20 maio 2018

A INDEPENDÊNCIA DE TIMOR E ONDE É QUE HAVIA ESTADO MÁRIO SOARES ANTES DO 25 de ABRIL

Mário Soares, Portugal Amordaçado, 1972, p.457 (edição portuguesa de 1974)

20 de Maio de 2002. Há precisamente 16 anos e 30 anos depois da apreciação supra de Mário Soares, as circunstâncias dificílimas, únicas de sofridas, que haviam conduzido a nova nação de Timor à primeira independência formal do século XXI, mostram quanto Soares, quando falara do dossier colonial português, se pronunciara sobre aquilo do qual não fazia a mínima ideia. Mas esse será sempre o seu estilo: inspirando-se no que acontecera com as possessões portuguesas na Índia em 1961, Mário Soares tirava umas pelas outras e prognosticava também ali a anexação pelo grande vizinho... Ficara escrito, mas, para o engrandecer, faltou ouvi-lo depois - e teve 30 anos para isso! - confessar que se enganara redondamente.

19 maio 2018

A CALÚNIA

A notícia propagada pela comunicação social que Marcelo Rebelo de Sousa se escusa a estar presente na final da Taça de Portugal porque «não se quer sentar ao lado do presidente do Sporting» é uma calúnia. As imagens e o seu passado comprovam-no: Marcelo já se sentou ao lado de muito boa gente pouco recomendável...

A LEGIÃO SALTA EM KOLWEZI

19 de Maio de 1978. Kolwezi era uma cidade mineira africana na região do Catanga, naquele que era, à época, o Zaire e que hoje é conhecido por República Democrática do Congo. Havia no Catanga um movimento secessionista, denominado FLNC cuja organização militar, partida da vizinha Angola e apoiada pelos angolanos e cubanos e enquadrada por estes últimos, havia desencadeado uma ofensiva sobre aquela região, derrotando o exército zairense e apoderando-se da cidade. Mesmo depois da independência da Bélgica, e por causa da proximidade e importância das minas catanguesas, em Kolwezi mantivera-se uma importante comunidade de expatriados europeus que agora estavam nas mãos desses rebeldes catangueses da FLNC. E a produção das minas fora afectada.
Terá sido por isso que os pedidos de auxílio do presidente zairense Mobutu, feitos tanto nos Estados Unidos como na Europa, tiveram uma ressonância inabitual, numa época em que os primeiros viviam a ressaca da guerra do Vietname e os europeus ocidentais as ressacas das descolonizações. A Bélgica, ex-potência colonial e a França terão topado a parada e disponibilizaram-se a realizar uma operação aerotransportada para a recuperação do controle de Kolwezi. Contudo, uma e outra entraram rapidamente em choque quanto ao âmbito de que se revestiria essa operação, com os belgas a quererem restringir-se à libertação dos reféns e os franceses a quererem ir mais longe e a estabelecer uma espécie de regresso ostensivo - embora em moldes diferentes - à Africa Negra, de onde haviam saído 18 anos antes.
Prevaleceram os franceses, que se anteciparam e assumiram as rédeas da operação, baptizando-a de «Bonite». O papel principal foi entregue ao 2º Regimento Estrangeiro de Paraquedistas (REP) da Legião Estrangeira. A escolha da unidade não fora acidental, se nos lembrarmos do que acontecera na Argélia e do envolvimento do 1º REP no putsch dos generais em 1961. Tratava-se de um esforço deliberado de promover a reconciliação da França com as suas unidades de elite da Legião Estrangeira, desde sempre celebrizada pela sua participação nas campanhas tropicais e coloniais, mas cujo comportamento na fase final da guerra da Argélia conduzira a um ostracismo. Do ponto de vista militar, não se pode dizer que o desfecho da batalha tenha sido cerrado: os franceses registaram 5 mortos entre os 700 combatentes empenhados e os belgas apenas 1 morto entre os seus 1.180 homens. Do lado dos rebeldes do FLNC, estima-se que terão havido 250 mortos. Fizeram-se uns 150 prisioneiros.
Entre os civis terão sido 870 os mortos, dos quais 20% europeus, muitos deles executados. Quando do contra-ataque de há 40 anos, os franco-belgas terão beneficiado da desorganização das tropas da FLNC, que entretanto haviam perdido a sua coesão e dinâmica ofensiva, dedicando-se à pilhagem*. Se os números acima demonstram que houve até mais belgas do que franceses envolvidos na operação militar, quanto à operação mediática o resultado foi o inverso: a festa foi completamente francesa. A curto prazo a revista Paris Match enalteceu (e explicou) a façanha, a médio prazo, ela foi contada em livro e depois em filme (La légion saute sur kolwezi). Tratara-se da primeira operação aerotransportada francesa depois da Crise (e fiasco) do Suez em 1956, desta vez fora uma bem sucedida projecção do poder militar francês a 7.000 km de Paris.
No final, 2.800 reféns, a esmagadora maioria deles europeus, foram libertados. Sempre um homem para as situações, o presidente Mobutu não deixou de se associar ao sucesso, fardado a preceito, como um general vencedor (penúltima foto). Mas, outro presidente, Giscard d'Estaing de França, fora um vencedor mais substantivo: criara-se um novo paradigma da presença militar francesa na África Negra, havia um retorno ostensivo do seu país à região, camuflado agora de cooperação musculada com as forças armadas locais (última foto). Um certo sentido de desforra para os nostálgicos das guerras colonias. O princípio ali estabelecido ainda vigora, como se constata pelos exemplos - que envolvem também a presença militar portuguesa - do Mali ou da República Centro-Africana.
* 60 anos antes e muito longe dali, havia acontecido o mesmo às tropas alemãs quando das Ofensivas da Primavera de 1918 na Flandres. Quando os esfomeados soldados alemães capturavam os depósitos de intendência situados na retaguarda das linhas aliadas, a dinâmica da ofensiva alemã desaparecia por completo até aos atacantes se saciarem.

