteira entre a ficção e a não ficção política.

22 julho 2017

...PORQUE A VERDADE ACABA QUASE SEMPRE POR ULTRAPASSAR A FICÇÃO

Até mesmo a Stanley Kubrick, quando filmou Dr. Strangelove em 1964, lhe faltou imaginação para conceber (e antecipar) que dali por uns 50 anos o mais chanfrado dos presentes no War Room pudesse ser o próprio presidente!

O CENTENÁRIO DE UMAS TRINCHEIRAS QUAISQUER

Dá-se a curiosidade de o original desta fotografia aérea acima ter uma data: 22 de Julho de 1917. Aos Domingos a guerra prosseguia e faziam-se voos de reconhecimento sobre as frentes de combate que, lá de cima, se identificavam pelo traçado ziguezagueante das trincheiras. Fotografavam-nas para as analisar, tanto com propósitos ofensivos como defensivos. Do lado direito um desenho esquemático ajuda-nos a interpretar a paisagem. O que se perde com a altitude é a identidade dos milhões que dos dois lados as guarneciam.

ISTO DE TRABALHAR PARA VENDER UM LIVRO...

...tem muito esforço envolvido. Não fosse esse esforço e não se compreenderia esta última pulsão de António Barreto para dar entrevistas encadeadas a falar de si e dos seus pensamentos mas sobretudo dos tempos de reforma agrária. Ele foi ao Expresso e depois à Visão ainda no mês passado, depois, já este mês, ao Observador e ainda hoje o podemos apreciar em mais uma entrevista dada agora à Lusa e reproduzida pelo Diário de Notícias e outros órgãos de comunicação, incluindo a página do Sapo24 onde o vemos exibindo nas mãos a muito provável causa de tanto frenesim: o livro Anatomia de uma Revolução, acabado de reeditar (a edição original é de há 30 anos), mas agora com prefácio mais modernizado de Maria de Fátima Bonifácio. Acabado de sair, cá tenho o livro ainda por ler, à espera de tempo, mas gostaria de assinalar que eu costumo estar atento às opiniões de António Barreto mas prefiro quando ele tem novas ideias para nos expor, não quando tem um livro antigo para nos vender... Tanto mais que, se em 1987, a questão política da posse da terra já interessava pouco, hoje a agricultura é um sector tão marginal da economia que não interessa mesmo nada.

21 julho 2017

AS DECLARAÇÕES DESVALORIZADAS DE UM PRESIDENTE SEM VALOR


21 de Julho de 2014. De visita à Coreia do Sul, o presidente Cavaco Silva reafirma a confiança no Banco Espirito Santo a escassos dias do seu colapso. A bizantinisse da fórmula como exprime essa confiança, escondendo-se por detrás das opiniões do Banco de Portugal, não foi interpretada assim na época, e não virá a ter grande acolhimento quando Cavaco Silva se tiver de defender debaixo de fogo, conforme se percebe das imagens do vídeo abaixo. Se a opinião sobre o BES não era a dele, se ele se limitava a papaguear o que o BP já dissera, e não queria assumir consequências do que reproduzia, porque não se calara? Porque não remetera simplesmente os jornalistas para as declarações do mesmo teor já emitidas pelo BP? Ou então, e isto já em jeito de chalaça, que é o que merece um presidente que não tem tomates para assumir as responsabilidades do que diz, porque não os alertara para a opinião sempre presciente do seu colega José Gomes Ferreira?...

ASTÉRIX E CLEÓPATRA (33)

Há cinquenta anos, aquela cena em que o militar possante mas falho de cérebro entra e sai de cena com o mesmo riso idiota (Hi!Hi!Hi!Hi!Hi!) era uma piada. Hoje tenho dúvidas que a compreendam...
Para me socorrer apenas de uma cena do quotidiano bem recente, temos um réu que acaba o seu julgamento condenado a quatro anos e dois meses de prisão com pena suspensa, e que vem proclamar-se vitorioso diante de uma chusma de câmaras e microfones acéfalos que nem o contestaram. É que a condenação por três crimes de falsificação de documentos e um de fraude fiscal qualificada não é a mesma coisa do que uma absolvição.

Há a conjuntura e há o protagonista, e mesmo se este último continuar a rir mesmo quando levado em braços pelos camaradas (como acima) então é porque não está tudo bem...

20 julho 2017

CHEGADA À LUA

20 de Julho de 1969. Pela primeira vez, uma nave tripulada pousava na Lua. Os Estados Unidos haviam vencido a corrida espacial, mas havia que esperar mais um dia (21 de Julho) para a saída dos astronautas Armstrong e Aldrin, para o primeiro passeio na superfície lunar e para a consagração.

ASTÉRIX E CLEÓPATRA (32)

19 julho 2017

NEM SEMPRE O EMPREENDEDORISMO RESULTA...

Esta coisa das expressões da moda nem sempre corresponde à realidade. O jóquei da direita, por exemplo, até accionou o turbo (uma expressão que foi moda há trinta anos) mas, mesmo assim, teve que se contentar com o segundo lugar...

PINTASSILGO ACEITOU

19 de Julho de 1979. Maria de Lourdes Pintassilgo aceita o convite do presidente Ramalho Eanes para encabeçar um terceiro governo de iniciativa presidencial. Questões políticas à parte (o executivo iria passar dali por um mês numa votação em que recebeu mais votos contra do que a favor, mas que não perdeu porque a maioria... se absteve), o que importa realçar no episódio é a questão do género. Como chefe de governo, a nova primeira-ministra portuguesa iria ser a segunda mulher na Europa (a britânica Margaret Thatcher tomara posse há dois meses e meio, em Maio desse mesmo ano) e a sétima em todo o Mundo.

PS - É engraçado inserir o cabeçalho do Diário de Lisboa desse dia, para perceber pelos cabeçalhos colaterais como a comunicação social estava também bandeada... mas nesse tempo para a esquerda. À direita da notícia principal, inquire-se as opiniões de Cunhal e Soares (por essa ordem, presume-se a alfabética, e não a da representatividade dos respectivos partidos...), mas esquece-se Sá Carneiro e Freitas do Amaral. Celebra-se o fim do regime nicaraguano, o presidente interino já fugiu e as tropas sandinistas rebeldes entraram na capital, no que pretendia ser uma completa reedição do que acontecera quatro anos antes no Vietname. E havia ainda imagens actuais da URSS, não nos fôssemos esquecer dela...

ASTÉRIX E CLEÓPATRA (31)

De todas as aventuras de Astérix onde ele se cruza com Júlio César, esta será aquela em que o romano aparece pior retratado em termos morais.

18 julho 2017

«AGARREM-ME, SENÃO DENUNCIOS-OS A TODOS!»

Exemplo acabado do comentador «Agarrem-me, senão denuncio-os a todos!». Ninguém agarra e a denúncia concreta fica sempre para o próximo programa. Se levássemos Tiago Caiado Guerreiro a sério, então a "paisagem" estaria repleta de "malandros". Contudo, esses malandros têm o benefício de o bom do Tiago nunca chegar a identificá-los, nem sequer a sugerir vagamente de quem se trata. Ao fim de tantos anos e de tantos programas de televisão iguais, a sua presença e o seu estilo marcante mas um pouco já repetitivo tornou-se numa rábula familiar, ao jeito do José Freixo e do seu boneco Donaltim... só que lhe falta o Donaltim. E é pena porque talvez o pato Donaltim concretizasse as suas insinuações...