18 maio 2018

INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL: SERÃO MUITO MAIS AS VOZES QUE AS NOZES

É consultando o menu de notícias colocadas à nossa disposição pelo Google Notícias, que se fica com a sensação que a Inteligência Artificial que no-las selecciona ainda tem muito trabalho pela frente até merecer esse epíteto de «inteligência». É que nada no meu histórico de navegação mostrará fundamento para que eu me possa interessar por quem vá acompanhar Meghan Markle ao altar. Nem pelas delicadezas momentâneas da vida de Jessica Athayde, que essa nem sei de quem se trata, imaginem só a empatia que eu possa sentir pela sua cadela... Em contrapartida, e por causa desse mesmo histórico de navegação, eu teria gostado de ter sabido da morte do historiador Richard Pipes, ontem noticiado, embora não na imprensa portuguesa. Mas este último aspecto já tem mais a ver com causas naturais... Três dias antes e para aferência, em quase todos os grandes jornais cá do sítio se escreveu um longo artigo a propósito da morte do jornalista e escritor Tom Wolfe (1), (2), (3), (4). Sobre Richard Pipes, ninguém saberá de quem se trata, vai ser preciso esperar por uma publicação estrangeira que lhe escreva o obituário (como o NYTimes): é tão previsível e formatada a ignorância dos jornais portugueses...

OPERAÇÃO BUDA SORRIDENTE (POKHRAN-I)

18 de Maio de 1974. A União Indiana faz detonar o seu primeiro engenho nuclear. Apesar das minhas leituras, em lado algum encontrei uma explicação satisfatória para o nome escolhido pelos indianos para designar o seu primeiro ensaio nuclear. É verdade - e nem todos se aperceberão disso - que o budismo é uma religião de origem indiana. É também verdade que existe uma estética distinta entre as representações do buda de um e outro lado dos Himalaias (percebe-se que a da imagem acima, pelo colorido e pela compleição ascética, é nitidamente indiana). Mas resta-nos a especulação para perceber que objectivo teriam os indianos quando escolheram aquele nome de código para uma operação cujo desfecho iria tornar o nome certamente público. A invocação de Buda, ainda por cima sorrindo, seria para ser um aceno irónico àqueles que eles considerariam os seus rivais próximos, os chineses? Os acontecimentos posteriores iriam demonstrar que quem não se sorriu nada ao saber do ensaio foram os vizinhos do Paquistão. Uma segunda questão, também superficial, é o problema do que se pode exibir em imagens para ilustrar um ensaio nuclear subterrâneo: não há muito material, a maioria do que há está classificado, e o remanescente - como se vê pelo exemplo acima - carece da espectacularidade dos enormes cogumelos dos primeiros ensaios à superfície (será por isso que os actuais ensaios nucleares norte coreanos costumam ser ilustrados pela figura de um outro buda sorridente...). Uma terceira questão, já mais séria, é a que se relaciona com os aspectos técnicos do ensaio. Embora camuflado pelas notícias da época, este primeiro ensaio nuclear indiano foi um semi fiasco: o engenho, enterrado a 107 metros de profundidade e que se inspirava no desenho das bombas de plutónio-239 de Alamogordo e Nagasáqui, terá registado uma potência destrutiva equivalente a apenas 40% da que fora registada pelos ensaios norte-americanos, quase 30 anos antes (ou seja, 8 ktons., em vez das 20 ktons. esperadas). Em contrapartida, assinale-se que, mercê dos progressos feitos ao nível dos materiais, o engenho indiano (1,4 tons.) pesava 30% do ancestral norte-americano onde se fora inspirar (4,5 tons.). Mas (quarta questão), para o impacto político e estratégico do feito, as minudências técnicas pouco importariam. Há precisamente 44 anos, a Índia entrava para um clube muito restrito, agora com seis membros, das potências com capacidade nuclear. A constatação não deixava de ser chocante para o resto do mundo, num país que, naquela altura, projectava ainda a imagem internacional da miséria extrema, de que ocasionalmente se mostrava incapaz de alimentar a sua própria população e se socorria, por causa disso, do auxílio externo. Seis anos antes, a Índia (com o Paquistão e Israel) recusara-se a assinar o Tratado de Não Proliferação Nuclear (NPT), em mais uma das fases deste jogo perpétuo (e hipócrita), em que todos se dispõem a assinar tratados mantendo o "status quo" da posse de armamento nuclear à escala mundial... com excepção dos países que estão em vias de mudar de estatuto (agora trata-se do Irão e da Coreia do Norte). Parecia um contrassenso. Mas não era: para as realidades frias da geoestratégia, a Índia tornara-se muito mais importante com uma arma nuclear numa mão do que com uma gamela estendida na outra. Actualmente, depois de uma muito bem sucedida (mas pouco publicitada) Revolução Verde, o problema da alimentação básica das populações indianas, mesmo que ainda em crescimento, já deixou de se colocar. Contudo, a atitude indiana em relação à posse do armamento nuclear nunca deixou de se distinguir pelo seu exotismo. Este livro abaixo, publicado em 2001, contém 765 páginas(!) onde o autor tenta convencer o leitor que a atitude indiana no que concerne ao recurso a este género de armamento é mais pacífica do que a dos seus rivais próximos... Acredite quem quiser.

17 maio 2018

A COBARDE DEMISSÃO DOS PARTIDOS POLÍTICOS PERANTE OS ESCÂNDALOS DO FUTEBOL

– Aconteceu um incidente curioso com o ladrar do cão – comentou Sherlock Holmes.
Mas o cão não ladrou! exclamou o Dr. Watson.
– Esse é o incidente curioso!

Arthur Conan Doyle (O Cão de Baskervilles)
A idade ensinou-me a prestar tanta ou mais atenção às omissões do que apenas àquilo que nos querem fazer ver. A omissões significativas passei-as a designar por episódios de Barkervilles, em homenagem à passagem acima do livro de Arthur Conan Doyle em Sherlock Holmes se pergunta porque é que o cão não ladrou... e devia ter ladrado. E é perante este cabeçalho do Público, em que Bruno de Carvalho se atira às duas primeiras figuras do Estado que nos apercebemos mais nitidamente do ribombante silêncio de todos os agentes políticos a respeito deste último grande escândalo do futebol envolvendo o Sporting. O fenómeno é ainda mais caricato no caso daquelas formações políticas, como serão os casos do Bloco de Esquerda e do CDS, que baseiam a sua comunicação numa incessante barragem de opiniões protagonizadas pelas respectivas líderes, que se pronunciam acerca de tudo. Como certo dia disse Jô Soares num dos seus programas: tudo, do cocó à bomba atómica. Por exemplo, google-se "Assunção Cristas defende" e descobrir-se-á que ela defende: o relacionamento entre Portugal e Angola, que o quadro comunitário de apoio deve ser tratado no Parlamento, que o Parlamento não tem mandato para legislar sobre a eutanásia ou a reconstrução das habitações de férias (de Pedrógão Grande). E Catarina Martins não lhe fica atrás. Google-se a mesma expressão com o seu nome e fica-se a saber que ela defende o investimento na reorganização do território, um fundo de solidariedade para vítimas da legionella, alterações à lei do preço fixo do livro, ou ainda a escolha entre a dignidade e horários de meio dia para os trabalhadores. Frementes entre tantas outros assuntos, nem a uma, nem a outra, nem aos seus partidos, nem a qualquer dos outros partidos com assento parlamentar (PSD, PS, PCP e PAN), se ouviu comentário que se ouvisse condenando os acontecimentos de Alcochete. O facto não é importante porque, reconheça-se, apesar das aparências decorrentes da cobertura desmesurada que lhe é concedida pela comunicação social, o futebol não tem importância nenhuma. É um negócio do entretenimento. Mas é eloquente da cobardia demonstrada pelo poder político perante uma nova forma de marginalidade que, ao contrário da tradicional, é iluminada pelos holofotes da comunicação social.

MAZAMET, A CIDADE PETRIFICADA

17 de Maio de 1973. Há 45 anos teve lugar na cidade francesa de Mazamet uma acção espectacular de sensibilização em prol da prevenção rodoviária. A cidade contava então com 16.610 habitantes, que corresponderiam, grosso modo, ao número de mortos registados nas estradas de França no ano anterior: 16.545. Ao som de uma sirene e sob o título de Mazamet, Cidade Morta, organizou-se um evento em que os cidadãos foram convidados a sair à rua e a fingirem-se de mortos durante um quarto de hora enquanto equipas de fotográficas e cinematográficas exibiam o impacto condensado numa cidade das perdas humanas devidas a acidentes de trânsito. Como se percebe pelas fotos, a iniciativa foi acolhida com entusiasmo pela população daquela pequena cidade occitana, houve mesmo quem se deixasse "atropelar" ou feito outras alusões explícitas aos acidentes rodoviários. A imaginativa ideia terá tido um grande impacto: uma reportagem sobre a cidade desaparecida do mapa for transmitida pela televisão francesa, acompanhando legislação sobre a obrigatoriedade do uso de cinto de segurança e sobre novos limites de velocidade. A curto prazo, o impacto do documentário terá sido grande. Outra coisa se poderá concluir no médio e longo prazo: o número de mortos nas estradas decresceu em mais de 75% nestes 45 anos (3.700 mortos em 2017), mas esse resultado dever-se-á tanto ao comportamento dos condutores, quanto a melhores métodos de construção das vias (evitando cruzamentos e outros pontos nevrálgicos, por exemplo), como também ao melhoramento dos sistemas de protecção passiva das viaturas (airbags, abs, etc.).

Curiosamente, e regressando às imagens de Mazamet, cá em Portugal e por essa mesma altura, a revista Tintin andava a publicar semanalmente as pranchas de uma história intitulada A Cidade Petrificada, uma aventura em que uma cidade inteira era atacada com um mega aparelho de ultra-sons, deixando todos os seus habitantes inanimados e prostrados pelas ruas, com a mesma aparência da encenação de Mazamet.

JOSÉ SÓCRATES NÃO É UM CRISTÃO-NOVO...

Sérgio Sousa Pinto é um exemplo do que é um bom político português: além da ambição, é alguém que pensa sozinho, tem ideias originais e tem aquela habilidade indispensável a um político para se pôr a jeito, já que a ascensão até ao lugar que ambiciona dependerá muito mais das circunstâncias do que dos seus (indiscutíveis) méritos. Terá sido, aliás, por isso que Sérgio Sousa Pinto se pôs a dar esta entrevista de hoje à Rádio Renascença e ao Público, em antecipação ao próximo congresso do PS, para fazer-se oportunamente lembrado e para ali ser acolhido com uma chusma de microfones que lhe vão perguntar as perguntas estupidamente previsíveis (e irrelevantes) do costume, às quais ele vai responder desdenhosamente (acima, a mesma cena no congresso anterior). Não parece, mas ele precisa que os microfones lá apareçam. O conteúdo da entrevista vai também no mesmo sentido: é um acerto de contas com quem neste momento controla o PS para se demarcar como alternativa futura, embora haja aspectos em que me parece que a sua atenção com as rivalidades internas do partido, o faça esquecer o que acontece com o resto da sociedade. É o caso da metáfora que David Dinis recuperou para título da entrevista no seu jornal (acima). Sendo imaginativo, parece-me mais do que excessivo comparar José Sócrates a um cristão-novo que tivesse sido vítima da inquisição.

16 maio 2018

E QUANDO NENHUM DOS LADOS TEM RAZÃO?


Gosto bastante desta cena de Analyse That (2002), pelo seu equilíbrio. Embora se reconheça a atitude destemperada da personagem de Robert de Niro, um antigo gangster a tentar adaptar-se a uma vida honesta, no caso vendendo (pessimamente) automóveis, é difícil não antipatizar simultaneamente com o pedantismo do casal de clientes. Assim não se vendem automóveis mas, se tal fosse possível, os vendedores prefeririam não ter de os vender a clientes como aqueles, que abusam do seu estatuto.

«- Olhem para o tamanho desta mala. Cabem três cadáveres lá dentro!
- ...?
- Estava a brincar. Estava a aligeirar a situação.
- Ok. Obrigado. Ficámos a saber.
- Qual é o seu carro actualmente?
- Agora é um Lexus 430 LS.
- É como um... Toyota.
- É um Lexus...
- 'tá bem, Toyota, Lexus, japoneses, não é verdade? Não nos esqueçamos de Pearl Harbor... De toda a maneira, vamos ao que interessa: querem comprar este carro ou não?
- Não sei. Vamos ter que pensar no assunto.
- O que é que há para pensar no assunto? Disseram-me que tinham gostado dele, fizeram-me para aí umas dez mil perguntas e eu respondi a todas elas, conduziram-no, gostam dele, o que precisam de saber mais?
- Sabe, é uma data de dinheiro e precisamos de tempo para avaliar...
- Avaliar? Então avaliem lá isto: estiveram a chatear-me os cornos durante uma hora, a fazer-me perguntas sobre cada um dos acessórios do carro, «e então a luzinha, e mais isto, e aquilo?»...
- Não pode falar assim aos clientes.
- Vocês não são clientes, se quer que lhe diga. Querem comprar o carro ou não?
- A si não. Quero ver o gerente.
- Quer ver o gerente? Eu mostro-lhe o gerente. (Segura nos genitais) Aqui está o gerente. Aqui está o homem com querem falar. O que é que eu faço? - põe-nos na rua! - Ouviram-no? Ele acabou de dizer para os pôr na rua. Ele é que é o boss - Eles que arranjem um Honda

Paradoxalmente, nesta altura da cena e perante tanta xenofobia automobilística, percebe-se que o automóvel que de Niro tinha estado a tentar vender é um Audi, marca de origem alemã.

A PARADA DA VITÓRIA DA GUERRA CIVIL FINLANDESA

16 de Maio de 1918. Encabeçada pelo general Carl Mannerheim tem lugar nas ruas de Helsínquia a parada da Vitória dos brancos na guerra civil finlandesa que eles haviam travado contra os vermelhos.

15 maio 2018

HUMOR INTELIGENTE

Para que tenha piada, o humor precisa de se revestir de uma certa sofisticação, senão perde a piada toda. Nesta Lição de Chinês impressa numa t-shirt, qual foi o intuito de adicionar um "manual de instruções"? Compadecer-nos dos mais obtusos?...

A AUTO EXTINÇÃO DA III INTERNACIONAL

15 de Maio de 1943. Com a Segunda Guerra Mundial ao rubro, a III Internacional (conhecida por Komintern) anuncia em Moscovo - where else?... - a sua auto dissolução. Segundo se podia ler no documento que a anunciava: «O papel histórico da internacional comunista, organizada em 1919 como resultado do colapso político da maioria esmagadora dos antigos partidos operários de antes da Grande Guerra, consistiu em preservar os ensinamentos do Marxismo da vulgarização e distorção que fosse cometida por elementos oportunistas dentro do movimento trabalhador. (...) Mas muito antes da guerra (nota: a Segunda Guerra), tornou-se crescentemente mais claro que, à medida que a situação interna e internacional de cada país se tornava mais complicada, a solução dos problemas do movimento trabalhador de cada país individualizado, recorrendo a um Centro internacional se iria deparar com dificuldades cada vez mais acrescidas.» Se invocar assim as especificidades nacionais e a inabilidade de uma organização multinacional para lidar com elas serviu de explicação para a dissolução da III Internacional em 1943, aceite-se que essa mesma explicação poderia ter servido para o mesmo propósito em 1933 ou em 1923. Era inverosímil. A explicação hoje admitida para este gesto de dissolver uma organização que projectava o poder da União Soviética para lá das suas fronteiras, terá sido a intenção de Estaline de aplacar circunstancialmente as desconfianças dos seus aliados anglo-saxónicos quanto às intenções imperialistas soviéticas. Tanto assim que, não as tendo aplacado, dali por apenas quatro anos, em 1947, ressuscitou uma outra organização considerada herdeira da III Internacional na sua função de fazer as organizações comunistas de todo o mundo marchar ao ritmo. Há 75 anos dissolvera-se o Komintern, mas viria a ser substituído pelo Kominform.

14 maio 2018

O «RECREIO» ITALIANO

Outrora e num país normal, ultrapassar os dois meses à espera da constituição de um governo era sinal de alarme. Actualmente, e para mais considerando que se trata de um país com a reputação da Itália, esses dois meses podem ser uma banalidade. Mas os italianos guardam o segredo de uma certa forma de estar que é mais bombástica do que as das outras nacionalidades. Não é só o que os populistas italianos possam dizer em período de campanha eleitoral, é o que eles fazem depois de vencerem as eleições. Aquilo que na política tradicional se designa por assumir as suas responsabilidades parece ser algo que lhes passa completamente ao lado. Tanto assim que a resolução do problema da formação do próximo governo italiano parece ter caído, inteirinha, no colo do presidente da República Sergio Matarella, uma figura constitucionalmente fraca em Itália, mas que se agiganta em casos de vácuo do poder como o que parece estar a acontecer. Depois de anos a fio observando a multiplicação do fenómeno do voto de protesto, de que o exemplo culminante terá sido o Brexit do Reino Unido e a eleição de Donald Trump nos Estados Unidos, é caso para perguntar se não se caminhará para o refluxo, quando da constatação que muitas destas formações protestantes, descontado o estilo, também não parecem possuir quaisquer soluções para os impasses estruturais das sociedades modernas. O M5S italiano e os seus aliados estão a mostrar-se um exemplo acabado disso.

O LANÇAMENTO DA SKYLAB

14 de Maio de 1973. Lançamento do laboratório espacial Skylab. Não se tratando de um feito capaz de concitar as atenções da opinião pública como o fora a Corrida para a Lua, este lançamento era uma outra proeza técnica de respeito, com a colocação de um colosso de 77 toneladas em órbita (a ISS actual é mais do que o quíntuplo disso, mas foi montada progressivamente ao longo de 13 anos). A missão correu globalmente bem, mas com incidentes que perturbaram a imagem de sucesso do programa. Em baixo, os vídeos com o momento do lançamento e uma reconstituição animada de como terá sido o percurso até à entrada em órbita com o desdobramento dos equipamentos auxiliares.


A CRIAÇÃO DO PACTO DE VARSÓVIA

14 de Maio de 1955. Assinatura da acta de fundação do Tratado de Amizade, Cooperação e Assistência Mútua que teve lugar em Varsóvia (acima) e de onde a organização recolheu o nome pelo qual ficou mais conhecida no Ocidente: Pacto de Varsóvia. Foram oito os países signatários: Albânia, Alemanha Oriental, Bulgária, Checoslováquia, Hungria, Polónia, Roménia e União Soviética. Nesta altura a NATO, fundada em Abril de 1949, já tinha cinco anos e fora muito recentemente reforçada (9 de Maio de 1955) com a adesão da Alemanha Federal, acontecimento que servia, aliás, de pretexto para a constituição do Pacto de Varsóvia. O Tratado era composto por um preâmbulo e 11 artigos e entrará em vigor a 4 de Junho seguinte, depois de rapidamente ratificado pelos oito países signatários. A União Soviética hegemoniza o conjunto mas não deixa de ser significativo da importância distinta dos países constituintes que as versões oficiais do Tratado sejam redigidas em quatro idiomas: russo, polaco, checo e alemão. Como quase todos os documentos formais dos países comunistas (a começar pelas Constituições...), também este era imaculado quanto à redacção dos princípios - a começar pela não interferência nos assuntos internos dos países aliados - princípios esses que eram tranquilamente pisoteados quando a realidade os punha em teste.
Neste caso concreto do Pacto de Varsóvia foi só preciso esperar um ano. Em 1956 o governo húngaro anunciou a sua intenção de querer sair do Pacto e adquirir um estatuto de neutralidade à semelhança do que acontecia com a Áustria: a Hungria foi invadida pela União Soviética. Em 1961 foi a Albânia que, na sequência da cisão sino-soviética e tendo alinhado com os primeiros, abandonou na prática a organização: ter-lhe-á valido que, ao invés do que acontecera com a Hungria e do que acontecerá com a Checoslováquia, a Albânia não tivesse quaisquer fronteiras terrestres com os seus «aliados» por onde estes poderiam fazer-lhe uma visita. Em 1968, a invasão foi contra a Checoslováquia e, dessa vez, para que a União Soviética não ficasse isolada com as culpas, as suas tropas vieram acompanhadas de contingentes alemães orientais, búlgaros, húngaros e polacos para enfeitar. A Albânia aproveitou a pouca vergonha para abandonar formalmente o tal Tratado de Amizade em que a amizade tinha estas formas bem estranhas de se exprimir e cuja formatação teórica acabou por se ver expressa na Doutrina Brejnev: a autorização para que a União Soviética interviesse militarmente nos países sob a sua alçada que ela considerasse em riscos de a desertar.
De 1955 a 1968, o Pacto de Varsóvia tomou assim cerca de uma dúzia de anos para que finalmente se assumisse, em vez de uma pretensa aliança formal para a defesa de uma eventual ameaça militar do Ocidente capitalista, como uma aliança de cariz policial (uma polícia de intervenção) para disciplinar os países membros em caso de deriva indisciplinada. Mais outra dúzia de anos transcorridos e, no caso polaco de 1980/81, o padrão já se estabelecera e a seriedade da ameaça já terá sido suficiente para que os próprios polacos se auto-reprimissem. O Pacto de Varsóvia veio a durar 36 anos (1955-1991) e, nesse último terço da sua existência, ao longo da década de 1980, revelou-se mais perturbador a existência de um Mikhail Gorbachev em Moscovo do que a aparição de reformadores nas capitais das periferias a que valesse a pena exprimir a amizade, a cooperação e a assistência mútua através do envio de carros de combate para passear nas avenidas dessas capitais do Leste da Europa. Se não tivesse sido extinto a 1 de Julho de 1991, o Pacto de Varsóvia completaria hoje 63 anos. O que dela resta são expressões de Ostalgie e aparentados, como esta caixa de soldadinhos para pintar.

13 maio 2018

«AQUILO» NÃO VALE AQUILO

O jornal israelita "Haaretz" até escreveu as coisas correctamente, mas depois quem as copiou para o "Expresso" é um incompetente que não percebe patavina do assunto sobre o qual o puseram a traduzir. É incompetente quando se refere a Ivanka Trump e quando coloca aquela vírgula separando o marido, do assessor presidencial que afinal não passam de uma e da mesma pessoa; a vírgula tem funções gramaticais, não é um sinal de pontuação que se emprega quando nos falta o fôlego; acresce que o marido da filha e assessor do pai Trump se chama Jared Kushner e não Jared Kunsher. É perante lapsos deste calibre que, mais do que ter deixado há muito de comprar o jornal, pergunto-me que desfaçatez e que estupidez sustenta o mistério do "Expresso" se fazer cobrar prime por 3,80 € com erros inaceitáveis e páginas e páginas e páginas em que metade do espaço disponível é vendido para publicidade.

HONESTIDADE

Eu teria assistido ontem ao Festival da Eurovisão sem qualquer reclamação se a sua promoção tivesse sido tão honesta como a deste artista de rua: péssimas canções, não tem que pagar nada por as ouvir.

O PÉSSIMO ACOLHIMENTO QUE RICHARD NIXON RECEBEU NA VENEZUELA


13 de Maio de 1958. De visita oficial à Venezuela, o vice-presidente dos Estados Unidos, Richard Nixon, é escandalosamente mal acolhido na sua chegada a Caracas. Os norte-americanos atribuem os incidentes a uma conspiração comunista, que terá levado os diversos partidos comunistas dos países latino americanos que Nixon visitaria ao longo da sua digressão (Uruguai, Argentina, Peru, Equador, Colômbia, Venezuela), a organizarem-lhe «comités de acolhimento» em cada uma das escalas. O processo tornou-se hoje num clássico da luta política: recordemo-nos das recepções organizadas pelo sindicato dos professores à ministra da Educação Maria de Lurdes Rodrigues quando das suas visitas às escolas. Mas pode voltar-se contra os organizadores, quando estes perdem o controlo sobre os manifestantes. Aí, o visado pode passar a ser a vítima. Foi o que aconteceu em Caracas. A verdade é que, tanto como a antipatia congénita dos latino-americanos pelos norte-americanos em geral (os gringos) e mais do que a hostilidade popular devidamente organizada pela estrutura comunista local, havia uma outra hostilidade institucional das autoridades venezuelanas para com as americanos. Isso é compreensível quando se lê abaixo a notícia de então, em que as próprias autoridades municipais de Caracas se recusavam receber o visitante. Não é abusivo deduzir que o espírito não cooperativo seria extensível às forças de segurança que estavam encarregues de proteger o visitante. E também é importante recordar que a Venezuela de então era uma sociedade habituada a regimes híbridos entre a democracia e a ditadura, de uma brutalidade imposta nas suas relações com os cidadãos. Não havia subtilezas na forma como o Poder reprimia nas ruas aquilo que ele não queria que acontecesse. Os acontecimentos só alcançaram aquelas proporções porque as autoridades venezuelanas se demitiram desde o princípio de os limitar. Os resultados concretos da violência são os que se podem apreciar no vídeo acima, uma péssima propaganda para a Venezuela do ponto de vista diplomático, a suscitar várias reacções institucionais nos Estados Unidos - por exemplo, foi concedida tolerância de ponto a todos os funcionários públicos de Washington D.C. para que fossem ao aeroporto acolher o vice-presidente de regresso desta viagem, tornada épica! Quanto à «interpretação dada pelos americanos à hostilidade de que Nixon foi alvo» (abaixo), as razões podiam ser económicas, dada a mais do que evidente disparidade dos padrões de vida entre a América do Norte e a do Sul, mas repare-se como o último parágrafo do texto remete para «a ofensiva de penetração económica soviética». Está explicado! Refira-se finalmente que há apenas um artigo, e em inglês, na wikipedia referindo este incidente de há 60 anos (nenhum em castelhano, ao contrário do que se poderia esperar tenho em conta o histórico recente das relações entre os dois países), e como ele mantêm, nos seus traços gerais, essa mesma explicação simplista.

12 maio 2018

A PREVERSIDADE DO MUNDO DAS SOMBRAS

O que se pode dizer desta fotografia é que o mundo das sombras pode ser muito traiçoeiro, ainda para mais quando um festivo e inocente balão com os pacatos votos de feliz aniversário se pode converter numa grande glande virtualmente projectada na parede.

A CONFERÊNCIA DE SPA

12 de Maio de 1918. Spa é uma aprazível vila termal do Leste da Bélgica onde, durante a Primeira Guerra Mundial, os alemães instalaram o seu quartel-general para as operações na Frente Ocidental. Foi aí que teve lugar há precisamente cem anos a conferência que reuniu os dois imperadores dos impérios centrais - acima, numa fotografia desse dia, Guilherme II, com o identificativo pickelhaube prussiano à esquerda e Carlos I, também facilmente identificável pelo característico feldkappe austro-húngaro. Infelizmente para o segundo, o equilíbrio aparente que era granjeado pela exuberância dos ornamentos das cabeças (coroadas), não tinha qualquer correspondência com as realidades políticas e militares. Depois de quase quatro anos de conflito, o império austro-húngaro do imperador Carlos estava nas vascas da agonia e a prioridade passara a ser a de preservar a coesão do império por sobre a vitória. Em contraste, o império alemão de Guilherme II, que inicialmente quase dera um boi para não entrar na briga, agora via-se na situação do mineiro que dava uma manada para não sair dela. Com perspectivas divergentes, imperava a desconfiança entre os dois aliados, a que se somou aquela etiqueta tipicamente germânica - nunca nos esqueçamos dos exemplos bem recentes de Wolfgang Schäuble! - de nem sequer dissimular a animosidade durante a conferência. Considerada a desproporção do poder e, sobretudo, do ânimo para prosseguir com a Guerra, os alemães impuseram todos os seus pontos de vista políticos e militares, reduzindo a Áustria-Hungria à condição de um satélite contrariado até ao fim da Guerra. Outras três conferências, já sem imperadores, realizar-se-ão posterirmente no mesmo local em Julho, Agosto e Setembro de 1918, mas a cenografia do que se seguiria fora estabelecida por esta primeira: os alemães diziam como é que se havia de fazer, os austro-húngaros sabotavam as decisões alemãs com que não concordavam como podiam.